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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Mariquinhas, mais velha que Fernando, vira escoarem-se os anos da mocidade, com serena resignação. Se alguém se lembrava de que o Outono, que é a estação nupcial, ia passando sem esperança de casamento, não era ela, mas a mãe, D. Camila, que sentia apertar-se-lhe o coração, quando lhe notava o desbote da mocidade. 

Também Fernando algumas vezes a acompanhava nessa mágoa; mas nele breve a apagava o bulício do mundo. 

Nicota, mais moça e também mais linda, ainda estava na flor da idade; mas já tocava aos vinte anos, e com a vida concentrada que tinha a família, não era fácil que aparecessem pretendentes à mão de uma menina pobre e sem proteções. Por isso cresciam as inquietações e tristezas da boa mãe, ao pensar que também esta filha estaria condenada à mesquinharia sorte do aleijão social, que se chama celibato. 

Quando Fernando chegou à maioridade, D. Camila nele resignou a autoridade que exercia na casa, e a administração do módico patrimônio que ficara por morte do marido, e que embora partilhado nos autos, ainda estava intacto e em comunhão. 

O rendimento da caderneta da Caixa Econômica e dos escravos de aluguel andava em Cr$ 150,00 ou Cr$ 125,00 mensais. Como, porém, a despesa da família subia a Cr$ 150,00, as três senhoras supriam o resto com seus trabalhos de agulha e engomado, no que as ajudavam as duas pretas do serviço doméstico. 

Ao tomar a direção dos negócios da casa, Seixas fez uma alteração nesse regulamento. Declarou que entraria por sua parte com os 25 cruzeiros que minguavam, ficando as senhoras com todo o produto de seu trabalho para as despesas particulares, no que ele ainda as auxiliaria logo que pudesse. 

Nessa época ele já era segundo oficial, com esperanças de ser promovido a primeiro; e seus vencimentos acumulados à gratificação que recebia pela colaboração assídua do jornal, montavam acima de três mil cruzeiros. Mais tarde subiram a sete mil em virtude de uma comissão que lhe deu o ministro, por haver simpatizado com ele. 

Assim tinha anualmente um rendimento de Cr$ 8500,00 do qual deduzindo Cr$ 1800,00, que dava à família em prestações de Cr$ 150,00 cada mês, ficavam-lhe para seus gastos de representação Cr$ 6700,00, quantia que naquele tempo não gastavam com sua pessoa muitos celibatários ricos, que faziam figura na sociedade. 

Uma noite, Seixas sofreu uma decepção amorosa ao entrar no baile, e retirou-se despeitado. Não tendo onde consumir as horas, e aborrecido da sociedade, recolheu-se à casa. A desventura pungiu-lhe a musa, que era de índole melancólica. Lembrou-se do seu Byron e das imitações que havia feito de algumas das mais acerbas exprobrações do bardo inglês. 

Era extraordinário passar Fernando a noite em casa. Para evitar explicações resolveu entrar inapercebido, e subiu as escadas de manso. Abriu a porta da sala com a chave francesa que ele trazia na argola, assim como a da rua, para não incomodar a família quando voltava a dez horas e ganhou sua alcova. 

D. Camila com as filhas estava ao chá; havia de visita uma família da vizinhança. As moças conversavam alto; no meio dessa garrulice ouviu Fernando que falavam da representação de uma ópera que se dava então no Teatro Lírico. 

As amigas tinham assistido ao último espetáculo e referiam por miudo às duas irmãs, encarecendo o divertimento com muitos louvores. 

- Ainda não viram? Pois não devem faltar; vale a pena. Peçam a seu irmão. 

Tomadas de surpresa pela interpelação direta, as duas irmãs arrefeceram logo no interesse com que escutavam a descrição do espetáculo. 

Retraíram-se ambas silenciosas; mas insistindo as outras com alguma malícia, a Mariquinhas que era mais desembaraçada, respondeu: 

- Fernandinho já nos convidou muitas vezes; mas tem havido sempre um transtorno qualquer. 

- É Verdade! Observou Nicota. 

Pela primeira vez desenhou-se claramente no espírito de Seixas um contraste que aliás tinha diante de si todos os dias, a cada instante, e do qual era ele próprio um dos termos. 

Enquanto lhe minguavam as horas para os prazeres de que se fartava, aquelas três senhoras ali desfiavam as compridas noites sem outro entretenimento além da tarefa jornaleira ou daqueles ecos do mundo, que até lá chegavam com alguma rara visita. 

Consigo unicamente despendia ele mais do triplo da subsistência de toda a família. Nessa mesma noite para ir a um baile de que saíra apenas chegado, dissipara maior quantia da necessária para das a suas irmãs a satisfação de um espetáculo lírico. 

Estas idéias apossaram-se de seu espírito. Em vez de riscar o fósforo já em mão para acender a lâmpada que alumiasse a vigília poética, e o charuto que lhe opiasse a musa, atirou-se à cama, fincou a cabeça no travesseiro, e dormiu o sono do justo. 

(continua...)

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