Por Martins Pena (1845)
Florência, à parte — Aqui há segredo...
Mestre — Às vossas determinações...
Florência — Uma serva de Vossa Reverendíssima.
Mestre , para Florência — Quanto à saída de seu sobrinho do convento, com D. Abade se entenderá.
Florência — Nós o procuraremos. (Mestre sai e Florência acompanha-o até a porta;
Ambrósio está como abismado)
CENA VIII
Emília, Ambrósio e Florência
Emília, à parte — Carlos, Carlos, o que será de ti e de mim?
Ambrósio, à parte — Se ela agora me aparece? Se Florência desconfia... Estou metido em boas! Como evitar, como? Oh, decididamente estou perdido. Se a pudesse encontrar... Talvez súplicas, ameaças, quem sabe? Já não tenho cabeça? Que farei? De uma hora para outra aparece-me ela...(FLORÊNCIA bate-lhe no ombro.) Ei-la! (Assustando-se.)
Florência — Agora nós. (Para EMÍLIA:) Menina, vai para dentro. (Vai-se EMÍLIA.)
CENA IX
Ambrósio e Florência.
Ambrósio, à parte — Temos trovoada grossa...
Florência — Quem era a mulher que estava naquele quarto?
Ambrósio — Não sei.
Florência — Sr. Ambrósio, quem era a mulher que estava naquele quarto?
Ambrósio — Florência, já te disse, não sei. São cousas de Carlos.
Florência — Sr. Ambrósio, quem era a mulher que estava naquele quarto?
Ambrósio — Como queres que eu to diga, Florencinha?
Florência — Ah, não sabe? Pois bem, então explique-me: por que razão mostrou-se tão espantado, quando Carlos o levou à porta daquele quarto e mostrou-lhe quem estava dentro?
Ambrósio — Pois eu espantei-me?
Florência — A ponto de levar-me quase de rastos para a igreja, sem chapéu, lá deixar-me e voltar para casa apressado.
Ambrósio — Qual! Foi por...
Florência — Não estude uma mentira, diga depressa.
Ambrósio — Pois bem: direi. Eu conheço essa mulher.
Florência — Ah! E então quem é ela?
Ambrósio — Queres saber quem é ela? É muito justo, mas aí que está o segredo.
Florência — Segredos comigo?
Ambrósio — Oh, contigo não pode haver segredo, é a minha mulherzinha. (Quer abraça-la)
Florência — Tenha-se lá; quem era a mulher?
Ambrósio, à parte — Não sei o que lhe diga...
Florência — Vamos!
Ambrósio — Essa mulher... Sim, essa mulher que há pouco estava naquele quarto, foi amada por mim.
Florência — Por ti?
Ambrósio — Mas nota que digo: foi amada, e o que foi, já não é.
Florência — Seu nome?
Ambrósio — Seu nome? Que importa o nome? O nome é uma voz com que se dão a conhecer as cousas... Nada vale; o indivíduo é tudo... Tratemos do indivíduo. (À parte:) Não sei como continuar.
Florência — Então, e que mais?
Ambrósio — Amei a essa mulher. Amei, sim, amei. Essa mulher foi por mim amada, mas então não te conhecia. Oh, e quem ousará criminar a um homem por embelezar-se de uma estrela antes de ver a lua, quem? Ela era a estrela, e tu és a lua. Sim, minha Florencinha, tu és a minha lua cheia e eu sou teu satélite.
Florência — Oh, não me convence assim..
Ambrósio, à parte — O diabo convença a uma mulher! (Alto:) Florencinha, encanto da minha vida, estou diante de ti como diante do confessionário, com uma mão sobre o coração e com a outra... Onde queres que eu ponha a outra?
Florência — Ponha lá onde quiser...
Ambrósio — Pois bem, com ambas sobre o coração, dir-te-ei: só tu és o meu único amor, minhas delícias, minha vida ... (À parte:) e minha burra!
Florência — Se eu pudesse acreditar!...
Ambrósio — Não podes porque não queres. Basta um bocado de boa vontade. Se fiquei aterrorizado ao ver essa mulher, foi por prever os desgostos que terias, se aí a visses.
Florência — Se temes que eu a veja, é porque ainda a ama.
Ambrósio — Amá-la eu? Ah, desejava que ela estivesse mais longe de mim do que o cometa que apareceu no ano passado.
Florência — Oh, meu Deus, se eu pudesse crer!
Ambrósio, à parte — Está meia convencida...
Florência
— Se eu o pudesse crer! (Rosa entra vestida de frade, pelo fundo, pára e
observa.)
(continua...)
PENA, Martins. O Noviço. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17004 . Acesso em: 29 jan. 2026.