Por Camilo Castelo Branco (1882)
Seis anos depois, em 1845, quando o Zeferino das Lamelas andava em roda-viva de Barrimau para Quadros, o Cerveira não tinha alterado sensivelmente os seus hábitos. Estava muito gordo, saúde de ferro – um desmentido triunfante aos foliculários que desacreditam as virtudes higiénicas, nutrientes do álcool. Os vomitórios quotidianos explicavam a depurada e sadia carnadura do tenente-coronel. Orçava pelos cinquenta anos, com um arrogante aspecto marcial, de intonsas barbas grisalhas – olhos rutilantes afogueados pela calcinação cerebral. As filhas não mostravam vestígios alguns de educação senhoril. Aquela Teresinha, que a Rosa de Carude denunciara, fugira para casar com o minorista das Quintãs. As outras duas, muito boçais e alavradeiradas. tinham amantes – uns engenheiros e empreiteiros do conde de Clarange Lucotte, que andava fazendo as estradas entre Braga, Porto e Guimarães. Ninguém decente as queria para casar porque, além do descrédito, o pai não dava dote; e, desde que a mãe fugira, convenceu-se de que não eram suas filhas. Heitor e Egas, dois galhardos moços, de jaqueta de alamares de prata, faixa vermelha, e sapatos de prateleira com ilhoses amarelos, tinham éguas travadas que entravam pelas feiras num arranque de rópia e pimponice, que ia tudo raso. De resto, valentes e bêbedos, possantes garanhões de femeaço reles, e muito esquivos a tratarem com senhoras – canhestros e bestiais. Roubavam o milho e o vinho; vendiam, nas matas distantes, ao desbarato, cortes de madeira e roças de mato; além disso tinham umas pequenas mesadas que o pai lhes dava. Ainda assim, a casa de Quadros não estava empenhada, prosperava, e era das primeiras do concelho. O luxo do fidalgo era a garrafeira. Mais nada. As filhas de Honorata, quando, entre si, falavam da mãe, chamavam-lhe ; os rapazes, com um desapego desleixado que poderia fingir dignidade, nem se lembravam que tinham mãe. Quanto ao pai, esse, antes de jantar, era taciturno, casmurro, como quem se esforça por sacudir um pesadelo; e, de tarde, sumia-se para recomeçar as suas visões luminosas interceptadas pelas trevas momentâneas da razão. Não se sabe o que ele pensava da mulher.
Admitia pouca gente em sua casa e pouquíssima à sua presença. Além dos caseiros que lhe pagavam as grossas rendas de Vila do Conde, de Esmoriz e São Cosme do Vale, apenas recebia o pedreiro das lamelas, que lhe fizera os canastros e reconstruíra algumas paredes desabadas. Conhecia-lhe o pai, o alferes, desde a b atalha de Ponte Ferreira. Mandava-lhe botijas de genebra e maços de cigarros; – que bebesse, que se embebedasse, que os tempos não iam para outra coisa. E o alferes com vaidade de fino:
– A quem ele o vem dizer!
Ultimamente, falavam muito da chegada do Sr. D. Miguel – , dizia o Cerveira, pondo as mãos no peito e os olhos no tecto.
– Venha ele, e ver-me-ás, Zeferino, à frente dos meus dragões de Chaves! – Relampagueavam-lhe então as pupilas e fazia largos gestos marciais, com o braço trémulo como se brandisse a espada, rompendo um quadrado; montado na fantasia, arqueava as pernas, descaía o tronco sobre um imaginário cavalo empinado e bufava com trejeitos ferozes. Era de um ridículo lacrimável. O Zeferino dizia ao pai que às vezes lhe tinha medo quando ele fazia aquelas partes.
– O vinho do Porto é o Diabo! – dizia o alferes com uma grande experiência dessas façanhas incruentas –é o Diabo!
O Zeferino, na volta de Santa Marta de Bouro, contou-lhe o que soubera em casa do capitão-mor. O tenente-coronel quis imediatamente partir para Lanhoso; mas não tinha roupa decente para se apresentar a el-rei. As fardas estavam traçadas, podres, com um bafio de rodilhas no fundo de uma arca; dos galões restava um tecido esbranquiçado com laivos verdoengos; o casco das dragonas esfarinhou-se-lhe nas mãos roído pelos ratos. Não tinha casaca. Desde a convenção de Évora Monte, mandava fazer a Guimarães uns ferragoulos de mescla à laia de capote de soldado para o Inverno; de Verão, para equilibrar o calor artificial interno com o da atmosfera, andava em ceroulas e fazia leque da fralda. Por decência, fechava-se nos seus aposentos. Mandou chamar um alfaiate a Braga, o Cambraia da Rua do Souto, para se vestir à militar e à paisana.
Entretanto o Zeferino, um pouco desanimado, contou-lhe que o seu padrinho de Barrimau e mais o frade não acreditavam que el-rei estivesse em Calvos; que era uma comedela do Dr. Cândido de Anelhe e dos padres para apanharem cinquenta contos à D. Isabel Maria; que os generais do Sr. D. Miguel não sabiam de nada.
O Cerveira Lobo esfriou.
– Também me parece – dizia – que se o meu velho amigo D. Miguel aí estivesse, já me tinha mandado chamar.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.