Por José de Alencar (1857)
Ernesto (voltando-se) — Já vi a senhora... Sim e por sinal que... Pode guardar o seu papel; sei o que ele contém; uma história de oito filhinhos.
D. Luísa — Nus os pobrezinhos, sem ter o que comer.
Ernesto — Não me logra segunda vez.
D. Luísa — Mas V.Sa. talvez precise de uma pessoa...
Ernesto — Onde mora a senhora?
D. Luísa — Rua da Guarda Velha, n.0 175; se o senhor deseja alguma comissão, algum recado... estou pronta.
Ernesto — Diga-me; se eu lhe mandasse de São Paulo por todos os vapores uma carta para entregar a uma moça, dentro de uma sua, a senhora entregava?
D. Luísa — Ora, na carreira; contanto que a carta de dentro viesse com o porte pago.
Ernesto — Há de vir; um bilhete de 5$OOO.
D. Luísa — Serve; pode mandar.
Ernesto — Pois então está dito; deixe-me tomar a sua morada.
D. Luísa — Não precisa; leve esse papel.
Ernesto — E a senhora fica sem ele?
D. Luísa — Tenho outro. (Tira do bolso rindo) Essa história de viúva já está muito velha, agora sou mulher de um entrevado
Ernesto — Que mulher impagável! Isto só se encontra aqui no Rio de Janeiro. Oh! agora! Posso escrever-lhe a Júlia.
(Entra Júlia).
CENA XIII
Os mesmos, Júlia, depois Teixeira
Ernesto (a Júlia) — Sabe? Estou alegre.
Júlia — Por quê?
Ernesto — Achei uma maneira de escrever-lhe de São Paulo sem que meu tio saiba.
Júlia — Oh! não, meu primo! Não posso receber!...
Ernesto — Mas então quer que passemos oito meses sem ao menos trocar uma palavra.
Júlia — Se houvesse outro meio...
Ernesto — Que melhor do que uma carta inocente?...
Júlia — Sem consentimento de meu pai?... Não!
Ernesto — Então eu falo a meu tio logo de uma vez, e está acabado. Quer?
Júlia — Não sei. Faça o que entender.
Ernesto — Espere! Mas não sei como hei de dizer-lhe isto. (Entra Teixeira e dá dinheiro a Luísa)
Teixeira — Aqui tem, creio que isto é suficiente para um mês; portanto não me apareça antes.
D. Luísa — Sim, senhor, obrigada. (A Júlia) Minha senhora! (Baixo, a Ernesto (cumprimentando)) O dito, dito.
Ernesto — Sim. (Sai Luísa).
CENA XIV Teixeira, Ernesto, Júlia
Júlia — Não sei, papai, por que ainda dá dinheiro a esta velha. É uma vadia!
Teixeira — Uma pobre mulher! Para que Deus deu aos abastados senão para esperdiçar como os que não têm?
Ernesto — Se o Sr. compromete-se a fazer aceitar esta teoria, meu tio, declaro que me inscrevo no número dos pobretões.
Teixeira — Já mandaste deitar o almoço, Júlia?
Júlia — Já dei ordem, papai.
Teixeira — Ernesto precisa almoçar quanto antes, pois não lhe resta muito tempo para embarcar.
Júlia — Não é às onze horas?
Teixeira — Sim, e já são dez. (Sobe)
Ernesto (baixo, a Júlia) — Não a deixo senão no último momento; hei de aproveitar um minuto.
Júlia (baixo, a Ernesto) — Um minuto nessas ocasiões vale uma hora.
Teixeira (descendo) — Agora, Ernesto, tão cedo não te veremos por cá!
Ernesto — Daqui a oito meses estou de volta, meu tio.
Teixeira — Pois não! Teu pai, na última carta que me escreveu, disse que estava arrependido depois que consentira em que viesses ao Rio, e que pelo gosto dele não voltarás tão cedo. Queixa-se porque tens gasto muito!
Júlia — Ah!
Ernesto — Meu pai disse isto?
Teixeira — Posso mostrar-te a carta.
Ernesto — Paciência. Ele está no seu direito.
Teixeira — Agora é tratares de te formar, e ganhar uma posição; poderás fazer o que te aprouver. (Sobe) Nada de almoço.
Júlia (baixo) — Quando nos veremos!
Ernesto — Quem sabe! Talvez meu pai...
Ernesto (com ironia) — É muito para esperar, não é, prima?
Júlia (sentida) — Não, Ernesto; mas é muito para sofrer!
CENA XV Os mesmos, Filipe
Filipe (entra na carreira e faz um grande barulho) — Alvíssaras! Alvíssaras! Número
1221! Sorte grande! Premiado! Alvíssaras! Número 1221!
Teixeira — Que louco é este?
Ernesto — Está danado!
Filipe — Enganado, não! Número 1221! Sorte grande!
Teixeira — O que quer o Sr.?
Filipe — As minhas alvíssaras!
Teixeira —
Mas pelo quê? Explique-se.
(continua...)
ALENCAR, José de. Verso e Reverso. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16680 . Acesso em: 28 jan. 2026.