Por José de Alencar (1857)
Pereira (a Teixeira) — É verdade que alguns espíritos mesquinhos chamam os poetas de loucos, porque não os compreendem; mas V.Ex.a não está neste número. Teixeira — Entretanto, o senhor vem com um despropósito! Onde ouviu falar de casamento de minha filha?
Pereira — Há muito tempo sabia que o senhor seu sobrinho e a senhora sua filha se amam ternamente...
Teixeira (olhando Júlia e Ernesto, cabisbaixos) — Se amam ternamente!... (A Pereira) E que tem isto? Quando mesmo fosse verdade, é natural; são moços, são primos...
Pereira — Por isso, sendo hoje um sábado, e não tendo V.Ex.a ido à Praça, conjeturei que as bodas, a feliz união dos dois corações...
Teixeira conjeturou mal; e para outra vez seja mais discreto em não intrometer-se nos negócios de família.
Pereira — E a poesia? V.Ex.a não a recebe?
Teixeira — Leve a quem a encomendou; ele que lhe pague! (Voltando-lhe as costas)
Ernesto (baixo, a Pereira) — É justo que seja eu que aproveitei. O senhor não sabe o serviço que me prestou. (Dando-lhe um bilhete) Tome e safe-se quanto antes.
Pereira — Entendo!
Ernesto (a Júlia e D. Mariana) — Sublime raça que é esta dos poetas! Sem o tal Sr. Pereira ainda estava engasgado com a palavra, e ele achou uma porção de sinônimos: consórcio, feliz união, bodas, núpcias, himeneu e não sei que mais...
Pereira (a Teixeira) — Peço a V.Ex.a queira desculpar.
Teixeira — Está bom, Sr., não falemos mais nisto.
Pereira — Passar bem. (Sai)
CENA XVIII
Teixeira, Ernesto, Júlia, MARIANA, depois Custódio (Teixeira acompanha Pereira que sai pelo fundo).
Júlia (a D. Mariana) — Não tenho ânimo de olhar para meu pai!
D. Mariana — Ele não foi moço? Não amou? (Teixeira desce).
Ernesto — Aí vem o temporal desfeito.
Teixeira — Com que então ama-se nesta casa; a gente de fora sabe; e eu sou o último a quem se diz...
Ernesto — Perdão, meu tio, não tive ânimo de confessar-lhe.
Teixeira — E tu, Júlia, que dizes a isto?
D. Mariana (a Júlia, baixo) — Fale! Não tenha medo!
Júlia — Papai!...
Teixeira — Percebo... Queres casar com teu primo, não é? Pois está feito!
Júlia — Ah!
D. Mariana — Muito bem!
Teixeira (a Ernesto) — Com uma condição, porém; não admito epitalâmios, nem versos de qualidade alguma.
Ernesto — Sim, meu tio; tudo quanto o Sr. quiser! Hoje mesmo podia ser... É sábado...
Teixeira — Alto lá, Sr. estudante! Vá se formar primeiro e volte. (D. Mariana sobe e encontra-se com Custódio)
Ernesto -— Oito meses!...
D. Mariana (a Custódio) — Voltou?
Custódio — Perdi o ônibus! O recebedor roeu-me a corda!
Ernesto (a Júlia) — Esperar tanto tempo!
Júlia — Mas assim é doce esperar.
Ernesto — Oito meses longe do Rio de Janeiro! Que martírio, meu Deus!
Teixeira (levantando-se) — Vamos! O café já deve estar frio. (Sobe e vê Custódio) Oh! compadre!
Custódio — Perdi o ônibus. Que há de novo?
Teixeira — Que vamos almoçar.
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Verso e Reverso. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16680 . Acesso em: 28 jan. 2026.