Por José de Alencar (1875)
Na primeira noite de representação lírica, Fernando levou ao teatro a família. Foi uma festa para as três senhoras; D. Camila, apesar de sua lhaneza de modéstia, sentiu ao atravessar a multidão pelo braço do filho um aroma de orgulho, mas desse orgulho repassado de susto, que é antes a consciência da própria humildade, do que desvanecimento de egoísmo. As filhas partilhavam esse sentimento; e acreditavam que todas as outras moças lhes invejavam aquele irmão.
Quando Fernando depois de instalar a família no camarote, saiu a percorrer o salão, encontrou um camarada:
Ó Seixas, não me dirás onde foste desencovar aquele terno de roceiras? Aposto que andas com tenções sinistras. Uma delas não é nenhuma asneira!... Que temível!
Fernando cortou este diálogo, a pretexto de cumprimentar um conhecido que passava.
Ao sair de casa, com a pressa e à luz mortiça do candeeiro, não tinha ele reparado no vestuário da mãe e irmãs. No camarote, porém, ao clarão do gás, não escaparam a seu olhar severo em pontos de elegância, os esquisitos do vestuário das três senhoras, tão alheias às modas e usos da sociedade.
O resto da noite, que lhe pareceu interminável, esquivou-se do camarote, e quando lá demorava-se não chegava à frente.
Durante alguns dias andou Seixas sorumbático e preocupado com este incidente. Chegou a pretextar um incomodo para ficar-se em casa e fugir aos divertimentos. É verdade que esta esquivança da sociedade também servia ao despeito da noite do baile. Ao cabo, resultou dessa crise um raciocínio que serenou o nosso jornalista.
Freqüentando assiduamente e com algum brilho a sociedade, adquirindo relações e cultivando a amizade de pessoas influentes que o acolhiam com distinção, era natural que ele Seixas fizesse uma boa carreira. Poderia de um momento para outro arranjar um casamento vantajoso, como tinham conseguido muitos que não estavam em tão favoráveis condições. Não era difícil também que de repente se lhe abrisse essa estrada real da ambição, que se chama política.
Uma vez rico e ilustre, montaria sua casa com um estado correspondente à sua posição.
Então sua família participaria não só dos gozos materiais desse viver opulento, como do brilho e prestígio de seu nome. O trato da sociedade lhes imprimiria o cunho de distinção de que precisavam para bem se apresentarem. Casaria as duas irmãs vantajosamente; e faria assim a felicidade de todos esses entes queridos confiados a seu desvelo.
Se ao contrário, ele Seixas se onerasse desde logo, no princípio de sua carreira, com o peso da família, prendendo-se à vida obscura de que não podia tirá-la ainda mesmo com sacrifício de todos seus rendimentos, que outra coisa devia esperar senão vegetar na penumbra da mediania e consumir esterilmente sua mocidade?
Firmou-se pois Seixas nesta convicção de que o luxo era não somente a porfia infalível de uma ambição nobre, como o penhor único da felicidade de sua família. Assim dissiparam-se os escrúpulos.
Seixas acabava de chegar de Pernambuco, onde se demorara oito meses; desembarcara na véspera, a tempo de não perder o Cassino.
O motivo ostensivo dessa viagem fora uma comissão, creio que de secretário da presidência. Dizia-se, porém, nas rodas políticas que o nosso escritor fora lançar as bases de uma candidatura próxima. Sem contestar o fato, acrescentavam os invejosos que o levar ao norte o fulgor dos belos olhos negros de uma moreninha pernambucana, que fora o astro da última sazão parlamentar.
Todas estas circunstâncias influíram na resolução de Seixas; mas a razão
predominante que o moveu, a ele carioca da gema, a ausentar-se da corte por oito meses, a seu tempo a saberemos.
VII
Brincava Fernando com as irmãs, quando bateram palmas à escada.
As meninas fugiram pela alcova; o Seixas sem mudar de posição, disse em voz alta:
- Suba!
Este modo de receber tão sem-cerimônia, talvez cause reparo em um moço de educação apurada, mas Seixas não era procurado em casa senão por algum caixeiro, ou por gente de condição inferior.
Borbotou, é o termo próprio, borbotou pela sala a dentro a nédia e roliça figura do sr.
Lemos que de relance fez às carreirinhas um ziguezague e atochou à queima-roupa no Seixas estático três apertos de mão um sobre o outro, coroados das respectivas cortesias.
- É ao sr. Fernando Rodrigues de Seixas que tenho a honra de falar?
O nosso escritor ergueu-se de pronto. Compondo as abas do chambre com um gesto rápido, tomou o ar de suprema distinção, que ninguém revestia com tanta nobreza e tato.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.