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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Durante as doze horas de conhecimento que tinham, já conseguira o amansador fazer-se compreender perfeitamente da baia. Era a égua um inteligente animal; e depressa aprendera a linguagem pitoresca e simbólica inventada pelo gaúcho para suas relações sociais com a raça eqüina. 

Puxando levemente a baia pela orelha, obrigou-a Manuel a pastar um trevo gordo e apetitoso que estofava as fendas de uma lapa. A Morena quis recalcitrar, mas cedeu submissa ao olhar imperioso do gaúcho. 

Por uma terna solicitude sofreava Manuel os impulsos do amor materno, poupando as forças da égua, que na impaciência de ver o filho, e talvez salvá-lo, podia matar-se. Tão comum é essa sublime insensatez na criatura racional, que não pode admirar no bruto! 

Voltando à palhoça, deu o gaúcho com o caçador que o observava da porta. 

— Quer barganhar a égua? 

— Não! respondeu Manuel com rispidez. 

Esta proposta o desgostou. 

— Dou-lhe em troca... 

Volveu o homem o olhar à sua pessoa e o devolveu em torno, buscando um objeto que servisse para a barganha proposta: descobriu a alguns passos, meio enterrada, uma velha chilena de ferro, torta e desirmanada. 

— Dou-lhe em troca esta chilena!... Não faça pouco. A sua de prata, ou de ouro que fosse, não valia tanto. Saiba que pertenceu ao famoso capitão Artigas, cavaleiro como nunca houve no mundo, nem há de haver. 

Sorriu-se Manuel. 

— Vale muito, nem digo o contrário. Mas a égua não me pertence.

— De quem é então? 

— De ninguém. É livre. 

— Está zombando?  

— Dou-lhe minha palavra. É livre, tão livre como eu, disse o gaúcho com firmeza. 

— Bem: neste caso, eu a tomarei para mim. 

— Com que direito? 

O caçador grunhiu uma espécie de riso, que insuflou-lhe as ventas largas. 

— Vê aquela onça? Esta manhã era mais livre do que a égua. 

— Perca a esperança, que a égua não há de ser sua. 

— Por que então? 

Fitando no caçador um olhar límpido e sereno, respondeu o gaúcho com pausa: 

— Porque eu não quero. 

— E como se chama você, homem? 

— Manuel Canho, para o que lhe aprouver. 

— Pois digo-lhe eu, Pedro Javardo, que a égua há de ser minha. 

— E eu juro, palavra de um brasileiro, que se tiver o atrevimento de pôr-lhe a mão, hei de montá-lo como um porco-do-mato que é, para cortá-lo com estas chilenas. 

— Está você falando sério? 

— Experimente. 

— Veja em que se mete. Ainda não achei homem que me fizesse frente. 

— Pois achou um dia. 

— Tenho eu força neste braço como um touro. 

— Touros costumo eu derrubar todos os dias no campo.

— Então não se desdiz? 

— Tenho mais que fazer do que aturá-lo. Vou longe e com pressa. 

Carregando o chapéu na testa, passou o gaúcho com arrogância por diante do caçador; atirando-lhe aos pés uma moeda de prata, entrou no rancho, e cortou um pedaço de carne para a viagem. 

Ao sair não viu mais o caçador. Conhecedor, porém, da índole pérfida desses abutres de espécie humana, habitantes do deserto, redobrou de vigilância. 

Não tinha dado dois passos, quando Pedro, oculto numa ramada, se arremessou contra ele, com um salto de tigre. Estava, porém, o gaúcho prevenido, e desviou-se a tempo; sacando a faca esperou o inimigo de frente. 

A esse tempo a baia aproximou-se; quando Manuel ia montar, o caçador, já armado com o chuço, investiu furioso. 

 

IX 

AMIGAS 

  

Sentindo os joelhos do gaúcho a lhe cingirem os rins, a égua disparou, sibilando nos ares como uma seta. 

Rangeram os dentes de raiva ao Javardo; metendo a mão por baixo do ponche desenrolou da cintura um laço, que num ápice girou-lhe duas vezes em torno da cabeça, e foi arremessado longe com força desmedida. 

A Morena estancou de repente. O laço a colhera pelos peitos. Procurou Manuel na ilharga sua faca para cortar a trança de couro, que prendia o brioso animal, porém, não a achou; com a pressa de montar resvalara da cinta. 

Entretanto o caçador com os pés fincados no chão, fazia grande esforço para conter o ímpeto do animal, que ficara como suspenso na corrida veloz, com as mãos erguidas e unicamente apoiada sobre os cascos posteriores. 

— Hup, Morena! gritou Manuel debruçando-se sobre o pescoço da égua. 

(continua...)

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