Por Aluísio Azevedo (1884)
Fazia-se grande conhecedor da Corte, muito carioca, saboreando muito voluptuosamente o efeito de pasmaceira, que a sua superioridade causava no amigo. Deu-se logo ares de cicerone; mostrou-se habituadíssimo com tudo aquilo que pudesse causar admiração a um provinciano recém-chegado; fingiu desdém por umas tantas coisas, que à primeira vista pareciam boas e falou de outras, menos conhecidas, com entusiasmo, com interesse pessoal e com orgulho.
Amâncio escutava-o em recolhido silêncio, mas, como estivesse a cair de apetite, voltou logo à idéia do almoço: lembrou que poderiam ir ao Coroa de Ouro. Paiva fitou-o espantado, e espocou depois uma risada falsa:
— Aquela era mesma de quem vinha do Norte! Almoçar no Coroa de Ouro Vade retro!
Amâncio não teve ânimo de defender a sua proposta, e seguiu o companheiro que pusera a andar com ímpeto.
Entram na Rua do Carmo, atravessaram a de São José e, ao caírem na da Assembléia, Paiva, que ia a pensar, voltou-se de súbito para Amâncio e perguntoulhe decisivamente:
— Tu queres almoçar bem?!
E feriu a última palavra.
— É! respondeu o outro.
— Pois então vamos ao Hotel dos Príncipes!
E seguiram pela Rua Sete de Setembro até o Rocio.
* * *
Ao penetrarem no largo, uma menina italiana, de alguns dez anos de idade, toda vestida de luto, morena, o ar suplicantemente risonho e cheio de miséria ,abraçou-se às pernas de Amâncio, pedindo-lhe dinheiro — para levar à mãe que estava em casa morrendo de fome.
— Sai! gritou-lhe o Paiva, procurando arredá-la.
Mas a pequena ajoelhou-se, sem largar as pernas do calouro, de uma de cujas mãos já se tinha apoderado e cobria de beijos
— Então, papai! papaizinho bonito! uma esmolinha, sim?...dizia ela, voltando para o moço seus belos olhos de crianças, rindo com uns dentes muito brancos que se lhe destacavam vivamente da cor morena do rosto.
— Coitadinha! lamentou Amâncio, fazendo-lhe uma festa no queixo e procurando dinheiro na algibeira das calças..
Puxou um maço grosso de cédulas.
— Não sejas tolo! gritou-lhe o companheiro. – Isto é especulação de algum vadio! Vestem por aí essas bichinhas de luto e mandam-nas perseguir a humanidade! É uma esperteza, não sejas tolo!
A pequena lançou ao Paiva um gesto de raiva e sorriu para Amâncio, suplicando.
— Em todo o caso faz dó, coitada! murmurou este, dando-lhe uma cédula de dois mil-réis.
A italianinha agarrou-se ao dinheiro e olhou surpresa para o calouro. Depois beijou-lhe novamente as mãos, e fugiu, atirando-lhe beijos.
— Coitada! repetiu ele.
— Ainda está muito peludo! resmungou o Paiva. — Olha que isto por cá não é o Maranhão!
E pôs-se logo a falar nas especulações do Rio de Janeiro. Contou fatos horrorosos de cinismo e gatunagem. “Amâncio que se acautelasse: no caminho em que ia, lhe haviam de arrancar até os olhos. — Ali, a ciência de cada um consistia em fazer com que o dinheiro passasse das algibeiras dos outros para as próprias algibeiras”. Estava indignado! “Não podia, a sangue — frio, ver assim se atirar à rua – dois mil-réis! Ah! se o outro soubesse quanto o dinheiro custava a ganhar, não teria as mãos tão rotas!”
E mostrava-se extremamente empenhado nos interesses do colega: dava-lhe conselhos; havia de abrir-lhe os olhos, indicar-lhe o verdadeiro caminho a segui.“ Não! Que ele não era desses, que só querem desfrutar!... Quando simpatizava com um rapaz, sabia ser amigo!
Amâncio o veria no futuro!...
— Olha! segredou-lhe ,passando-lhe um braço nas costas, — Hás de encontrar por aí muito artista! Acautela-te, filho!acautela-te, que os cabras sabem levar água ao seu moinho! Digo-te isto, porque te estimo, porque sou teu amigo, percebes?
Amâncio percebia e jurava ser muito grato àquela dedicação. Tiveram .
porém, de interromper o diálogo :dois outros estudantes acabavam de parar defronte deles.
Eram amigos do Paiva. Houve logo novas exclamações e cumprimentos rasgados.
— Meus senhores, exclamou aquele, apresentando Amâncio. O nosso colega, Amâncio de Vasconcelos, estudante de medicina. Escuso dizer que é muito talentoso e um caráter excelente.
Os dois apertaram a mão de Amâncio com solenidade, e afiançaram que tinham imenso gosto em conhecê-lo.
— João Coqueiro e Salustiano Simões!nomeou o Paiva, indicando os dois.— São ambos da Politécnica. E acrescentou em voz baixa, ao ouvido de Amâncio, mas de modo que fosse ouvido por todos: — Muito distintos!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.