Por José de Alencar (1861)
Miranda — Na mocidade, a vida abre-se diante de nós como um jardim; entramos por essa mansão risonha com a alma cheia de desejos e esperanças. Uns, famintos de riqueza, divisam o pomo de ouro, e arrojam-se por entre abrolhos e fraguedos para alcançá-lo. Outros, sedentos de glória, deslumbram-se com os esplendores dessa rosa mágica riçada de espinhos, que desabrocha nos cimos inacessíveis dos rochedos, à borda dos abismos.
Henrique — Meu tio é um desses!
Miranda (com expressão) — Fui!... Outros finalmente caminham dia e noite, extenuados de fadiga, rompendo a espessura, para descobrirem o fruto da ciência. Entretanto, lá está logo à entrada do jardim, rasteira e oculta, a flor modesta, a violeta celeste que Deus plantou na terra para derramar sobre a alma o bálsamo divino. Alguns a olham de longe, desdenhosamente; muitos aproximam-se um instante atraídos pelo suave perfume; mas todos passam além; nenhum põe aí o termo dessa jornada que se chama a vida; nenhum faz dessa flor agreste o seu primeiro cuidado e o seu melhor tesouro.
Henrique — Quanto a mim, não tem razão, meu tio!
Miranda — Ouve! Quando chega o inverno, que os expulsa do jardim encantado, lá voltam os viajantes alquebrados, com a alma seca e árida como um deserto; um mordeu o pomo de ouro, e viu que estava cheio de cinza; outro quando pensava colher a rosa, ela transformou-se em chama que o abrasou e desfez-se em fumo; o terceiro, mal tocava no fruto da ciência, este se desfazia em pó. Todos ao passarem pela moita rasteira, buscam com os olhos a florzinha; e já não a acham; murchou.
Henrique — Não há de murchar para mim, como não murchou para o Senhor.
Miranda — Oh! para mim, não, decerto! Essa flor, já compreendeste, Henrique, é a felicidade conjugal; que embalsama com sua divina fragrância o seio da família, que adorna de festões e grinaldas o lar doméstico, e cobre de uma eterna primavera a nossa existência. Hás de ter visto, em tuas excursões pelas matas de Petrópolis, esses troncos decepados e carcomidos, verdadeiros anciãos da floresta; rebentamlhe os renovos pelas raízes, e a folhagem brilhante do jovem arvoredo os veste de galas. É assim o velho que sonha cultivar a felicidade conjugal; os filhos e as famílias que lhe crescem em torno o cobrem de sorrisos e carinhos.
Henrique — E cuida meu tio que eu não tenho as mesmas idéias?
Miranda — Tu, Henrique, és daqueles que se aproximam da flor, aspiram-lhe um momento o perfume, mas passam, deixando-a agreste como nasceu. Não confessaste que, ao lado de tua mulher, sentes um vácuo n'alma; e tão grande que passas dias longe de casa, pelos matos a caçar? Queres ocupá-lo com a política! Isto é, queres encher o coração de cascalho.
Henrique — Não vivemos unicamente para a família; o espírito carece de uma ocupação.
Miranda — Decerto; devemo-nos todos à pátria e à humanidade. Mas, acredita-me, a primeira ocupação e a mais séria do homem é a sua felicidade doméstica. Não há neste mundo mais sagrado sacerdócio do que seja o do pai de família; ele assemelha-se ao Criador, não somente quando reproduz a sua criatura, mas quando desses anjos (entra Rita com IAIÁ) que Deus lhe envia, ele prepara as futuras mães e os futuros cidadãos. É só depois de cumprida esta santa missão, que temos o direito de dar a outros misteres as sobras da nossa alma.
Henrique — Não haverá exageração nesse modo tão exclusivo de considerar a família, sobretudo no século em que vivemos, meu tio?
Miranda (confuso) — É possível. Fui daqueles que se deixaram arrastar pela vertigem; felizmente esbarrei a tempo; mas, por isso mesmo talvez influa em mim o perigo que ameaçou a minha felicidade.
Henrique — Mas hoje nada a perturba?
Miranda — Nada.
Henrique — Quanto isso me alegra! E eu disse que não sabia se eu era feliz. Posso não sê-lo, vendo-o cercado de todas as venturas, e coberto das glórias conquistadas na política?
Miranda — Quando te brotarem essas vergônteas, Henrique, (mostra Iaiá que tem nos braços) então me hás de compreender; terás uma alma nova saída da refusão da alma velha; é a alma do pai.
Henrique — Como está bonita, Iaiá! Então já não conhece o primo Henrique?
CENA XIII
Os mesmos, Rita, IaIá e Joaquim
Joaquim — O almoço está pronto.
Miranda (para Henrique) — Vai almoçar, é tarde. Não te há de faltar apetite.
Henrique — E meu tio, não vem?
Miranda — Já tomei alguma cousa.
Henrique — Até já. (Sai)
Miranda (senta-se com a menina no colo) — Então, minha filha, passeou muito? Estava bonito o passeio? Por que não convidou Mamãe? Olhe! sempre que Iaiá for passear, há de convidar Mamãe, sim?
Rita — Sinhá não quer sair nunca, por mais que eu lhe diga...
Miranda — Agora como Clarinha está aqui...
Rita — Ah! Nhanhã D. Clarinha chegou?
Miranda — Pode
ser que ela a acompanhe. Se precisar de alguma cousa... Talvez os vestidos já
não estejam bons.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.