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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Mas como foste lá pelo norte? Que fizeste? Que me contas de novo?... — Nada, isto é, casei-me. Olha, aqui tens minha mulher...

E voltando-se para uma das senhoras:

— Sinhàzinha, este é o Gregório, um menino que deixei quase do tamanho desta bengala e venho encontrar mais alto do que eu! E acrescentou, cortando uma risada e designando as outras senhoras: — D. Januária, velha amiga de minha mulher, e sua bela filha adotiva, D. Clorinda. Amanhã hás de ir jantar comigo e ficas prevenido de que te não dispenso um só domingo!

E o espetáculo passou-se todo em conversa.

Ao levantar-se no dia seguinte, Gregório notou que sentia no coração um desejo vago, e, nesta dúvida, neste estado vacilante da vontade, passou a manhã inteira e passou também todo o jantar, apesar da alegria ruidosa de Roberto.

Só à noite, com a chegada de D. Januária e da pupila, é que Gregório conseguiu descobrir o que tanto desejava ele esse dia — era ver Clorinda.

Não esperou segundo convite para jantar todos os domingos com o amigo. Duas razões o levaram a isso: a primeira porque aquele costumava reunir em casa algumas pessoas, entre as quais D. Januária e sua adorável filha adotiva; a segunda razão saberá o leitor daqui a pouco. Por enquanto precisamos falar de outra coisa.

As reuniões do Dr. Roberto eram muito limitadas; pouca gente aparecia além da que acabamos de citar.

A mulher, D. Cartolina, não dava muito para etiquetas, se bem que fosse de seu natural amiga de agradar e servir. Gostava, porém, que não a tirassem da sua liberdade e do seu cômodo.

Isso mesmo dizia o ar descansado e bondoso da sua figura gorda e linfática; contudo, era muito raro se lhe surpreender nos lábios o menor gesto de contrariedade.

Gregório, quando a visitou pela primeira vez, passou algumas horas assentado ao seu lado, e sentiu-se durante esse tempo ir pouco a pouco penetrando do ar morno, indiferentemente satisfeito, que respirava dela toda, como a própria temperatura do corpo.

Carolina não se levantara sequer para o receber, mas demorara nas suas mãos algum tempo a do rapaz e indagara-lhe da saúde com um riso esparrinhado por todo o rosto. Às vezes parecia que ela se deixava ficar assim a sorrir indeterminadamente, por esquecimento ou por preguiça de suspender o sorriso.

Suas feições estavam sempre abertas, como as gavetas de um desmazelado; mas olhava-se para dentro delas, com o desinteresse com que se olha para o interior de gavetas vazias.

Nada a sobressaltava, nada a afligia. Pela manhã, às dez horas, a criada ia ajudá-la a sair da casa para o banho morno; servia-lhe depois uma papa de leite e farinha de mandioca, e passava a penteá-la, calçá-la e vesti-la. Durante esse tempo as duas, senhora e criada, conversavam, devagar, molemente, assuntos bambos, sem interesse para ninguém e maçadoramente virgulados de grandes pausas.

Carolina gostava em extremo que lhe mexessem na cabeça, estimava que a criada demorasse bem o arranjo de seus cabelos, durante o qual se repoltreava ela na cadeira, toscanejando uma voluptuosidade surda e espessa, de gata saciada.

Às vezes adormecia nessas ocasiões e era preciso que a criada a chamasse depois para o almoço.

Comia muito compassadamente, aos bocadinhos, como uma criança gulosa. Era doida por doces e quitutes. Quando passava pelo açucareiro tirava em geral um pouco de açúcar, com que cobria a língua. Fazia muita questão na escolha dos pratos. Recomendava de véspera, durante o almoço ou o jantar, o que lhe apetecia comer no dia seguinte, e a algumas iguanas mais do seu gosto, como por exemplo a moqueca de peixe, ela só saboreava sem talher, à mão.

O marido por muito tempo procurou reagir contra esses hábitos sedentários; expôs à mulher os inconvenientes de uma existência sem exercício, sem preocupação de espécie alguma, ofereceu-lhe livros, lembrou-lhe a jardinagem, falou de tudo o que podia honestamente prender o espírito de uma senhora ou obrigá-la a qualquer esforço físico; mas nada conseguiu; Carolina não se abalara e, quando o marido insistia muito nas suas costumadas censuras, ela respondia com todo o descanso:

— Ora, seu Roberto, deixe cada um com seu gênio!...

E Carolina ficou no que era.

Esteve grávida, e a gravidez só lhe parecia antipática, porque a obrigava a sair um tanto dos seus hábitos sedentários. O filho tomou a resolução de morrer antes do nascimento. E fez bem.

Contrastava vivamente com o tipo da dona da casa, uma de suas visitas mais constantes e mais da sua intimidade — D. Josefina de Brito; a mesma que no primeiro capítulo, por ocasião do gorado casamento de Gregório, tão indignada se mostrou, na qualidade de madrinha, com o estranho procedimento do noivo.

(continua...)

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