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#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

Rita — Estão novinhos em folha no guarda-roupa.

Miranda — Naturalmente porque não são do gosto dela. Também tu não lhe perguntas o que ela deseja.

Rita — Sinhá acha tudo bom! Tudo lhe agrada mas não quer que se compre...

Aquelas jóias, meu Senhor não sabe ainda, estão por abrir.

Miranda — Não teve a curiosidade de vê-las?

Rita — Viu, sim, Senhor, e achou muito bonitas. Mas de que serve?... Ninguém vê

Sinhá com elas. Estão guardadas. Diz que hão de ser para Iaiá quando ficar moça. (Pausa. Miranda brinca com a menina)

Miranda — Quem sabe se ela não está aborrecida do Rio de Janeiro. Talvez deseje fazer uma viagem, ir à Europa; e não me diz por acanhamento.

Rita — Qual, meu Senhor.

Miranda — Nunca a ouviste falar nisto?

Rita — Nunca, não, Senhor!

Miranda — Mas é preciso que faças com que tua Senhora se divirta um pouco. Ela anda muito triste e muito abatida: não tem distração!

Rita — Nem uma mesmo. Ela não quer sair: também aqui ninguém vem, senão quando meu Senhor...

Miranda — Basta! Não te perguntei por isso. (Amimando a menina que tira o chapéu) Não desmanche os seus cachos! Quem foi que penteou Iaiá? Foi Rita? Não. Foi Mamãe? Foi! E quem vestiu?... Também foi Mamãe? (A RITA) Outra cousa! Por que deixas que tua Senhora se mate a coser a roupa de Iaiá? Não tem vindo constantemente roupa feita da casa da Cretin?

Rita — Sinhá não quer! Diz que isso é o seu divertimento!...

Miranda — O que é, minha filha? (Entra Isabel sem ser vista) Quer Rita?... Não.

Rita — É o brinquedo!

Miranda — Ah! Iaiá trouxe o seu brinquedo!... Quer que dê corda?... Muito bonito!... Quem deu a Iaiá?... Quem?... Senhor... diga... diga no ouvido do Papai!...

Rita — Foi aquele moço que encontramos na rua... Não se lembra... que beijou Iaiá... Senhor Sales.

Miranda — Senhor Sales... Ah! Foi ele!... (Afastando a menina)



CENA XIV Miranda e Isabel

Miranda (voltando-se, vê Isabel) — Senhora! Eu lhe suplico! Uma dúvida horrível!

Isabel — Oh! Por piedade!

Miranda — Esta menina...

Isabel — Cale-se!... não vê que me está matando?

Miranda — É... É minha?...

Isabel — Eu sou pura, Senhor! Juro!

Miranda (respira) — Ah!... (Angustiado) Mas que vale o juramento de quem esqueceu o mais santo!...



ATO TERCEIRO Na casa de Henrique, em Petrópolis.



CENA PRIMEIRA

Isabel, Clarinha, Siqueira e Sales

(Sales entra quando os outros têm chegado do passeio. Formam-se dois grupos separados Clarinha e Sales — Isabel e Siqueira).

Sales — Como andam depressa!... Desde Vila Teresa que os sigo sem poder alcançar. Minha Senhora. (Cumprimenta Isabel)

Clarinha — Ora! Por que tomou tanto incômodo!

Sales — Permite que lhe ofereça estas flores?

Clarinha — O meu médico não permite, não, Senhor: fazem-me dor de cabeça!

Sales — À vista disso condeno-as à prisão. (Esconde no peito)

Clarinha — Era melhor que lhes desse a liberdade!

Isabel — O passeio fatigou-me.

Siqueira — Então já viste o lucro que se tira da política?

Isabel — Fala comigo, meu pai?

Siqueira — Não leste o jornal de ontem?

Isabel — Não, já veio?

Siqueira — Estava sobre a mesa. Traz uma correspondência bem forte contra Augusto. Entre outras cousas, diz que ele esbanjou a sua fortuna e de tua filha, e foi obrigado a vender quanto tinha para pagar dívidas de jogo.

Isabel — Mas, é uma calúnia, meu pai.

Siqueira — Quem o sabe melhor do que eu, Bela, que conheço Augusto, como a mim mesmo? É um homem de bem, na extensão da palavra!

Isabel — Como lhe há de ter doído, meu Deus! Ver-se insultado assim, e por quê?

Siqueira — Ele já deve estar habituado! São as flores da carreira política.

Isabel — Não! Só eu sei o que ele terá sofrido.

Siqueira — O melhor é não dar valor a isso! Não vale a pena chorar por tão pouco.

Estou arrependido de ter falado nisso.

Isabel — Por quê? Eu lhe agradeço. Podia não ler o jornal e escapar-me.

Siqueira — Não perdias nada.

Isabel — É justo que tenha a minha parte nesse desgosto. Não sou eu a causa dele?

Siqueira — A causa?... E de que modo?...

Isabel — Foi para satisfazer um desejo meu; talvez um capricho, que meu marido vendeu os nossos bens. Se não me fizesse a vontade não o caluniariam agora.

(continua...)

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