Por Coelho Neto (1898)
Ainda tornaram á terra querendo responder, como convinha, as abáfas de um mouro que lhes dissera que na aguada eram esperados como convinha. Lá chegando viram uma palissada forte trançada com chamiça por traz da qual a mourisma se escondia despedindo frechas e pedras que lhes saiam das fundas com soído agudo; mas foram taes os destroços que fizeram as béstas e as bombardas que, em pouco, estava a praça livre e os inimigos, de longe, bramiam e ameaçavam.
Voltando a bordo ainda fizeram presa - tomaram uma almadia do xerife que ia abarrotada de pannos e outra onde seguiam quatro negros. Apercebidos para o mar de novo fizeram-se ao largo fundeando diante dos ilhéos de S. Jorge d'onde partiram, tres dias depois, com ventos brandos.
Succedendo avistarem umas ilhas e havendo o piloto mouro, com perfidia, afíirmado que era boa terra, para lá velejaram achando-se em presença de áridos desterros e tanto se accendeu o capitão mór em fúria que, fazendo descer o mentiroso, alli lhe foram as roupas arrancadas e, com calabretes, dois homens açoitaram-o.
Aos seus gritos lancinantes respondiam os da frota com apupos e, para a memoria desse exemplo, deixou o capitão ao triste paramo o nome de ilha do Açoutado.
Recolhido o mouro,a gemer, com o lombo retalhado, fez-se sorumbatico, negando-se a responder aos da companha que o picavam com remoques.
A' vista de duas ilhas cercadas de bai- xios,onde o mar espumava, arrebentando, foi de novo o mouro interrogado dizendo então, com desfaçada calma, que já iam longe de Quilôa, terra que era de christãos e farta. Com essa noticia assanhou-se tanto o Gama que esteve para submetter ao supplicio o traiçoeiro e, se os ventos e as correntes não se houvessem tão obstinadamente opposto, teriam as naus retrocedido ao porto mencionado.
Foi resolvido que surgissem diante da ilha de Mombaça que o piloto perversamente affirmava ser em parte habitada de christãos. Levada por elle encaminhou-se a frota a uns baixos, duas leguas distantes da terra firme, por acaso ou por maldade vingativa do piloto. Quiz Deus, porém, que não soffressem maior damno os que andavam com o cruzeiro de Jesus nas velas e o seu nome nos corações. Foi a nau S. Raphael, de Paulo da Gama, que se encravou, rangendo, nos baixos perigosos, detendo-se as mais ao longe mas, com o favor da maré e dos ventos que tufaram as velas despegou-se a quilha safandose o navio com grande alegria de todos. Aos recifes foi dado o nome de S. Raphael e tambem a umas serras que fitavam na costa, muito embrenhadas e altivas. Foi a 7 de Abril que chegaram á vista da ilha de Mombaça onde jazia a cidade do mesmo nome que era uma aljama, sem nada de christã.
Certo de que havia n'aquella terra christandade, para entrar mais garboso, mandou Gama empavezar as naus e a maruja, com alvoroço, acudia ás amuradas, agarrava-se ás enxarcias, marinhando pelos mastros trepava ás vergas para estender a vista olhando a cidade que appareciacom aspecto mais vistoso do que as cabildas nas quaes apenas colmados avultavam, entre palmeiras e arvores de fronde basta.
Alli o casario alvejava ao sol e as mesmas hervas como que recebiam trato, e havia, á maneira de eidos, terrenos defendidos e forrados de relva muito verde sobre a qual cresciam arbustos em flor e arvores de sombra e fructo. Ainda as amarras rangiam descendo á areia as ancoras e já pelas praias, lisas e brancas, onde pequenos nús patinhavam folgando, surgiam mouros de ouro nos seus trajos de linho raiado, com turbante e adagas nas cinturas, axorcas de ouro nos braços e nos tornozêlos olhando e formando grupos. E, como os seguiam nos movimentos que operavam viram os da nau largar da terra uma zabra cheia de homens, todos de muito corpo com terçados e, alcançando a nau, foramse a ella querendo todos subir ao mesmo tempo, mas o capitão apenas permittio que entrassem quatro dos principaes ficando os outros a murmurar lançando olhares de despeito aos marinheiros.
O regulo, sabendo que alli chegára a frota, logo se poz em plano astuto de apoderar-se d'ella trucidando ou prendendo os portuguezes e, para ter entrada a bordo, fez chegar ao capitão um regalo de fructas e o seu annel, assegurando que alli tenam tudo quanto lhes fosse necessário desde que se aproximassem do porto.
O Gama respondeu com gentileza que, na manhã seguinte, levaria as naus para mais perto e despachou o embaixador com um ramo de coral, e, em significação de paz e de amizade, mandou com elle dois dos degradados para que vissem a terra e se n'ella havia christãos.
Desde o porto, com a sua agua banzeira e sordida, sobre a qual boiavam carniças e folhagens pôdres, ao terreno enlameado onde ferviam moscas, foram os degradados olhando a terra que tão formosa lhes parecera na distancia do mar, ao vivo esplendor do sol, entre a verdura viçosa do arvoredo.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.