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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

Calculei que, em vez da filha, tivessem prendido a mãe e, em vez do amante de minha mulher, tivessem prendido o amante de minha sogra.

E assim foi. Notando-se, porém, que a terrível Jeannite tanta gente pôs na pista dos perseguidos e tantas providências deu para os apanhar, que, na ocasião em que um Castro Malta era recolhido à Casa de Detenção com uma mulher, outro já lá estava com outra.

Os empregados da Casa, segundo deduzo do que lhes ouvi no dia do singular enterro, não se achavam muito a par da verdade e, tanto assim, que uns me diziam que o Castro Matta ou Malta havia seguido moribundo para a Santa Casa da Misericórdia, e outros afirmavam que o legítimo Castro Malta estava engaiolado na Detenção.

Perplexo com as novas revelações do ressuscitado, deliberei esclarecer por uma vez os acontecimentos e, no dia seguinte à minha conversa com ele, atirei-me de novo para a Casa de Correção.

- Então? - Perguntei ao empregado que já me havia fornecido as primeiras informações - que noticias me dá o senhor do Castro Malta?

- O Castro Malta - respondeu-me o empregado - enterrou-se hoje pela manhã no Cemitério de São Francisco Xavier. A prisão desse vagabundo, a quem Deus haja, motivou também a injusta prisão de um inocente que, ontem mesmo, mal se verificou o engano, foi posto em liberdade com uma rapariga que o acompanhava; ficando uma velhusca que viera com o que faleceu.

- Bonito! - disse eu. Os senhores podem limpar as mãos à parede!

- Porquê?

- Porque fizeram asneira! Porque soltaram o legítimo Castro Malta e a legítima cúmplice do Castro, e ficaram aí com uma pobre desmiolada, que nada tem com o negócio!

- Como?! Explique-se!

- Ora! Fizeram-na bonita! A mulher que os senhores soltaram é minha esposa, é a legítima amante do legitimo Castro Malta; a outra, coitada! é minha sogra, uma douda, cujo crime único foi meter-se com um boêmio que a estas horas deve ainda estar deitado em minha cama, a digerir uma ceia que lhe dei ontem.

- Perdão! - volveu o empregado policial. - Perdão! O senhor não pode ter em casa o amante da velhusca que ainda cá está presa, porque esse desgraçado foi daqui muito mal para a Misericórdia, morreu, e enterrou-se hoje pela manhã.

- Engana-se, quem se enterrou foi o verdadeiro Castro Malta, o amante de minha mulher, aquele que fora para aqui recolhido com uma rapariga morena, de olhos pretos e cabelos lisos, isto é, com minha esposa! Ora essa!

- Pois eu lhe vou mostrar o que prova que o homem da velhusca morreu e está enterrado na sepultura nº.... Ora espere! Posso até lhe dizer o número da sepultura...

- É inútil - observei. - É inútil. Sei donde parte o seu engano e receio, tentando esclarecêlo, tornar mais embrulhada toda esta história.

- Não! Se há novos enganos, convém pô-los a limpo. Fale, fale por quem é, meu amigo.

- Pois então saiba que o sujeito, que foi na qualidade de defunto para o Cemitério de São Francisco, não era um cadáver.

- Como assim?

- Estava perfeitamente vivo.

- Impossível! Pois se ele foi enterrado hoje, às nove horas da manhã, e aqui estão os documentos.

- Não foi a ele que enterraram. Foi ao outro.

- Que outro?

- O tal Castro Malta, aquele que um dia antes fora solto com a mulher que o acompanhava.

- Mas, como?

- Muito facilmente.

E eu contei ao empregado da Casa de Correção o que assisti no cemitério.

- Jesus! - exclamou ele depois. - Que trapalhada, minha Nossa Senhora! Que trapalhada! Como diabo agora poderemos sair desta?...

- É exato! - confirmei. - O negócio está malparado!

- Quer saber de uma cousa? - acrescentou o empregado. Faça-me um obséquio - não toque nisto a pessoa alguma. Finja que não sabe de nada! Se não se der uma palavra sobre o caso, ninguém descobrirá a verdade e a história cairá no esquecimento! Que importa um Castro Malta de menos ou de mais? Se não está enterrado o verdadeiro, foi alguém enterrado por ele. Tanto valem seis como meia dúzia! Ao passo que, se formos a mexer nessa embrulhada, a cousa pode complicar-se cada vez mais e redundar em prejuízo de todos nós. Promete que não dará uma palavra sobre isso?

- Prometo.

- Bem. Nesse caso vou falar ao Chefe para pôr na rua a velhusca, e fica terminada a questão.

Coitado! Mal sabia ele que então é que ela, a questão, ia deveras principiar!

Minha sogra, logo que se pilhou solta, jurou que havia de vingar-se daquela maldita Polícia, que, sem mais nem menos, lhe arrancara dos braços o homem amado e, segundo ela supunha, mandaram-no para a Misericórdia e daí para o cemitério – morto.

(continua...)

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