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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

- Ah! Isto não há de ficar assim! - bradava Dona Leonarda, quando me encontrou por acaso na rua. - Isto não há de ficar assim! Pois então prende-se a gente deste modo, e deste modo se dá cabo de um homem! A quem me hei de dirigir sei eu! Tenho alguns conhecidos na imprensa, graças a Deus! E meu compadre Quintino há de mostrar-lhes de quantos paus se faz uma canoa! Hão de ver o bom e o bonito! Súcia de trapalhões!

E, como verificará V.Sª. pela seguinte carta, não era debalde que o demônio da velha dizia aquilo.

Sou de V.Sª.

Atº. Crº. e ven.or

Romance ao correr da pena

X

Antes de dar conta da primeira e memorável entrevista que a terrível Dona Leonarda cometeu contra o seu compadre Quintino, peço ao leitor que me acompanhe de novo à minha casa, onde iremos encontrar o nosso extravagante João Alberto, estendido sobre a cama, a fumar voluptuosamente um charuto dos que encontrara na algibeira do seu substituto de morte.

- Então? - disse-lhe ao entrar no quarto. Como vai isso?

- Magnificamente! - respondeu ele. Sinto-me melhor do que nunca! Ah! Vejo que não há para a saúde e para o bom humor como algumas horas de morte e um passeio ao Cemitério de São Francisco!... Gostei tanto da brincadeira que, se fosse homem de recursos, havia de lá ir todas as semanas, dentro de um caixão e puxado pelo burrinho da Misericórdia!

- Bem - volvi eu. - Mas deixe por enquanto as considerações, e passemos uma revista nas algibeiras daquele fraque, porque desconfio que encontrarei ai alguns esclarecimentos úteis para as minhas pesquisas.

- Então o senhor quer me revistar as algibeiras?

- Perdão! não lhe quero revistar as algibeiras, as suas, mas sim as algibeiras do fraque do homem que eu procurara.

- Que procurara? Explique-se!

- Sim. Aquele sujeito que ficou no cemitério é o homem que eu procurara.

- Para quê?

- Negócios particulares...

- Não! Desde que eu me apossei do lugar, da roupa, da carteira e do nome daquele pobre homem, entendo que sou o seu único representante sobre a terra e estou disposto a responder por ele. Diga pois o que deseja do meu infeliz cliente. Os seus negócios tratamse comigo!

- Já lhe disse que são negócios particulares, e só tratáveis com ele próprio. Quero dar uma busca nessas algibeiras, porque é natural que o miserável trouxesse consigo algum documento dos seus crimes.

- Ah! Ele era um criminoso?

- Dos piores.

- E que lhe queria o senhor?

- Matá-lo.

- Sim?

- Com certeza.

- E não poderia o amigo, com um pouco de boa vontade, substituir essa intenção por outra?

- Por outra?

- Sim; visto que agora, neste bom momento de repouso e ventre cheio, não me seria muito agradável cumprir com essa desagradável formalidade...

- De que formalidade está o senhor aí a falar?

- Da formalidade de morrer pelo meu homem. Já não lhe disse que aceitei com todos os ônus o lugar vago que ele deixou no mundo?

- Vago parece-me você!

- E sou.

- Vago e cínico!

- Também, mas confesso que neste momento não estou muito disposto a morrer. Ponhamos de parte esta questão por enquanto e mais tarde entraremos em qualquer acordo. Pode todavia ficar tranqüilo, que se faz muito empenho em matar o Castro Malta, eu não fugirei ao dever. Descanse.

- O senhor é idiota.

- É exato talvez, mas veja se pode ir dar um passeio; tenho sono e preciso dormir. Vá!

Dizendo isto o ressuscitado bocejava, encolhendo-se na cama e aconchegando-se aos travesseiros.

- Olhe! - acrescentou ele - se faz muito gosto em revistar-me as algibeiras, reviste-as durante o meu sono e, se quiser roubar o dinheiro que aí tenho, peço-lhe o obséquio de não roubar tudo. Deixe-me alguma coisa...

E bocejava de novo.

Eu, para não lhe distrair o sono, deixei de responder e sai do quarto.

Daí a pouco o boêmio ressonava como um porco, e eu tratei de apoderar-me da roupa que ele trouxera do cemitério.

Principiei a revista pelo fraque, passei depois ao colete e afinal às calças.

Encontrei o seguinte, cujos objetos inventariei em uma folha de papel, que hoje se acha em poder do compadre de minha sogra:

Uma carteira com três bolsos, havendo em um deles uma conta de charutos da Casa Havanesa; um pedaço de papel sujo e meio roto, no qual se liam os seguintes versos: Amei-te um dia, oh! que triste sorte!

Amei-te muito, amei-te por demais Visto que tu, mulher, eras mais forte Do que...

O resto não se podia ler.

Havia ainda nesse bolso da carteira um décimo da loteria de São Paulo; uma receita passada pelo Dr. Silva Araujo, e uma pequena trança de cabelos castanhos amarrados por uma fita azul toda nodoada de óleo cheiroso.

No outro bolso da carteira encontrei duas notas de vinte mil-réis e uma de dez; ao lado das notas um outro décimo da loteria de São Paulo e uma cautela do Monte-do-Socorro, que constava de - um broche de ouro em forma de coração, guarnecido por um chuveiro de diamantes.

(continua...)

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