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#Comédias#Literatura Brasileira

O Namorador ou a Noite de São João

Por Martins Pena (1845)

O Namorador ou a Noite de São João apresenta, de forma cômica, situações típicas do cotidiano urbano do século XIX. A trama gira em torno de mal-entendidos amorosos, festas populares e personagens caricatos, revelando costumes e relações sociais da época. Com humor leve e crítica aos hábitos da sociedade, o texto transforma a celebração de São João em cenário para confusões e ironias.

Comédia em 1 ato



PERSONAGENS

VICENTE, velho.

CLARA, mulher de Vicente.

CLEMENTINA, sua filha.

RITINHA, amiga de Clementina.

LUÍS, primo de Clementina.

JÚLIO.

MANUEL, ilhéu, feitor.

MARIA, ilhoa, sua mulher.

Convidados de ambos os sexos, meninos, negros e moleques.

A cena se passa em uma chácara no Engenho Velho, no ano de 1844.

ATO ÚNICO

O teatro representa uma chácara. No fundo, a casa de vivenda com quatro janelas rasgadas e uma porta para a cena. A casa dentro estará iluminada, deixando ver pelas janelas várias pessoas dançando ao som de música, outras sentadas e alguns meninos atacando rodinhas. À esquerda, no primeiro plano, a casinha do feitor, a qual, sendo saliente sobre a cena, terá uma janela larga para frente do tablado e uma porta para o lado; debaixo da janela haverá um banco de relva. No canto que faz a casinha, um monte de palha; à direita, no mesmo plano a casinha, uma carroça. Defronte da porta da casa, uma fogueira ainda não acabada; mais para frente, o mastro de S. João, e dos lados deste, um pequeno fogo de artifício constando de duas rodas nas extremidades e de fogos de vista e coloridos, que serão atacados a seu tempo. A cena é alumiada pela lua, que se vê sobre a casa por entre árvores.

(N.B.: Deve-se dar todo o espaço necessário para a distribuição da cena acima marcada, a fim de se evitar a confusão e conservar a naturalidade do que se quer representar.)

CENA I

Ritinha com um copo com água na mão, e Clementina com um ovo.



RITINHA – Só nos falta esta adivinhação. Já plantamos o dente de alho, para vê-lo amanhã nascido; já saltamos três vezes por cima de um tição...

CLEMENTINA – E já nos escondemos detrás da porta, para ouvirmos pronunciar o nome daquele que virá a ser teu noivo.

RITINHA – Vamos à do ovo. (Clementina quebra o ovo na beira do copo e deita a clara e gema dentro da água.)

CLEMENTINA – Agora dê cá, (toma o copo) e ponhamo-lo ao sereno.

RITINHA – Para quê? Explica-me esta, que eu não sei.

CLEMENTINA – Este ovo, exposto ao sereno dentro da água, vai tomar uma forma qualquer, por milagre de S. João. Se aparecer como uma mortalha, é sinal que morremos cedo; se tomar a figura de uma cama, é prova nos havemos de casar este ano; e se se mostrar debaixo da forma de véu de freira, é certo agouro que viveremos sempre solteira. (Põe o copo sobre o banco de relva.)

RITINHA – O melhor é não indagarmos isso.

CLEMENTINA – Tens receio?

RITINHA – A esperança, quando mais não seja, alimenta. Se eu tivesse a certeza que nunca acharia um noivo, não sei o que faria.

CLEMENTINA – Pois eu tenho a certeza que o acharei.

RITINHA – Podes dizer isso, és bonita...

CLEMENTINA – Também o és.

RITINHA – Mas és rica, e eu não; e esta pequena diferença muda muito a questão. És filha única e teu pai possui esta bela chácara e outras muitas propriedades. Ali dentro estão alguns moços que porfiam em te agradar; está nas tuas mãos escolheres um para noivo. E eu posso dizer outro tanto?

CLEMENTINA – E por que não?

RITINHA – Tenho apenas um namorado.

CLEMENTINA – É o primo Luís?

RITINHA – É ele mesmo, mas confesso-te ingenuamente que não sei o que ele quer. Ora mostra-se muito apaixonado, ora não faz caso de mim e namora a outras moças mesmo à minha vista; às vezes passam-se dias e dias sem me aparecer...

CLEMENTINA – Pois que esperas tu do primo Luís, daquele doudo que namora o torto e a direito a bonito e a feia, a moça e a velha?

RITINHA, suspirando Ai, ai!

CLEMENTINA – O que admira-me é ver como tens conseguido tê-lo por namorado há quase três meses.

RITINHA – Bem esforços me tem custado.

CLEMENTINA – Eu te creio, porque ele diz que um namoro que dura mais de oito dias é maçada.

RITINHA – Tanto não poderás tu dizer dos teus, principalmente do Júlio.

CLEMENTINA – Queres que te diga uma coisa? O tal Sr. Júlio, com todos os seus excessos, já me vai aborrecendo sofrivelmente.

RITINHA – Oh, aborrecem-te os excessos?

CLEMENTINA – Quando está junto de mim tem um ar tão sentimental que faz dó ou riso.


RITINHA – É amor.

CLEMENTINA – Se é obrigado a responder-me, é titubiando e trêmulo; atrapalha-se, não sabe o que diz e também nunca acaba de dizer.

RITINHA – É amor.

(continua...)

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