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#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

Siqueira — Achariam outro pretexto. Não faltam!

Clarinha — Meu tio!... O Senhor nunca teve ciúmes de sua mulher?

Siqueira — Como, Clarinha? Não ouvi.

Clarinha — Pergunto se o Senhor nunca teve ciúmes de sua mulher.

Siqueira — Ah! Estou viúvo há tanto tempo!... A falar verdade, não me lembro.

Clarinha — Ora! não quer responder.

Sales — O Sr. Siqueira já não entende desta matéria.

Siqueira — Confesso que nunca fiz profissão dela.

Clarinha — Pois querendo, pode tomar lições com o Senhor Sales.

Sales — Comigo! Ainda estou solteiro!

Clarinha — Felizmente para sua futura mulher.

Sales — Explique-me a razão, D. Clarinha.

Clarinha — Não quero ofender a sua modéstia. (A Siqueira) Decididamente não responde?... Meu tio tem na consciência algum pecado...

Siqueira — O de ter querido bem a minha mulher.

Clarinha — Não se pode querer bem, sem ter ciúmes.

Siqueira — Conforme! Quando se está a merecer, é natural; mas depois que se tem a certeza de uma estima recíproca, me parece até uma ofensa.

Sales — Não concordo!.

Clarinha — Nós já sabíamos a sua opinião, Senhor Sales, antes do Senhor dizê-la.

E tu; Isabel, pensas como meu tio?

Isabel — Perdoa, Clarinha! Estou tão aflita agora.

Clarinha — Que foi! O que sucedeu? (Correndo a ela)

Isabel — Recebi uma notícia bem desagradável.

Clarinha — De quem? De Augusto? E não me dizias! (Sales aproveita o momento

em que Clarinha se afasta para deitar no chapéu dela o ramo de flores)

Siqueira — Não é nada! Uma calúnia anônima contra Augusto.

Clarinha — Não dês importância a isto! É tudo inveja!...

Sales — Em minha opinião o código só devia admitir o anônimo nas correspondências amorosas...

Siqueira — Essas estão fora da lei. (A Isabel). Augusto virá hoje?

Isabel — Estou esperando por ele.

Siqueira — Então não pode tardar.



CENA II

Isabel, Clarinha e Sales

Clarinha — Está bom! Não quero que meu tio te ache triste!

Isabel — Augusto!... E este homem aqui!

Clarinha — Não te importes com ele.

Isabel — Tu sabes que eu não posso suportá-lo.

Clarinha — Mas, que te fez ele, que não tens querido dizer-me!

Isabel — Nada... uma repugnância invencível... Uma dessas antipatias que não se explicam... Não posso vê-lo.

Clarinha — Espera. (Alto). Senhor Sales!

Sales — Estava admirando esta cabana! É muito poética!

Clarinha — Pois deixe a cabana tranqüila, e faça-me o favor de ir até a Rua do Imperador.

Sales — Com muito gosto. Fazer o quê?

Clarinha — Fazer-me a vontade.

Sales — A Senhora está gracejando.

Clarinha — Ora! Por gracejo, não o obrigava a ir tão longe. É muito sério.

Sales — Então não percebo.

Clarinha — Porque não lhe faz conta. Tenha a bondade de ir até lá e contar quantas janelas tem o Hotel de Bragança. Foi uma aposta que fiz com Henrique e quero ganhar.

Sales — O seu desejo é ordem para mim.

Clarinha — Por saber disto é que tomei a liberdade.

Sales Quantas janelas a Senhora disse que tinha?

Clarinha — Não me lembro.

Sales — Então é inútil!

Clarinha — Não há meio de lhe fazer compreender as cousas. Henrique é teimoso, Sr. Sales, mas acredita no que lhe digo.

Sales — Perdão! Vou imediatamente: hoje mesmo venho lhe trazer a resposta!

Clarinha — Enfim... O Senhor é muito amável... Mas é escusado vir hoje... Vamos sair.

Sales — Então... será amanhã. (Com intenção) Uma e outra cousa.



CENA III

Isabel e Clarinha

Clarinha — Estás sossegada?

Isabel — Tu me prometeste que eu nunca o encontraria aqui; e sem isso não vinha a Petrópolis.

Clarinha — Henrique e teu marido é que são os culpados. Não há dia em que o não convidem.

Isabel — Se o tratasses secamente!

Clarinha — Trato-o como tens visto. Às vezes me aborrece; outras confesso que, na insipidez em que vivo, me serve de divertimento! É tão ingênuo!

Isabel — Zombas dele, bem sei! Mas tu não vês que esse moço não te compreende, e supõe que o distingues? Não vês que ele só vem aqui por tua causa?

Clarinha — Reparaste nisto?

Isabel — Não é de agora: quando solteira já ele te fazia a corte.

(continua...)

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