Por Lima Barreto (1921)
É o caso que o doutor Valverde, pessoa muito conhecida nos meios intelectuais, como médico de alta cultura, como agraciada de outras atividades de espírito, delicado, tolerante, bondoso, no exercício de suas funções, visitou uma igreja, fazendo as exigências das leis municipais, de que ele é zelador, e de cuja execução é fiscal, e quis, ao mesmo tempo, visitar um convento, em obediência aos deveres de seu cargo.
Os religiosos, esquecidos de que atualmente estão debaixo da lei comum, receberam-no mal, debicaram-no e chegaram até a impedir-lhe a entrada no monastério.
O doutor Valverde é moço, não crê que possa haver privilégios no nosso regime, revoltou-se; e, como revoltado, naturalmente excedeu-se no artigo em que revidou os deboches pouco mansuetos dos padres redentoristas e mais religiosos das cercanias destes.
Agora, o Centro Católico, esse Centro Católico das mesinhas de chá, dos namoros, dos casamentos chiques, arranja uma malta de vinte ou mais tipos e quer obter do doutor Valverde, à força, uma carta de retratação.
Mas, que é que pensam os católicos, desta choldra68 em que estamos?
Porventura, eles têm nas mãos poderes extraordinários para obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, sem ser em virtude de lei?
Por que cargas d’água semelhantes cavalheiros da mais aparente virtude e damas da mais austera aparência se julgam no direito de pedir a demissão de um funcionário vitalício, como é o doutor Valverde?
Então, por acaso, o governo deve demitir este ou aquele funcionário porque injuriou esta ou aquela religião, esta ou aquela seita?
É boa, meus senhores!
Se há no artigo do doutor Valverde injúria ou calúnia, os padres, com esse teólogo curioso que é Padre Júlio Maria, à frente, devem processá-lo de acordo com os artigos do código; mas estarem a ameaçá-lo, a pedir-lhe a demissão, exorbitam e promovem um escândalo maior que é o de se julgarem um Estado em outro Estado.
Eu sou inteiramente tolerante, digo, ao finalizar, e nunca me fiz anticlerical.
Estão pondo as manguinhas de fora. Correio da Noite, Rio, 11-2-1915.
OS EXAMES
O Jornal do Comércio conta hoje uma trapalhada de exames acontecida na nossa Escola Normal, que as moças confundem com a Escola Normal de França.
Sei perfeitamente dessas coisas de exames; eu os fiz muitos e a única vez que consegui tirar distinção, foi quando fiz exame com uma moça, na mesma mesa, no mesmo dia, por capricho e esforço de vontade.
As moças são habilíssimas nessas coisas de fazer exames; elas sempre têm a matéria na ponta da língua, elas não se preocupam de achar o nexo entre as noções científicas que absorvem o mundo.
A ciência, o saber, a arte, são adornos e enfeites para as suas pessoas naturalmente necessitadas de casamento.
Este caso da Escola Normal, passado entre moças, por demais capazes de atravessarem essas coisas de exame, vem mais uma vez provar que, atualmente, nós vivemos apegados a tolas superstições.
O exame é uma delas, é resto da escolástica, é resto do ensino do grande jesuíta Laynez Swift. O grande e imenso Swift, quando certa vez fazia exame de lógica, sujo, maltrapilho, mas orgulhoso dele mesmo, os examinadores perguntaram-lhe:
– Como é que o senhor raciocina sem a sábia lógica?
– Meu caro senhor, respondeu Jonathan, eu raciocino perfeitamente.
Os exames, os doutores, bacharéis, os médicos, toda essa nobreza doutoral que nos domina e apóia os negocistas, é o maior flagelo desta terra que os utopistas querem seja o paraíso terrestre.
Correio da Noite, Rio, 6-3-1915.
UM FATO
A morte de Marcelo Gama , que todos nós contristou, foi evidentemente um fato denunciador da nossa falta de cultura, de adiantamento intelectual.
Marcelo Gama, cuja inteligência, cujo saber e amor ao trabalho eram por demais conhecidos, nunca pôde viver de sua atividade literária, nunca pôde tirar de sua pena o pão nosso de cada dia.
Casado e pai de filhos, como todos nós desejamos ser, teve sempre que viver em outra ocupação, que não aquela de seu gosto e do seu amor.
Longe de mim estar a desejar que os homens de letras façam a fortuna dos judeus agiotas, que se disfarçam em cristãos.
O que todos nós desejamos, o que todos nós queremos, é tirar da nossa vocação aquilo com que viver. Seria contradição nossa pedir a fortuna, a riqueza, a abundância dos Carnegies70, dos Rockefellers71, ou mesmo, do senhor Afrânio Peixoto.
Todo o nosso desejo é viver de acordo com a nossa consciência, com as nossas inclinações; e, quando se sonha desde menino semelhante ideal, tudo quanto o não sirva, nos constrange, nos aborrece, nos mata e aniquila.
Marcelo foi assim, e sofreu, e sofreu, apesar de ter ao seu lado uma companheira bondosa, piedosa, amante – coisa que não é dado a toda gente.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.