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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

As rótulas estavam apenas cerradas, o que ela notou pela estreita faixa de luz que indicava o interstício das duas abas não ajustadas. A princípio teve escrúpulo; mas como era impossível enxergar por aquela fresta, deixou-se ficar. 

 

Instantes depois a moça caiu de bruços sobre o respaldo de grama, sufocando nos lábios o grito doloroso que lhe estalara no seio. 


Capítulo 9 

 

Soprava a viração da noite. 

 

O primeiro lufo, cortando o ambiente cálido e estagnado, e derramando no ar uma onda de frescura, rugitou pela folhagem das mangueiras. 

 

Com a rajada, as rótulas se tinham afastado de modo a mostrar no quadro da janela o interior do aposento. 

 

No centro havia uma mesa de charão com um vaso de rosas, colhidas naquela tarde. Amália vira quando Hermano as cortara da haste e pensou então que eram uma oferenda do marido à esposa querida. Naturalmente iam ornar o seu toucador. 

 

Junto do vaso estava aberta uma caixa de carvalho com preparos e utensílios de flores artificiais; e na beira da mesa uma peanhazinha de bronze que mantinha direita na sua haste de arame uma rosa de pano ainda por acabar. 

 

Hermano sentado ao lado com um livro aberto lia a meia voz; e embora o sussurro de suas palavras se perdesse nos rumores da noite, podia Amália mesmo de longe ver-lhe o movimento dos lábios. 

 

Mas não foi nada disto o que feriu a alma da moça, quando a veneziana aberta patenteou-lhe aquela cena. 

 

Em face de Hermano e também sentada como ele, Amália viu, cheia de espanto, uma mulher. Era moça e de rara formosura. Na posição que tomara, o seu talhe moldado por um vestido simples e justo, de seda azul à princesa, desenvolvia-se com um garbo indefinível. 

 

A madeixa de cabelos negros sombreava o níveo fulgor do semblante, cujo delicado perfil pareceu a Amália ser talhado em um jaspe macio e diáfano, tão suave era o tom dessa carnação. 

 

Descansava sobre a mesa um dos braços, cuja perfeição estética aparecia no esvazado da manga, e tinha a fronte ao de leve reclinada para a espádua, como uma flor que se realça para haurir a luz e os orvalhos do céu. 

 

Amália compreendeu essa expressão de êxtase. 

 

Pensou que a moça interrompera o seu trabalho de florista para embeber-se no encanto de ouvir as palavras de Hermano, o qual também abaixara o livro para contemplá-la e encher-se de sua beleza. 

 

Do primeiro relance Amália não viu senão uma maulher naquele aposento, que pertencia a Julieta; não sentiu senão o golpe de tão indigna profanação; e foi este sentimento que lhe despedaçou a alma em um grito de dor, e atirou-a convulsa e fulminada sobre o cômoro de grama. 

 

A cólera a reanimou. Ergueu-se e foi então que viu tudo. Seu olhar repassado de ódio correu todas as linhas daquela estátua harmoniosa como o faria o severo buril de um escultor; e não achou uma aspereza, um lisim. Ela poderia notar naquela fisionomia a fixidez de expressão, que a amortecia; mas era precisamente essa elação do amor, a maior sedução da rival de Julieta, a sua beleza ideal e celeste. 

 

Um criado velho, o Abreu, entrara no aposento. Arranjou os objetos que estavam sobre a mesa; colocou ali uma salva com serviço de chá para duas pessoas; e reparando nas rótulas abertas pelo vento, fechou-as com o trinco. 

 

Amália não viu mais nada senão a luz coada entre as lâminas das venezianas. 

 

Não se imagina a indignação que sublevou sua alma, quando refletiu naquele acontecimento. 

 

Se um homem amado por ela, depois de ter-lhe jurado fidelidade, a enganasse vilmente, não o puniria com o desprezo que tinha por Hermano nesse momento. 

 

Era uma traição torpe e infame a que havia cometido esse marido. Não lhe bastara esquecer a mulher, faltar ao seu juramento. Fez mais: insultou a sua memória, cobrindo com o véu de uma constância exemplar outro amor, que ele próprio se envergonhava de mostrar ao mundo. 

 

Amália identificava-se com a esposa traída; supunha Julieta rediviva em si e erguendo-se implacável para castigar o pérfido marido. 

 

Mas como? Morrendo outra vez; porém morrendo eternamente para ele; rompendo a cadeia que os unia, e abandonando-o a essa infeliz, como um sobejo da traição. 

 

Nos dias que seguiram esta cena, Amália foi má. Sua alma se tinha saturado de fel; os sentimentos afetuosos eram recalcados por um despeito violento. 

 

Anunciara-se a estréia de uma companhia italiana no Teatro Lírico. 

 

(continua...)

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