Por José de Alencar (1878)
Amália estremecera a essa voz. Com as faces inflamadas pelo pejo e os olhos em pranto, atirou-se nos braços da mãe e escondeu o rosto no seio dela.
D. Felícia acariciou-a com ternura e repetiu a pergunta que a moça escutara da primeira vez.
— Casar?... Com quem?... interrogou ela atônita.
— Com ele? Com o Hermano.
Uma palavra prorrompeu do seio da moca, como a explosão de sua alma.
— Nunca!
E desprendeu-se dos braços da mãe, com uma violenta expressão de pavor.
Amália passava pelo mesmo espanto que teria se sua mãe lhe acabasse de propor para marido um homem casado.
Capítulo 8
A primeira abertura de D. Felícia com Henrique Teixeira estabeleceu entre ambos uma confidência constante sobre o delicado assunto do casamento de Amália.
Ambos empenhavam-se na realização desse projeto do qual esperava cada um a ventura da pessoa que lhe era tão cara. Se a graça e os dotes da moça tinham cativado a simpatia do doutor, que já a estimava como outra Julieta, também D. Felícia, seduzida pelo entusiasmo do amigo, queria a Hermano como a um filho e apreciava o seu caráter leal e generoso.
Logo no dia seguinte, aflita com o modo por que Amália recebera a idéia do casamento, e o terror de que se possuíra, a mãe comunicara ao médico esse fato tanto mais inexplicável, quanto a filha traía nos seus menores gestos um amor irresistível por Hermano.
Henrique Teixeira compreendeu logo o sentimento de Amália. Essa moça, outrora tão positiva, pairava agora no mundo da fantasia. Desde que Julieta vivia para o marido, e o acompanhava, ainda e sempre, esse marido não era para a moça um viúvo, e o seu casamento com outra mulher seria um crime, um adultério.
Não pareceu prudente ao médico explicar a D. Felícia o que influíra realmente no ânimo da filha, e evitou de tocar em qualquer particularidade da viuvez do amigo para não assustar a senhora. Atribuiu o espanto e emoção da moça à repugnância que ela mostrara sempre pelo casamento, e de que anteriormente fora informado.
D. Felícia aceitou esta razão, porque não descobria outra; e combinou com Teixeira os meios de destruir aquela prevenção. Deviam começar por estabelecer relações entre os dois apaixonados. A senhora os chamava assim, na convicção em que estava de que Hermano não podia deixar de ter por Amália um amor ainda mais veemente do que soubera inspirar à filha.
O doutor incumbiu-se de apresentar Hermano em casa do Sr. Veiga. Essa tarefa não era tão fácil como parecia: ele tinha de lutar com uma das regras invariáveis a que o amigo submetera a sua existência, desde a viuvez.
Quando não se achava nos seus dias negros, dominado pela obsessão que era talvez uma recaída do letargo causado pela morte da mulher, Hermano freqüentava a sociedade, e concorria aos divertimentos como no seu tempo de casado. Encontrando nos bailes alguma amiga de Julieta dançava com ela e a festejava. Não tinha os sestros do viúvo. Não se enternecia, nem suspirava falando do golpe que sofrera; ao contrário, mostrava um doce regozijo ao avivar recordações de sua felicidade.
Mas também repelia toda inovação.
A sua vida parara no momento em que Julieta morrera, deixando-o só, e portanto mutilando-lhe o ser. O que ele fazia depois disso não era mais viver; e sim reviver o passado, remontar o curso dessa existência dupla, que absorvera sua individualidade.
Não tinha relações nem amizades que não fossem daquele tempo. Se o acaso o punha em contato com outras pessoas, tratava-as sempre como estranhas, e não guardava lembrança desses nomes nem dessas fisionomias desconhecidas.
Não visitava família que não tivesse freqüentado com a mulher.
Henrique portanto contava que o primeiro impulso do amigo seria recusa formal de acompanhá-lo à casa do Sr. Veiga; e cogitava pretextos para induzi-lo e demover-se uma vez da sua inabalável resolução.
Em suas conversas acerca de Hermano, Amália tinha pedido ao doutor que lhe fizesse o retrato de Julieta; e nessa ocasião lhe dissera que outrora, bem menina, a tinha visto muitas vezes, mas não se podia lembrar da fisionomia.
Henrique também não se lembrava senão dos cabelos negros e da alvura da tez; do mais não reparara ele senão na graça que envolvia e luminava toda a pessoa de Julieta. De sorte que Amália nada colheu além do que sabia.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.