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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

– Não, senhor – acudiu a dama de Carlota Joaquina –, não são os filhos. O coração de mãe só se enche do amor aos filhos quando se evapora o amor aos pais. Eu nunca amei este homem. Impuseram-me o casamento, aproveitaram-se do despeito que eu sentia pelas ingratidões de um conde que eu amava, e casaram-me à pressa. O carácter deste homem não piorou com a desgraça da política; ele é o que sempre foi, com a diferença de que na corte embriagava-se com os fidalgos, no Alfeite e em Queluz, e por lá dormia. As mulheres que corrompia ou o corrompiam não eram minhas criadas nem minhas conhecidas; e, se o eram, eu apenas tinha a convicção de que ele era um devasso. Tenho cinco filhos deste homem; mas basta que eu lhe diga, Sr. Dr. Adolfo, que são dele, são os produtos amaldiçoados de uma obrigação estúpida – a aviltadora obrigação de ser mãe quando se é esposa. Tinha dito. O bacharel nunca ouvira coisa assim, nem se lembrava de ter achado nos romances uma razão tão filosófica e concludente da justiça com que a mãe pode aborrecer os filhos.

– Sentia vontade de me ajoelhar diante dela! – dizia Adolfo à irmã. – Que formosura e que talento, Andresa! O mana, eu viajei cinco anos, vi as mulheres mais encantadoras da Europa, estive no Pardo, no Bois de Boulogne, no Hyde-Park, e nunca vi mulher que tanto me penetrasse os íntimos seios de alma! Nunca, por estranha fatalidade, nunca! Como é que eu sinto aos vinte e oito anos as palpitações de um coração que nasce? Que faísca de amor é esta que me lavra um incêndio devastador das alegrias de alma que ainda ontem me doiravam a existência?

Era o estilo hidrópico de Arlincourt; mas é de crer que exprimisse garrafalmente a singela e natural comoção que lhe fez a gentileza, a poesia elegíaca, a majestade inflexa daquela mulher a quem a desgraça dera uma crítica moderna e revolucionária na religião das mães.

D. Andresa, escandalizada, cortava-lhe os voadoiros perguntando-lhe se a separação judicial poderia dar meios de subsistência a Honorata. O bacharel, muito abstracto, parecia esquecido do código. O estado da sua alma não lhe consentia folhear a infame prosa com mão jurisperita.

Que havia de estudar a questão; mas que lhe parecia que ela, requerendo o divórcio, apenas tinha alimentos por não ter trazido nada ao casal. – Estas frases eram mastigadas com um tédio, um engulho, como se, depois de declamar uma Contemplação de Lamartine, tivesse de recitar dois parágrafos da lei da enfiteuse.

D. Andresa era senhora ajuizada, muito séria, educada no convento de Vairão; tinha missa em casa, e escrevia cartas a diversas freiras, pondo sempre no alto do papel: Jesus, Maria, José. Andava nos trinta e cinco anos, muito linfática e um grande horror aos vícios da carne. O mano Adolfo conhecia-lhe a índole. Não podia esperar dela aplauso, nem sequer condescendência, e muito menos auxílio à sua afeição a mulher casada. Andresa concordava com o irmão na formosura de Honorata; mas observava com um risinho malicioso que o não chamara para saber se a sua amiga era bonita ou feia; mas sim para aconselhá-la e dirigi-la na separação do marido por justiça.

O Dr. Adolfo absteve-se de entusiasmos, e pôs-se a estudar a questão, em conferências com o Bento Cardoso, de Guimarães, e o Torres e Almeida, o Rasqueja de Braga, dois chavões. Mas o que ele queria era corar as delongas nos pombais, ganhar tempo, a salvo das suspeitas da mana e do seu capelão, um realista finório que sabia da poda, e trazia a pedra no sapato, dizia, cacarejando uma risada velhaca – e conhecia até onde podia chegar a fragilidade de um homem sem sólidos princípios de religião, estragado por essas nações.

D. Andresa andava assustada, porque o mano nem ia para Amarante nem dava começo ao processo. A Honorata aparecia-lhe radiosa, com um grande esmero no trajar, vestidos fora da moda, mas elegantes, ricos, de mangas perdidas, com uns decotes que punham nos olhos do capelão luzernas esquisitas, escrúpulos. Adolfo era discreto na presença da mana. Contava as suas viagens, durante a emigração, citava nomes de literatos desconhecidos à fidalga, seus amigos íntimos em Paris; ai! Paris! – exclamava. – Se eu então me passaria pela mente que havia de vir de Paris para Amarante!

– Ele porta-se muito sério – dizia D. Andresa ao padre Rocha. – Ela é que me parece mais levantada, muito azevieira, não acha?

– Acho, acho... – confirmava o capelão. – Daqui rebenta coisa, minha senhora; rebenta, V. Exª verá...

E, com efeito, estava a rebentar, na frase explosiva do padre Rocha. O delegado tinha correspondência diária com Honorata, mediante uma caseira de sua mana, irmã de uma criada do Cerveira Lobo. Cartas incendiárias escritas durante a noite trocavam-se de manhã, quando o Adolfo saía a respirar os bálsamos das ribanceiras orvalhadas. Às vezes, subia a encosta até à crista do monte do castelo de Vermoim. Daqui, avistava-se por sobre as selvas verdes de carvalheiras e pinhais a vasta casaria pardacenta de Quadros, com dois torreões denticulados. No andaime de um dos torreões via-se um vulto branco, com o braço amparado numa das ameias, e a cabeça encostada à mão como nas baladas de Baour Lormian. Era Honorata, com o binóculo assestado na fraga onde estava Adolfo, alaranjado pela primeira resplandecência do Sol nascente.

Ao cabo de duas semanas, saíram dos domínios da balada. Uma noite, partiram de Guimarães, caminho do Porto, dois cavalos do Gaitas, e pararam na Ponte de Brito. Um dos cavalos era arreado com selim de senhora. Por volta da meia-noite, Adolfo e Honorata, num passo miúdo, com uma ansiedade, misto de exultação e de susto, chegaram à Ponte de Brito. Ele ajudou-a a sentar-se na sela; cavalgou, disse aos dois arneiros o seu destino, e partiram a trote largo.

V

(continua...)

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