Por Aluísio Azevedo (1884)
O Borges é que não ficava muito satisfeito com a história. — Ele, para que o havia de negar?... não morria de amores por — aquele gênero de divertimento!...
E cuidava muito mais em vigiar o galã do que em estudar o seu papel. Pode ser que se enganasse... mas ia jurar que aquele pelintra não tinha por ali muito boas intenções!... Ah! ele sabia perfeitamente que a mulher não era das mais fáceis... (Oh! se sabia!) não estava, porém, em suas mãos afastar os olhos de cima do tal galã! Era lá uma cisma!...
— Também! Pobrezinho dele, se me cai na arara de tentar alguma! jurava o mestre de obras. Racho-o de meio a meio!
E — rachava. Mas o bonito curioso, bem a contragosto, não tinha achado ainda uma boa ocasião para dizer em particular a Filomena o que lhe repetia todos os dias, ajoelhado a seus pés, defronte do marido. Por várias vezes estivera até "vainão-vai", chegara a supor que a coisa se decidia; mas o diabo do Borges apresentava-se de repente, e... lá se ia a ocasião.
— Por ela, coitada! estou garantido! considerava o Barradinhas, pensando nos olhares prometedores de Filomena. Está caidinha! Assim dispusesse eu de um momento!... Não queria mais que um momento!... Dizer-lhe uma palavra; entregarlhe uma carta; fazer-lhe um sinal — bastava!
Mas o demônio do marido nem isso permitia!
A peste não fazia outra coisa senão vigiar a mulher! — Cacete!
Chegou o dia do espetáculo, sem que o Barradinhas tivesse oportunidade de ouvir dos lábios de Filomena aquilo que havia tanto tempo diziam os olhos indiscretos da formosa criatura.
— É para maçar! pensava ele indignado. É para fazer um homem perder a paciência! Sei que sou amado por uma mulher que adoro; caio-lhe aos pés, tomo-lhe as mãos, bebo-lhe nos olhos a confissão de sua ternura, — e, a despeito de tudo isso, não consigo estar com ela um só instante; porque essa mulher tem um marido impossível, um marido único, um marido que não a larga, um marido que não vai cuidar de seus negócios, um marido-calamidade! Diabo leve quem inventou semelhante homem!
E o lindo curioso dramático, quando fazia esses raciocínios, ficava colérico, furioso, a passear no lugar em que estivesse, com as mãos nos bolsos, o coração oprimido como por uma injustiça.
— Oh! ela será minha! Isso juro eu! Para que serve então ter talento e ser moço e bonito?...
Às oito horas da noite estava o teatrinho completamente cheio; a orquestra havia já tocado a sua sinfonia, e esperava o sinal para lançar a música com que tinha de principiar a peça. Corria nos espectadores um suspiro de impaciência. Filomena, nervosa, trêmula, esperava atrás de um bastidor que o pano subisse, para mostrar-se ao público, esplêndida na sua roupa de caráter, com o seu papel na ponta da língua. O contra-regra corria de um para outro lado, perguntando se todos estavam prontos e declarando que ia principiar o espetáculo. "Fora de cena! Fora de cena!" O ponto correu a esconder-se no seu buraco. E, na confusão que se fazia na caixa, cada um tratou de tomar o seu lugar. Mas ninguém sabia dar notícias do Borges.
— Ora, onde diabo se foi meter este homem?!... perguntou o contra-regra,
aflito.
Por esse tempo, o Barradinhas, que vira Filomena pela primeira vez sem o marido, meio oculta no vão sombrio de um bastidor, concebeu logo a idéia de aproveitar a ocasião; deu uma volta pelo fundo da caixa, e, surgindo misteriosamente por detrás dela, ia a segurar-lhe a cintura e ferrar-lhe um beijo, quando a bela mulher vira-se de súbito, recua dois passos e solta em cheio no lindo rosto do galã a mais sonora bofetada.
O regente, supondo ser aquela palmada o sinal que ele esperava, rompeu a orquestra, o pano ergueu-se logo, e os espectadores viram o seguinte:
Filomena, sem poder conter as gargalhadas, torcia-se num divã; o
Barradinhas, vestido de calção e meia, procurava uma saída, perseguido pelo Borges, que, em mangas de camisa e botas, de montar, numa cabeleira a escaparlhe pelo pescoço, cercava-o por toda a parte, a doidejar bengaladas. No meio do palco uma das amadoras escabujava com um ataque de nervos, entre o grupo assustado dos curiosos, que iam e vinham, num fluxo e refluxo de encontrões promovidos pelo Borges.
O público, defronte daquela cena tão agitada e tão ao vivo, tomou a resolução de aplaudir; enquanto o dono da casa, repetindo as bengaladas, bramia possesso:
— Pensava que eu não te via, grande velhaco? Não sabias que trago há muito a pulga atrás da orelha, grande maroto?!
O Borges, com efeito, não perdera de vista o galã, na ocasião em que se vestia no camarim, farejou-lhe os planos e tanto bastou para ir, munido de bengala, esconder-se sorrateiramente perto da mulher, por detrás de uma empanada, sem mais pensar no drama, e surdo completamente aos reclamos do contra-regra.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.