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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

- Pois não! Uma noite, não sei que horas eram nem que dia da semana, achei-me cansado e morto de fome. Tinha caminhado por muitas ruas e não encontrava uma casa aberta. Afinal, dobrando para um largo, vi luz numa casinha de duas janelas. Fui até lá, bati. Perguntaram-me o que queria. – “Quero falar ao dono ou dona da casa.” Apareceu uma velhusca. – “Quem é? — Sou eu! Faça o favor de abrir! - Que deseja? - Comer!” Iamme fechar a porta na cara, mas não dei tempo para isso, e penetrei na casa. - Não se assuste!’’ - disse à velha, que parecia tremer de medo. – “Não se assuste, não lhe farei o menor mal”. E, vendo que a mesa estava servida com um resto de ceia. assentei-me e comecei a comer com o mesmo apetite com que devorei o frango de ainda há pouco. Depois tomei uma garrafa e enxuguei-a. Feito o que, abri uma porta, que dava para uma alcova, e estendi-me sobre uma boa cama que encontrei.

- E a velhusca?

- A velhusca a principio quis ir chamar a Polícia, mas, à vista do meu sangue-frio e talvez do ar pacífico de minha fisionomia, contentou-se em acompanhar-me os movimentos e afinal até já me achava graça. Dormi lá essa noite, dormi perfeitamente e, como, no dia seguinte, a velhusca me deu almoço, deixei-me ficar até que as pernas me pediram exercício. Fui então passear, mas logo que me senti cansado, voltei à casa da velhusca, e assim fui fazendo até que ela já não podia estar por muito tempo separada de mim, e já pagava as cousas de que eu ia precisando e já me dava dinheiro, charutos, garrafas de cerveja e balas.

- Depois?

- Depois começou a aconselhar-me que trabalhasse...

- E o senhor?

- Eu contei-lhe a minha história, falei-lhe no Melindroso e disse que não tinha elementos para ganhar a vida e que estava disposto a ir passando à mercê do acaso, até que um bonde ou uma febre de mau caráter se lembrasse de levar-me ao cemitério.

- Mas o fato da sua prisão?

- Ah! Vou contar-lhe tudo pelo miúdo.

Sou de V.Sª.

Atº. Crº. e ven.or

Novas Revelações

Nona Carta

Sr. Redator:

O singular homem, que eu tinha defronte dos olhos, narrou-me do seguinte modo o fato da sua prisão em companhia de minha sogra.

- Um ano depois que eu me relacionara com essa velhusca sublime, cuja forma o protetor acaso, ou Providência, escolhera para vir ao meu socorro, achei-me com ela, a Providência, passeando no pequeno jardim que existe defronte da Estação de Pedro II, quando um carregador me perguntou que fazíamos ali.

“ - Creio que vou tomar um cálix de vermouth - respondi eu. - Porquê?

“ - Nada - resmungou o carregador. – É cá uma coisa!

“ E afastou-se.

“ Poucos minutos depois, saboreava o meu vermouth ao lado da velha Providência, quando um urbano* se aproximou de nós e perguntou como eu me chamava.

* Urbano: soldado da Policia.

“ - João Alberto Castro Matta - disse eu.

“ - E esta senhora? — interrogou o urbano.

“ - Dona Leonarda da Conceição Meloso.

“ - Pois queiram acompanhar-nos.

“ - Para quê?

“ - Saberá na Estação.

“ A velhusca ao receber esta ordem perdeu os sentidos e eu, que não me alterei, pus-me a rir nas barbas do urbano.

“ - Você está se rindo de mim? - perguntou-me este.

“ - Assim o creio - afirmei, soltando uma gargalhada.

“ O urbano puxou pelo refle e ia dardejá-lo sobre a minha cabeça, quando de um salto lhe tomei a arma das mãos, arrojei-a para longe e investindo de cabeçadas contra o agressor, fi-lo cair dentro de um tanque do jardim.

“ Em seguida, despejei o meu cálice de vermouth sobre a testa de Dona Leonarda, chamei um carro, meti-me com ela dentro e mandei tocar para casa.

“ Mas o conflito com o urbano havia atraído muita gente e em breve era o meu carro escoltado por uma porção de soldados. De sorte que, ao chegarmos, eu e a minha velhusca, à Rua da Misericórdia, um morcego* abriu-me violentamente a portinhola da sege e intimou-me a que me rendesse no mesmo instante à prisão.

* Morcego: guarda-noturno.

“ - Bem respondi -, irei. Tanto se me dá ser preso, como não ser. Mas, peço-lhes que me deixem ao menos acompanhar primeiro esta senhora a sua casa.

“ - Nada! - bradou um sujeito, com ares de autoridade, o qual acabava de surgir defronte de mim: - Nada! Sua cúmplice irá também. Sigam!

“ E, gritando para um praça: - Não os larguem e levem-nos quanto antes à Estação.

“ Fomos os dous conduzidos à presença de uma nova autoridade, e, ato contínuo, mandaram-nos para a Casa de Correção, onde nos engaiolaram em células separadas.

“Eis aí, como fui preso. Depois sobreveio-me uma espécie de desfalecimento nervoso, do qual só tornei a mim na capela do Cemitério, naquela triste situação que já o amigo conhece perfeitamente.”

Sr. Redator, à vista desta declaração do ressuscitado, concluí que a Jeannite, dando as providências para que o amante e mais a sua miserável cúmplice fossem apanhados pela Polícia, tinha motivado esse ridículo engano.

(continua...)

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