Por Aluísio Azevedo (1882)
CAPÍTULO VI
PRIMEIRO ENCONTRO
Enquanto Gregório acompanha em distância a Menina do Bandolim,. temos. que ver ainda alguma coisa no café donde ela saiu.
Vários sujeitos se ergueram logo, e lá se foram retirando vagarosamente; outros se deixaram ficar ainda a beber e a dar à língua. A mesa do rapaz louro de monóculo não sofreu a menor alteração; continuava o orador a falar, sempre com loquacidade, e os outros continuavam a ouvi-lo com a mesma atenção.
Dois novos consumidores acabavam de entrar, conversando em voz baixa, muito animadamente. Pelo modo que discutiam, adivinhava-se facilmente que o mesmo interesse os prendia a um só assunto.
Eram ambos de meia idade; um, porém, apresentava ser mais velho e de melhores costumes que o companheiro. Em si nada tinham afinal que pudesse chamar a atenção ao primeiro lance de vista; trajavam vulgarmente roupas baratas e cada qual trazia o seu chapéu de sol, como um símbolo de paz burguesa.
Assentaram-se defronte um do outro, pediram cerveja nacional e prosseguiram na conversa com o mesmo cauteloso empenho.
Deu meia-noite. Os sujeitos que ainda ocupavam as mesinhas do café, foram desaparecendo, até que o dono da casa, dirigindo-se aos dois últimos, lhes participou que desejava fechar as portas.
Então o que parecia menos velho atirou os olhos para o relógio, fez um sinal afirmativo e, sempre a conversar, ganhou com o companheiro a rua.
— É o que lhe digo, segredou-lhe o outro, quando saíam; pode contar comigo! Diga ao comendador que estou pronto para o que der e vier...
— Posso então dizer ao comendador Portela que você quer?!...
— Pode.
— Bem, nesse caso, precisamos amanhã mesmo entender-nos com ele.
Onde nos devemos encontrar?...
— Onde quiser. Aqui no café por exemplo. Está dito. Então até lá.
— Até! respondeu o companheiro,. tomando o largo de S. Francisco. .
Mas voltou pouco depois, para perguntar ainda alguma coisa ao ouvido do outro...
— Não! respondeu este; o melhor é levar você uma boa navalha! Deixemonos de inovações! Cada um com o que aprendeu! — Bem...
E separaram-se.
Entretanto, a Menina do Bandolim seguia pela rua do Teatro, com o passo seguro e apressado de quem não deseja demorar-se pelo caminho. Um homem saindo de uma esquina, pretendeu apoderar-se dela: Gregório porém não lhe dera tempo para isso, colocando-se entre os dois e repelindo o agressor a bengaladas.
A mocinha soltou um grito, chegou-se para o irmão, e deitou com este a correr em direção contrária à que levavam.
— Diga ao barão que ainda não foi desta vez! gritou Gregório para o sujeito a quem espancara, e seguiu o rumo que tomara a sua protegida.
Quando se convenceu de que ela estava fora de perigo, retirou-se para casa.
A menina, com o sobressalto em que ficou na ocasião de ser agredida, não pôde agradecer a generosidade de Gregório, mas guardou bem na memória a sua fisionomia e desde então principiou a distingui-lo intimamente com certa estima.
Só dois meses depois do conflito se tornaram a encontrar. Ela, como nessa ocasião estivesse em meio de uma peça que tocava, limitou-se a cumprimentá-lo com a cabeça e a sorrir para ele de modo reconhecido; mas, terminada a música, pousou o bandolim sobre uma cadeira e, depois de receber a espórtula das mesas, foi agradecer-lhe de viva voz o obséquio que havia recebido.
— Nunca mais lhe sucedeu outra? perguntou-lhe Gregório.
— Não, senhor. Depois daquela vez faço-me acompanhar sempre por mais um parente meu, que me vem buscar aqui.
E ficaram um instante a conversar, quando Gregório reparou que uma mulher havia parado à porta do café, a olhar investigadoramente para ele. Reconheceu-a logo e correu ao seu encontro. Era a viúva.
— Muito bonito!... disse esta, quando Gregório conseguiu alcançá-la. Pode voltar para onde estava!...
E como Gregório ficasse a rir com ar de pouco caso:
— O senhor nem precisava levantar-se para vir ter comigo!... era melhor que ficasse lá mesmo!...
— Deixa-te disso!
— Vou deixar-me é de ligar tanta importância a quem não o merece!
Neste ponto foram interrompidos por duas senhoras que pararam para falar com Júlia.
Gregório despediu-se e seguiu a direção contrária ao café da Menina do Bandolim. No fim da rua parou, comprou charutos e, à vista de um anúncio de espetáculo, resolveu ir ao teatro.
Ao entrar na platéia teve de afastar-se para dar passagem a uma família, composta de três senhoras e um cavalheiro.
— Oh! O Gregório! exclamou este ao vê-lo, e escancarou os braços expansivamente.
— Roberto! gritou o rapaz, atirando-se-lhe nos braços. Não sabia que tinhas voltado!
— Vim ontem.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.