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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

O Coqueiro observava em silêncio o novo colega ;enquanto o Paiva e o Salustiano reatavam um velho colóquio, interrompido à última vez que estiveram juntos; saiu do seu recolhimento para indagar de que província era Amâncio, como ia-se dando nos estudos e onde estava hospedado. Entretanto, o Simões afrouxava lentamente na conversa com o outro e caía aos poucos na sua habitual concentração; já respondia apenas por monossílabos e só despregava o cigarro dos dentes para bocejar. Afinal, sem conter a impaciência, quis dissolver o grupo; mas Amâncio tolheu-lhe a idéia perguntando-lhe e mais ao Coqueiro se já tinham almoçado e, visto que não, pediu-lhes que lhe fizessem companhia.

Aceitaram, depois de alguma resistência por parte do último; e os quatro rapazes seguiram imediatamente caminho do hotel, a rir e dar de língua, como se fossem todos amigos de muito tempo.

Paiva Rocha pediu um gabinete particular e aí se instalou com os outros.

Amâncio estava maravilhado. O aspecto daquelas salas afestoadas, cheias de espelhos, de cortinas e douraduras, no gênero pretensioso dos hotéis, ar parisiense dos criados, vestidos de preto e avental branco; a cor estridente do gabinete; o perfume das flores que guarneciam jarras de proporções luxuosas; o alvoroço palavroso e alegre dos que faziam a sobremesa; o crepitar do riso das mulheres, cujos penteadores branquejavam sobre o escuro dos tapetes; a reverberação dos cristais; a expectativa de um bom almoço, que seria devorado com apetite, e finalmente a circunstância de que Amâncio, havia muito não gozava uma pândega; tudo isso lhe refrescava o humor e o fazia feliz naquele momento

— Garçon! Gritou o Paiva, entrando no gabinete com um ar sem – cerimônia— La carte!

O criado disparou.

— Tu falas francês?...inquiriu Amâncio, já com admiração na voz.

— Ora! respondeu o Paiva, levantando os ombros. Aqui na Corte será difícil encontrar alguém que não fale francês!...

— Pois eu ainda não sei...disse aquele tristemente..

— Questão de prática! observou o outro.

Coqueiro, que acabava nesse momento de entrar no gabinete, conversando com Simões, propôs que se despissem os paletós.

Principiaram a comer.

O Paiva encarregara-se do menu. Estava radiante; parecia empenhado na direção do almoço, como se tratasse de um trabalho difícil e glorioso. Escolhia pratos esquisitos e determinava os vinhos que os deviam acompanhar.

— Este Paiva é terrível para um menu! observou o Simões em ar de troças.

— Não! disse aquele. — Não admito que ninguém dirija um almoço melhor do que eu!

— Sim, considerou o Coqueiro — mas vais ver por que preço sai tudo isso!...

— Não faz mal!...apressou-se Amâncio a declarar. — Sinto-me tão bem entre os senhores...há tanto tempo não tinha um momento livre, que...

— Bem, de acordo, respondeu Coqueiro — mas é preciso deixar esse tratamento de “senhor”.

Entre rapazes não deve haver cerimônias, mal-entendidos; somos colegas, temos de ser amigos, por conseguinte tratemo-nos desde já por “tu ”! Não és da mesma opinião, ó Paiva?

In totum! respondeu este, abraçando Amâncio pela cintura. – Nós cá somos camaradas velhos! vem de longe!

E parecia querer provar que seus direitos sobre o comprovinciano eram muito mais legítimos que os dos outros dois; que Amâncio lhe pertencia quase exclusivamente, como um tesouro, como uma fortuna que se traz do berço. E, para deixar isso bem patente, fazia-se muito íntimo com ele: batia-lhe nas pernas; evocava recordações; lembrava-lhes as correrias das província:

— Ah! Nós éramos muito camaradas! Lembras-te Amâncio daquele passeio que fizemos ao Portinho?...

Em que o Malheiros tomou uma bebedeira de charuto, perguntou o interrogado a rir. — Naquele dia do barulho no Liceu; quando o Chico moleque foi expulso!...

— É verdade! que fim levou esse rapaz! Quis saber o Paiva. — Era um bom tipo. Inteligente!

— Morreu, coitado! de bexigas. Ultimamente estava no comércio.

— E aquele pequeno, o ...

— Qual?

— Aquele bonito, de cabelos grandes ...ora, como se chamava ele? ... o ...

— Ah! exclamou Amâncio, soltando uma risada — o Dominguinhos?

— Isso! isso! Dominguinhos justamente! Que fim levou?

— Não sei, não! Creio que seguiu para Manaus com a família. Um bobo! Lembras-te da troça que lhe fizemos no convento?...

E os dois riram-se muito com a mesma idéia.

Simões, que até ali parecia pouco disposto à pândega, foi-se animando na proporção das garrafas que se enxugavam. O almoço aquecia. João Coqueiro propôs um brinde a Amâncio e declarou, depois de lhe fazer muitos elogios, que folgaria imenso com ser recebido no rol de seus amigos.

Amâncio abraçou-o e prometeu que o iria visitar no primeiro Domingo.

— Vá feito! sustentou o Coqueiro. Ali não há cerimônia, minha família é muito despida dessa coisas.

— Ah! mora com a família? interrogou o provinciano.

— Sou casado, respondeu o outro. — Isso, porém, nada quer dizer. Apareça.

Ficou decidido que Amâncio iria sem falta no próximo Domingo.

Simões principiou então a falar sobre o casamento; daí passou às mulheres:

(continua...)

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