Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

— Sim, senhor: mas se ele sal. de casa do pai, e entra sem nos dar tempo?

— Tenho a certeza de que não está em casa do pai, já Iho disse. Basta de palavreado. Vão esconder-se atrás da Igreja, e não adormeçam.

Debandou o grupo, e Baltasar ficou alguns momentos encostado ao muro. Soaram os três quarto depois da dez. O de Castro-d'Aire colocou o ouvido à porta, e retirou-se aceleradamente, ouvindo o rumor da folhagem seca que Teresa vinha pisando.

Apenas Baltasar, cosido com o muro, desaparecera, um vulto assomou do outro lado a passo rápido. Não parou: foi direito a todos os pontos onde uma sombra podia figurar um homem. Rodeou a igreja, que estava a duzentos passos de distância. Viu os dois vultos direitos com o recanto que formava a junção da capelamor, e sobre o qual caíram as sombras da torre. Fitou-os de passagem, e suspeitou; não os conheceu, mas eles disseram entre si, depois que ele desaparecera:

— E o João da Cruz, ferrador, ou o diabo por ele!...

— Que fará a estas horas por aqui?!

— Eu sei!

— Não desconfias que ele entre nisto?

— Agora! se entrasse, era por nós. Não sabes que ele foi mochila do nosso amo?

— Pois então que medo tens?

— Não há medo; mas também sei que foi o corregedor que o livrou da forca...

— Isso que tem! O corregedor não se importa com isso, nem sabe que o filho cá está...

— Assim será; mas não estou muito contente... Ele é homem dos diabos... — Deixá-lo ser... Tanto entram as balas nele como noutro...

A discussão continuou sobre várias conjeturas. De tudo o que eles disseram uma coisa era certíssima: ser o vulto o João da Cruz, ferrador.

Teria este dado trezentos passos, quando os criados de Baltasar ouviram o remoto tropel da cavalgadura.

Ao tempo que eles saíam do seu esconderijo, saía João da Cruz à frente do cavaleiro. Simão aperrou as pistolas, e o areeiro uma clavina.

— Não há novidade — disse o ferrador —; mas saiba vossa senhoria que já podia estar em baixo do cavalo com quatro zagalotes no peito.

O areeiro reconheceu o cunhado, e disse:

— És tu, João?

— Sou eu. Vim primeiro que tu.

Simão estendeu a mão ao ferrador, e disse, comovido.

— Dê cá a sua mão; quero sentir na minha a mão dum homem honrado.

— Nas ocasiões é que se conhecem os homens — redargüiu o ferrador. — Ora vamos... não há tempo para falatórios. O senhor doutor tem uma espera.

— Tenho — disse Simão.

— Atrás da igreja estão dois homens que eu não pude conhecer; mas não se me dava de jurar que são criados do Sr. Baltasar. Salte abaixo do cavalo, que há de haver mostarda. Eu disse-lhe que não viesse; mas vossa senhoria veio, e agora é andar com a cara para frente.

— Olhe que eu não tremo, mestre João! — disse o filho do corregedor. — Bem sei que não; mas, à vista do inimigo, veremos.

Simão tinha apeado. O ferrador tomou as rédeas do cavalo, recuou alguns passos na rua, e foi prendê-lo à argola da parede duma estalagem.

Voltou, e disse a Simão que o seguisse a ele e ao cunhado na distância de vinte passos; e que, se os visse parar perto do quintal de Albuquerque, não passasse do ponto donde os visse.

Quis o acadêmico protestar contra um plano que o humilhava como

protegido pela defesa dos dois homens; o ferrador, porém, não admitiu a réplica

— Faça o que eu lhe digo, fidal9o — disse ele com energia.

João da Cruz e o cunhado, espiando todas as esquinas, chegaram defronte do quintal de Teresa, e viram, um vulto a sumir-se no ângulo da parede.

— Vamos sobre eles — disse o ferrador — que lá passaram para o adro da igreja; nestes entrementes, o doutor chegará à porta do quintal e entra; depois voltaremos para lhe guardar a saída.

Neste propósito, moveram-se apressados, e Simão Botelho caminhou com as pistolas aperradas na direção da porta.

Em frente do muro do jardim de Teresa haviam uma cascalheira escarpada. que se esplanava depois numa alameda sombria.

Os dois criados de Baltasar, quando o tropel do cavalo parou, recordaram as ordens do amo, no caso de vir a pé Simão. Buscaram sitio azado para o espreitarem na saída, e entraram na alameda quando o acadêmico chegara à porta do quintal.

— Agora está seguro — disse um,

— Se lá não ficar dentro... — respondeu o outro, vendo-o entrar, e fechar-se a porta.

— Mas além vêm dois homens... — disse o mais assustado, olhando para a outra entrada da alameda.

— E vêm direitos a nós... Aperra lá a cravina...

— O melhor é retirarmos. Nós estamos à espera do outro, e não deste. Vamos embora daqui...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1314151617...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →