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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Descoberta da Índia

Por Coelho Neto (1898)

Mouros, que se achavam dentro da S Gabriel, ouvindo os constantes brados da maruja que corria azafamada e afflicta para salvar o barco, julgaram que lhes haviam descoberto a perfídia e, com tal idea, precipitaram-se n’agua, fugindo a bom nadar em direcção á terra. Em grande colera, aos berros, transfigurado de odio mandou o capitão mór que pingassem dois outros que não haviam podido acompanhar os fugitivos e foram os traidores agarrados e, desnudando-se-lhes os ventres com pez fervente foram pingando as gottas sobre as carnes que chiavam; retorcendo-se, aos brados, confessaram a traição e que os pilotos que lhes déra o xeque iam peitados para atirar as naus sobre baixios. Um terceiro ia ainda ser submettido ao supplicio mas, já de mãos atadas, arrojou-se temerariamente ao mar e o piloto que levavam de Moçambique com tamanho azedume do navegador e receoso da sua ira, ao luzir da manhã, achando a gente distrahida, poz-se a nado.

Não era o Gama de coração sensível e, se continha os seus impulsos violentos, era que tinha em mais conta o exito da empreza do que a vingança mas, em se lhe encrespando a raiva, nada o detinha e castigava e torturava com a crueldade céga do seu ódio.

Os mouros, certos de que não ganhariam as naus com a astucia, resolveram perdel-as com a audácia e, á noite, nas suas zabras ligeiras, remando surdamente, coseram-se com o costado dos navios e uns palmeando, outros subindo ás botucaduras, preparavam o assalto emquanto outros, á frente, iam sem ruído, picando as amarras para que as naus, garrando, fossem sobre os baixios e nelles ficassem á mercê do xeque. Descobertos com tempo, e alarmada a companha, fugiram desabaladamente tornando, porém, em a noite seguinte sem, todavia, atracarem por haver maior cuidado e redobrada vigilancia a bordo.

Ainda demorou-se a frota n'esse porto tão salteado de insidias porque o Gama não perdia a esperança de encontrar piloto que o guiasse ao desejado termo mas, ao fim de dois dias, safaram-se os navios fazendo-se ao mar roleiro onde, entretanto, andavam as vidas mais seguras.

Iam longe de Mombaça quando avistaram um zambuco no qual viajavam varios homens e uma joven mulher que era d'um mouro, o principal do bando. Do que traziam em mantimentos fez presa o capitão mor e interrogando os homens sobre se conheciam o caminho que demandava todos negaram

dizendo, entretanto, que, pouco além, á beira do mar, jazia uma cidade Melinde de nome, governada por um rei muito humano, onde o Gama poderia achar o que buscava, ajuntando — que n’ aquelle porto estavam fundeados tres ou quatro navios de christãos.

Melhor seria ao Gama haver achado em um d'aquelles homens o piloto de que tanto carecia para a navegação n'aquelles mares que jamais haviam sido cavados pelas proas européas, melhor seria que pudesse fazer rumo directo, porque, tão más eram as impressões que da gente negra lhe ficaram durante o commercio que com ella tivera no seu curso que, de vel-a, já se lhe arreliava o coração e o animo abrazava-se mas, acima de tudo, estava a sua empreza, e, pensando na India e na gloria de avistal-a, resolutamente governou para Melinde.

MELINDE

II

Com jogos, danças e outras alegrias,

A segundo a policia Melindana,

Com usadas e ledas pescarias,

Com que a Lageia Antonio alegra e engana,

Este famoso Rei todos os dias,

Festeja a companhia Lusitana,

Com banquetes, manjares desusados,

Com fructas, aves, carnes e pescados.

(CAMÕES — Os Lusiadas, eanto VI.)

Do indeciso lusco-fusco - quasi extinctas as ardentias, com as estrellas morrendo no céu que se arreava de purpura e de ouro, num esplendor de victoria, como se pela Altura limpida anjos andassem estendendo brocados para a festa magnifica da Resurreição - rompia a manhã de Pascoa.

As aguas, apenas frisadas por uma brisa fraca, brilhavam tremulas como se fossem recobertas de pequeninas escamas reluzentes e as naus, com bandeiras e flamulas, seguiam a um brando balouço ao tempo em que a maruja, celebrando a memoravel dacta, tão gloriosa para a christandade, accordava o silencio com trombetas e charamellas nas quaes tocava a alvorada excelsa.

Chegavam-se todos ás bordas porque mouros, aprisionados no zambuco haviam annunciado Melinde; olhavam longamente, anciosamente quando uma claridade irradiante alastrou pelas aguas envolvendo as naus em um fluido de purpura, tingindo as velas e os cabos dum louro avermelhado: era o sol que nascia grande e rubro, surgindo d'agua como um deus oceanico que irrompesse, todo em galas tyrias, seguindo sobre ouro e coral e perolas esparsas.

Mas já, ao longe, o arvoredo apparecia como uma flora marinha que houvesse re-

pentinamente surgido á tona d'agua e brancos muros por entre arvores e outeiros d'um verde alegre e estendidas praias alvas. Mostravam-se, com o andar das naus, mais largas e pittorescas, as terras do novo reino.

Passaros voavam no ar sereno e macio, alguns pousavam nas vergas e ficavam debicando as pennas e, como a agua era transparente, viam-se os peixes nadando em volta das naus, em cardumes de prata. De nau a nau, indo ellas proximas, os marujos exclamavam: «Oh! que belleza!» como se reciprocamente se felicitassem.

(continua...)

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