Por Coelho Neto (1898)
Pelas viellas tortuosas, atravancadas de cães, apertava-se o casario acaçapado, com uma entrada baixa, profunda e sombria, entre grossos muros manchados de humidade tresuante. Mouros iam e vinham, uns quasi nús, miseraveis, descalços, d'uma cor fula, doentia, outros com albornozes listrados, com alparcas nos pés, com armas a luzirem na cinta e todos paravam para os ver passar e ficavam voltados gesticulando e fallando; as mesmas mulheres, com os seus gomis de barro á cabeça, detinham-se curiosas.
N’uma grande praça toda plantada de arvores havia um ajuntamento como de feira e bois immensos, de cornos negros, deitados na terra fôfa e calcinada rurnina vam mansamente. Era, sem duvida, um mercado e a troavam pregões e vozerio e gritos e, de longe em longe, atravez da algaravia, uma voz de animal subia longa triste e profunda. Creanças rebolcavam-se na herva entanguida, outras, em tremedaes, empastadas de lama, riam e saltavam jocundamente e, para um canto, na sombra, um camello do deserto, deitado, as pernas sob o corpo, os olhos semi-cerrados, remoía um feixe de hervas tenras e um negro, junto d'elle, sentado sobre os calcanhares, batia com uma vareta na corda tensa d'um arco, gemendo uma cantiga.
Em uma das estreitas viellas detiveram-se, com o embaixador, diante d'uma casa atarracada, muito branca, com dois degráos de pedra á entrada. Introduzidos, atravessando uma angusta passagem lobrega, deram n'uma sala que abria sobre um pateo, com muita luz e muito arôma, onde cantavam passaros e uma cabra, presa, berrava de instante a instante.
Alli dois mouros acobreados tomaram-nos com muita alegria levando-os a um recanto forrado de pannos raros viram um retabulo com o Espirito Santo, varias cruzes e rosarios que os da casa veneravam. Depois de haverem feito sua reza sairam com os mouros á sala onde lhes foi servido um um refresco de varias fructas, regalando-se todos como n'um ágape emquanto fóra, no pateo, á grande luz, a passarada contente concertava.
Despedindo-se, dalli se foram agradavelmente impressionados ao palacio do xeque que ficava num largo desafogado e de grande asseio com muitas palmeiras e moutas em flor. Ao fundo d'um horto de arvores copadas, com ar uma fonte que cantava n’um bosquesinho recatado, crescia a residencia real.
Subindo os degráos que eram seis, de pedra negra e luzente, foram, por cima de tapetes, á primeira porta onde se achava um negro espadaúdo, de ferocissima presença, com um saio amarello e uma fóta vermelha, firme como uma figura de pedra, com o terçado nú entre os braços cruzados e, como esse, tres outros encontraram guardando outras tantas entradas até que chegaram á sala régia, toda branca, de muita luz, com o ambiente cheirando a resinas que as caçoulas defumavam.
Sobre almofadas de matizes variegados havia mouros reclinados e mulheres, com as cabeças cheias de moedas, como besantes, os braços cingidos por armillas e grandes pingentes de cobre nas orelhas, tão molles e entorpecidas, movendo com vagar os braços, que pareciam alli estar pedindo amores.
O xeque, em grande fausto, cercado de uma turma de guerreiros negros, com o xerife ao lado, esperava em fofos coxins, com a altiva magestade de um príncipe christão e vendo-os sorrio bondosamente indicando-lhes, com um gesto lento, como se lhe pesassem os anneis que lhe enchiam os dedos, dois assentos macios onde repousassem.
Já alli havia, sobre uma mesa de magnificos entalhes, varias amostras de especiarias e ouro e prata e cera e alambre e, dizendo o xeque, que de tudo aquillo havia abundancia em Mombaça e que, a preço minimo, daria, fez entrega aos dois homens servindo-lhes, depois, alimentos que rescendiam e fructas de summo doce.
Tornando a bordo ajuntaram-se os maios apertando os dois homens com perguntas elles, porém, que levavam uma commissão, foram direito ao Gama e, narrando-lhe o que haviam visto, entregaram-lhe as amostras que levavam repetindo as palavras do soberano negro.
Vendo o Gama as especiarias que eram, a bem dizer, a causa da sua saída aos grandes mares, não poude disfarçar o seu contentamento e ouvindo em conselho os capitães, porque os mouros continuavam a demonstrar amizade, resolveu fundear mais proximo do porto.
Saindo á frente a nau S. Gabriel, n'uma volta de mar, foi sobre um baixo adernando o que, percebendo os dos mais navios puderam, colhendo as velas com tempo, sustar outros desastres e as ancoras, de novo, unharam a areia.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.