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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

– Aí vens tu com as tuas alicantinas – retrucava, prognóstica e solene, a tia Rosa de Carude. – É o que tu estudas, meu valdevinos. Agora é melhor que então, pois não foste? As fidalgas de hoje em dia presentemente fogem com os doutores e deixam os filhos... Isto agora é que é bom às direitas, pois não é? No tempo antigo, valhame Deus, as fidalgas eram umas desavergonhadas que conheciam frades e criavam os seus filhos.

– Os filhos dos frades? – perguntava o Dias.

– Cala-te aí, boca danada! Olha que padre havia de sair de ti! Ainda bem que a Marta de Prazins te fez mudar de rumo.

A fuga da Honorata Guião com o Silveira dos Pombais não amotinara a opinião pública escandalizada. A excepção da austera Rosa de Carude. toda a gente deu razão à fidalga. O Cerveira tinha amigas da ralé, que metia em casa – uma diversão à embriaguez, quando não exercia as duas distracções numa promiscuidade desaforada. D. Honorata visitava-se unicamente com a D. Andresa da Silveira, da casa dos Pombais, irmã de um bacharel delegado em Amarante. Chorava muito com ela e pedia-lhe que perguntasse ao mano doutor se poderia separar-se por justiça, antes de se atirar a uma cisterna. D. Andresa pediu ao irmão que viesse ouvir as tristes alegações da sua desgraçada amiga.

Estava Honorata nos trinta e três anos, quando Silveira a encontrou nos Pombais. O delegado era um romântico. Emigrara em 28, sendo estudante, quando alguns membros da sociedade dos Divodignos padeceram o suplício da forca pelo homicídio dos lentes. Completara a formatura em 38 e fora despachado. Muito lido em Schiller e Arlincourt. Fazia solaus em que havia abencerragens e infantas cristãs apaixonadas que tocavam arrabis, banhadas de lua nos revelins dos castelos roqueiros. Também fazia prosa na Gazeta Literária do Porto – cenas dramáticas em que se jurava pela gorja e havia homens de prol que arrastavam mantos negros, cravavam lâminas de Toledo às portas de D. Fuas, e, cruzando os braços, rugiam cavernosamente: E depois, os arrepios de uma casquinada seca, de um estridente grasnido de gaivotas que se espicaçam por sobre o mar banzeiro.

A Honorata, esposa deplorativa, dama da rainha, esbeltamente magra, de uma elegância de raça afinada nos salões da Bemposta, palidez ebúrnea, esmaecida, airs évaporés, um sorriso nobre de ironia rebelde à desgraça, com a dupla poesia do martírio e da beleza, ultrapassou a encarnação viva dos ideais do bacharel. Ela tinha pejo de lhe contar os seus infortúnios, a vida crapulosa do marido, a libertinagem de portas adentro com as jornaleiras, e o abandono da educação dos filhos. Andresa é que contava tudo ao mano Adolfo na presença da mártir. Que o Cerveira se embriagava todas as tardes e tinha amásias da última gentalha que punham e dispunham em casa. Que os meninos eram criados brutamente; que o mais velho, o Heitor, nem ler sabia; porque o pai também fazia mal o seu nome. Que tiveram um padre de dentro para os ensinar, mas que o padre, em vez de lhes dar lição, trabalhava de carpinteiro em remendar os sobrados, e quando era a hora do estudo largava a enxó e vinha em mangas de camisa, sem gravata e de socos para a sala. Que os meninos não lhe tinham respeito nenhum, por isso o Heitor, quando ele o

ameaçou com a palmatória, respondeu que lhe dava uma navalhada. O pai achou-lhe graça, e o padre foi-se embora. Depois, entrou um velho que dava escola em Guimarães, e os quisera ensinar com muita paciência; mas o Heitor e mais o Egas tais arrelias lhe faziam que o pobre homem fugiu. Que D. Honorata sofria aquele flagelo desde a queda da realeza, como se fosse a culpada da vitória de D. Pedro. Era da família dos Guiões, muito íntimos do Sr. D. Miguel e do conde de Basto; mas todos os seus parentes foram perseguidos, roubados, de modo que ela, ainda que quisesse fugir ao marido, não tinha em Lisboa família que a pudesse sustentar; – que, se não fosse isso, já teria acabado o seu suplício, e que muitas vezes pensara em se matar, mas...

– Os filhinhos... – atalhou Adolfo sentimentalmente.

(continua...)

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