Por José de Alencar (1857)
EDUARDO - Continue a educar o espírito da sua filha como tem feito até agora; e fique certa que, se Alfredo tivesse uma alma pequena e um mau caráter, Carlotinha descobriria primeiro, com a segunda vista do amor, do que a senhora com toda a sua solicitude e eu com toda a minha experiência.
D. MARIA - Desculpa, Eduardo. Sou mulher, sou mãe, sei adorar meus filhos, viver para eles, mas não conheço o mundo como tu. Assustei-me vendo que um perigo ameaçava tua irmã; tuas palavras, porém, tranqüilizaram-me completamente.
CENA IX
Os mesmos, CARLOTINHA, AZEVEDO
AZEVEDO - Pode-se fumar nesta sala?
EDUARDO - Por que não? Vou mandar-lhe dar charutos.
CARLOTINHA (baixo) - Por que nos deixou, mano? Henriqueta está tão triste!
EDUARDO - Tratava da tua felicidade.
D. MARIA - Acha a nossa casa muito insípida, não é verdade, Sr. Azevedo?
AZEVEDO - Ao contrário, minha senhora, muito agradável; aqui podo-se estar perfeitamente à son aise.
EDUARDO (a PEDRO, na porta) - Traz charutos.
CENA X
AZEVEDO, EDUARDO
AZEVEDO - Realmente, Henriqueta perde vista em uma sala; não tem aquele espírito que brilha, aquela graça que seduz, aquela altivez misturada de uma certa nonchalance, que distingue a mulher elegante.
EDUARDO (rindo-se) - Como! Já estás arrependido?
AZEVEDO - Não; não digo isto! É apenas uma comparação que acabo de fazer. Tua irmã Carlotinha é o contrário.
EDUARDO - Sabes a razão disto?
AZEVEDO - Não...
EDUARDO - É porque já vês Henriqueta com olhos de marido!
AZEVEDO - Talvez...
CENA XI
AZEVEDO, PEDRO
PEDRO - Charutos, Sr. Azevedo; havanas de primeira qualidade, da casa de Wallerstein!
AZEVEDO - Pelo que vejo já os experimentaste!
PEDRO - Pedro não fuma, não senhor; isto é bom para moço rico, que passeia de tarde, vendo as moças.
AZEVEDO - Então é preciso fumar para ver as moças?
PEDRO - Oh! Moça não gosta de rapaz que toma rapé, não, como esse velho Sr. Vasconcelos, que anda sempre pingando. Velho porco mesmo!...
AZEVEDO - Mas tem uma filha bonita!
PEDRO - Sinhá Henriqueta! Noiva de senhor!...
AZEVEDO - Tu já sabes?...
PEDRO - Ora, já está tudo cheio. Na Rua do Ouvidor não se fala de outra coisa.
AZEVEDO - Ah! Quem espalharia? Apenas participei a alguns amigos...
PEDRO - O velho foi logo dizer a todo o mundo. V.Mce. não sabe por quê?
AZEVEDO - Não; por quê?
PEDRO - Porque... Esse velho deve àquela gente toda da Rua do Ouvidor; filha dele gasta muito, credor não quer mais ouvir história e vai embrulhar o homem em papel selado. Então, para acomodar lojista, foi logo contar que estava para casar a filha com sujeito rico, que há de cair com os cobres!
AZEVEDO - Isso é verdade, moleque?
PEDRO - Caixeiro da loja me contou!
AZEVEDO - Mas é infame... Um tal procedimento!... Especular com a minha boa fé!
PEDRO - Sr. Azevedo, não faz idéia. Esse velho, hi!... Tem feito coisas...
AZEVEDO - Vem cá; diz-me o que sabes, e dou-te u a molhadura.
PEDRO - Pedro diz, sim senhor; mesmo que V.Mce. não dê nada. É um homem que ninguém pode aturar... Fala mal de todo o mundo. Caloteiro como ele só. Rapé que toma é de meia cara. Na venda ninguém lhe dá nem um vintém de manteiga. Quando passa na rua, caixeiro, moleque, tudo zomba dele.
AZEVEDO - Um sogro dessa qualidade!... É uma vergonha! Vejo-me obrigado a ir viver na Europa!...
PEDRO - Pedro já vem!... (Vai à porta e volta.) Filha dele, sinhá Henriqueta... Mas Sr. Azevedo vai casar com ela!...
AZEVEDO - Que tem isso? Gosto de conhecer as pessoas com quem tenho de viver.
PEDRO - Pois então, Pedro fala; mas não diga a ninguém.
AZEVEDO - Podes ficar descansado!
PEDRO - Sr. Azevedo acha ela bonita?
AZEVEDO - Acho; por isso é que me caso.
PEDRO - Moça muda muito vista na sala!
AZEVEDO - Que queres dizer?
PEDRO - Modista faz milagre!
AZEVEDO - Então ela não é bem feita de corpo?
PEDRO - Corpo?... Não tem! Aquilo tudo que senhor vê é pano só! Vestido vem acolchoado da casa da Bragaldi; algodão aqui, algodão aqui, algodão aqui! Cinturinha faz suar rapariga dela; uma aperta de lá, outra aperta de cá...
AZEVEDO - Não acredito! Estás aí a pregar-me mentiras.
PEDRO - Mentira! Pedro viu com estes olhos. Um dia de baile ela foi tomar respiração, cordão quebrou; e rapariga, bum: lá estirada. Moça ficou desmaiada no sofá; preta deitando água-decolônia na testa para voltar a si.
AZEVEDO - E tu viste isto?
PEDRO - Vi, sim senhor; Pedro tinha ido levar bouquet que nhanhã Carlotinha mandava. Mas depois viu outra coisa... Um!...
AZEVEDO - Que foi? dize; não me ocultes nada.
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.