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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Boas! Podia lá estar disposto a sofrer aquele ele maçante do Campos!...Mas também não seria muito divertido andar sozinho pela cidade, a trocar pernas, sem um companheiro, sem um amigo. Além disso temia do seu provincialismo, receava “fazer figura triste”; ainda não conhecia o preço das coisa e o nome das ruas. No Maranhão falavam com tanto assombro dos gatunos da Corte! — os tais capoeiras! E Amâncio sobressaltava-se pensando num encontro desagradável, em que lhe cambiassem o dinheiro e as jóias por uma navalhada.

Seu maior desejo era ter ali um dos amigos da província, a quem confiasse as impressões recebidas e com quem pudesse conversar livremente, à franca, sem medir palavras, nem tomar as enfadonhas reservas e composturas, que lhe impunha a censória presença do negociante.

Por isso, numa ocasião, em que atravessava pela manhã o Beco do Cotovelo, sentiu grande alegria ao dar cara a cara com o Paiva Rocha. O Paiva era seu comprovinciano e fora seu condiscípulo; pertenceram à mesma turma de exames na aula do Pires e matricularam-se juntos no Liceu. Mas, enquanto o filho do Vasconcelos estudou as três primeiras matérias, o outro fez todos os preparatórios. Abraçaram-se. Houve exclamações de parte a parte.

— Ora o Paiva! disse Amâncio afinal, encarando o amigo com um olhar muito satisfeito. — Não te fazia aqui na Corte!

— Estou na Politécnica.

— Ah! exclamou Amâncio, com interesse. — Que ano?

— Terceiro.

— Bom. Estás quase livre!

— Qual! resmungou o Paiva, mascando o cigarro. — tenho ainda muito que aturar!

E passaram então a falar de estudos. Amâncio fazia recriminações: “Só encontrara dificuldades”. Disse a sua antipatia pelas ciências práticas; queixou-se de alguns veteranos, que por serem mais antigos na escola, se julgavam com direito de maltratar os outros. “Era estúpido! simplesmente estúpido!”

— Tradições! respondeu o Paiva, com a indiferença de quem não preocupam tais bagatelas. — Isso há de acabar...A natureza não dá saltos!

Amâncio, como qualquer provinciano que ainda não tivesse ocasião de apreciar o Rio de Janeiro, julgava-se tão desiludido a respeito dele, quanto a respeito de estudos.

— Sempre imaginei que fosse outra coisa!...disse. — A tal Rua do Ouvidor, por exemplo!...

Paiva já não o ouvia, era todo atenção para um cartaz de teatro, que um sujeito pregava na parede defronte.

Amâncio prosseguiu, declarando que, até ali, nada encontrara de extraordinário na Corte.

— Com franqueza — antes o Maranhão! Com franqueza que antes! Não achas?...perguntou.

— É! respondeu o outro, distraído.

Mas Amâncio precisava desabafar e não se contentou com aquela resposta. Insistiu na pergunta; chamou a atenção do Paiva, agarrando-se-lhe à gola esgarçada do fraque.

— Não, filho, deixa-te disso, retorquiu o interrogado. — A Corte sempre é Corte!...

— Ora qual!

— É porque ainda não estás acostumado, ainda não conheces o Rio! Hás de ver depois!...

Amâncio duvidava.

— Verás! repetia o Paiva.— Daqui a um ou dois anos é que te quero ouvir.

E passaram de novo a falar de estudos, matrícula e de exames. Paiva bocejou; o outro estava “caceteando’’. Quis safar-se.

— Espera! implorou Amâncio, apoderando-se-lhe de novo da gola do fraque — Espera!

— Onde vais tu?... Conversa mais um pouco! suplicava ele com a voz infeliz de quem pede uma esmola. Não te vás ainda! Que pressa!

Paiva tinha de ir almoçar com um amigo. Estava muito ocupado! “Naquele dia não dispunha de um momento seu ” Depois, depois se encontrariam!

— Não! Vem cá! Espera!

O Paiva levantou as sobrancelhas, impacientando-se.

— Mas, vem cá, dize-me uma coisa: o que é que tanto tens hoje a fazer?...inquiriu o outro.

— Filho, questões de interesse! respondeu aquele, procurando abreviar explicações. Veio-lhe, porém, um ímpeto de raiva e começou a falar alto sobre dinheiro; havia brigado na véspera com o seu correspondente.

— Um burro! exclamava, — um vinagre! Imagina tu que o malvado sabe perfeitamente que não tenho ninguém por mim aqui no Rio, e põe-se com dúvidas para me dar a mesada! ...Como se aquele dinheiro lhe saísse do bolso! Diabo da peste!

— Ele então não te quis dar a mesada?...perguntou Amâncio muito espantado.

— É o costume aqui!retrucou o Paiva desabridamente.— Eles julgam que nos fazem grande obséquio em dar-nos aquilo que nos pertence!

E, olhando para Amâncio com os olhos apertados:

— Mas também, filho, disse-lhe meia dúzia de desaforos, como ele nunca ouviu em sua vida! Cão!

E expôs a descompostura por inteiro, na qual as palavras galego ,ladrão, cachorro entravam repetidas vezes.

— De sorte que, terminou o estudante mais tranqüilo, como se houvesse despejado um peso nas costas, — não tenho lá ido! Questão de capricho, sabes? olha, estou assim!

E bateu nas algibeiras.

— Isso arranja-se...disse Amâncio timidamente, receoso de humilhar o colega. E depois, com um vislumbre: Vamos almoçar a um hotel?!

O Paiva concordou, sacudindo os ombros. E, como Amâncio perguntasse onde deviam ir, começou a citar os melhores hotéis; já sem deixar transparecer o menor indício de pressa.

(continua...)

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