Por Aluísio Azevedo (1882)
Este modo de saber se a pessoa que vamos a visitar está em casa, prova alguma coisa, prova, pelo menos, que Gregório era já tão familiar da criada quanto o era de Netuno, e por conseguinte que aquela visita poderia ter todos os méritos, menos o da novidade.
— Saiu, respondeu a criada, abaixando o rosto.
O moço não retorquiu, mas também não se foi; ficou a sacudir a perna, apoiado na bengala, assobiando.
A criada, com o rosto metido entre dois varais da grade, em que se sustinha com ambas as mãos, esperava que ele resolvesse qualquer coisa.
— Então saiu, hem?... insistia Gregório, interrompendo o assobio e bamboleando a perna com mais força.
— E, disse a criada, bocejando.
E os dois ficaram calados por algum tempo; afinal Gregório mostrou tomar uma resolução e acrescentou:
— Ora vá dizer-lhe que eu bem sei que ela está em casa...
— Minha ama saiu! sustentou a criada, a rir-se.
— Homem, faça o que lhe digo!
— Gentes! Ela não está!...
— Você então não quer ir?! Bem...
E Gregório fez o movimento de quem se afasta, levando uma intenção de vingança.
— Eu vou ver! exclamou a criada, largando os varais do portão.
Gregório voltou logo, como se fosse puxado por todo o corpo.
A criada desapareceu nas sombras duvidosas do jardim e, pouco depois, ouviu-se o som de uma voz de mulher que parecia ralhar dentro do chalé. Gregório sorriu sozinho e retomou o fio da música que assobiava.
Quando havia gasto já uns dois minutos de assobio, abriu-se uma das janelas do chalé e desenhou-se contra luz da sala a figura simpática da viúva.
— Já voltou?! disse Gregório, transpondo o portão e indo postar-se debaixo da janela.
— Você não disse que não voltava mais aqui?! perguntou a outra por sua vez.
E como Gregório não respondesse:
— Também olhe que ninguém o iria buscar!...
— Disso sei eu!... observou o rapaz, armando um gesto de quem medita. E acrescentou depois: — Bem tolo seria se acreditasse em amores... de viúvas.
— Nesse caso, por que voltou?...
— Voltei... nem sei porque... Antes com efeito não tivesse vindo!...
— Pois ainda está em tempo de voltar por onde veio!...
— Tem razão! respondeu Gregório. Boa noite!
— Não vê que era capaz...
— Você duvida?
— Duvidava! respondeu Júlia.
Gregório deu uma volta sobre os calcanhares e encaminhou-se para o portão, sem dizer palavra.
— Nhonhô! gritou a viúva, quando o rapaz já transpunha a saída.
— Que é? perguntou ele, voltando-se com afetada indiferença.
— Vem cá...
— Que deseja de mim?
— Entre...
— Para quê?
A viúva fez um movimento de ombros e foi abrir a porta da sala. Gregório subiu e ela o recebeu com um beijo.
— Não! disse ele; olhe que a senhora às vezes tem coisas bem esquisitas!
— Presumido!...
— Ainda não me esqueci do que se passou aqui no outro dia...
— Aí vem a tolice!...
— Tolice não! A senhora riu-se para ele!
— Bem caso faço eu agora daquele tipo! Um esganiçado!
— Sim! mas a senhora não lhe tirava os olhos de cirna!...
— Foi para isso que veio cá?...
— Eu não queria entrar...
— Então para que entrou?!...
— Queria ver se me encontrava com o tal barão!...
— Com que fim? se faz favor...
— Para pedir-lhe que a tratasse com toda a delicadeza!...
— Não era preciso; o barão é a cortesia personificada!
— Pois case-se com ele! — Quem sabe, hem?!
E os dois continuaram a altercar meio dessentidos, meio alegres, até que Gregório tomou o chapéu, despediu-se e saiu, sem fazer pazes completas.
Entre o largo de S. Francisco e o ponto dos bondes de Botafogo, onde tinha ele de tomar o das Laranjeiras, ao passar pelo café de Java, descobriu alguém que o fez parar. Encostou-se à parede da Notre-Dame e ficou a olhar muito para um sujeito de idade duvidosa, cabelos e barba exageradamente pretos e lustrosos, olhar vivo, gestos cerimoniosos e chapéu alto.
Era o barão.
A um dos cantos do café a Menina do Bandolim dedilhava as cordas do seu instrumento ao lado do irmão, e parecia inteiramente preocupada com a música.
O barão devorava-a com os olhos, enquanto em outra mesa mais afastada, um rapaz louro, bastante magro, de monóculo, gestos braçais muito angulosos, falava a um grupo de quatro ou cinco amigos que o escutavam com interesse; tratava-se de política revolucionária.
No fim de meia hora, o barão saiu do café, e, depois de alguns passos pelo largo de S. Francisco, falou em particular a um homem que parecia esperar por ele, e seguiu tranqüilamente na direção da rua do Teatro.
Gregório viu tudo isto e principiou a seguir com a vista o novo personagem.
Todavia, a Menina do Bandolim, que acabava de recolher o instrumento a um saco de baeta escura, retirava-se por sua vez com o irmão.
Gregório acompanhou-os a certa distância.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.