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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Aurélia está perdida para mim. Quantos a admiravam ontem no Cassino, podem pretendê-la, embora arrisquem a ser repelidos; eu não tenho esse direito, sou o único. 

- Porque, mano? É por causa da Amaralzinha, com quem dizem que você há de casar-se? 

- Isto ainda não é coisa decidida, Mariquinhas, tu bem sabes. A razão é outra.

- Qual é então? 

- Depois... depois eu te direi. 

Terceira voz interveio no diálogo com estas palavras: 

- Pode dizer já, mano; eu me vou embora. Não quero surpreender seus segredos. 

A pessoa que falara era outra moça que pouco antes entrara na sala e ouvira as últimas réplicas da conversa. 

- Pois vem cá, Nicota, que eu te direi ao ouvido o meu segredo! Retrucou-lhe Seixas a rir-se do amuo da irmã. 

- Não mereço; isto é bom para Mariquinhas! Tornou Nicota de longe. 

- Que é isto agora de Nicota? Porque eu estava conversando com Fernandinho? Será algum crime? 

- Não é por isso, voltou-lhe a irmã com os olhos a marejar. Você enganou-me dizendo que ia engomar seu vestido, e veio espiar se o mano já tinha acordado para trazerlhe  o café. 

- Pois fui mesmo engomar; porém ouvi o mano abrir a porta... E você, porque se deixou ficar? 

- Eu estava acabando a costura daquela senhora, que você bem sabe, que devo dar hoje sem falta. Tinha pedido à mamãe para me chamar logo que Fernandinho acordasse; e ela, não o ouvindo assoviar como costuma, pensou que estivesse dormindo ainda com o cansaço da viagem e do baile. 

Seixas acompanhava com um sorriso de remoque, mas repassado de ternura e desvanecimento, a contestação das duas irmãs. 

- Mas afinal que culpa tenho eu, Nicota, do que fez a senhora D. Mariquinhas? Não me dirás, menina? 

- Não lhe acuso, mano. Alguém tem culpa de querer mais bem a uma pessoa do que a outra? 

- Ciumenta! Exclamou Seixas. 

O moço ergueu-se e foi ao meio da sala buscar Nicota, que por decoro se conservava arredia encostada à última cadeira. 

- É escusado te agastares comigo, que eu não admito estes arrufos. Quanto mais franzires a testa, mais beijos te dou para desmanchar estas rugas tão feias. 

- É o que ela queria! Observou Mariquinhas já com sua ponta de ciúme. 

- Ora vamos a saber, senhora ingrata, disse Seixas trazendo Nicota para o sofá e sentando-a junto a si. Em que mostrei eu querer mais bem a Mariquinhas do que a ti? Não reparti meu coração em duas fatias, bem iguaizinhas das quais cada uma tem a sua? 

- Mas você gosta mais de conversar com Mariquinhas, tanto que toda esta manhã estiveram aqui em segredinhos... 

- É este o ponto da queixa? Pois senhora D. Mariquinhas vá-se embora, que eu quero conversar outro tanto tempo com Nicota e com ela só. Está satisfeita? Assim fica bem paga? 

Nicota sorriu, ainda entre o arrufo, como raio de sol através da nuvem. 

- E o café? 

- Ah! Também temos café? Pois, filha, vai buscar outra xícara que eu receberei com muito prazer de tuas mãos. E também me darás um charuto que eu fumarei até o meio em lugar desta ponta. Ainda falta alguma coisa? 

A jovialidade do Seixas e o seu carinho, não só desvaneceram as queixas da Nicota, como restabelecem a cordialidade entre duas meninas, que se queriam extremosamente com afeto, só estremecido pelo ciúme desse irmão mimoso. 

 

VI 

 

Filho de um empregado público e órfão aos dezoito anos, Seixas foi obrigado a abandonar seus estudos na Faculdade de São Paulo pela impossibilidade em que se achou sua mãe de continuar-lhe a mesada. 

Já estava no terceiro ano, e se a natureza que o ornara de excelentes qualidades lhe desse alguma energia e força de vontade, conseguiria ele vencendo pequenas dificuldades, concluir o curso, tanto mais quanto um colega e amigo, o Torquato Ribeiro, lhe oferecia hospitalidade até que a viúva pudesse liquidar o espólio. 

(continua...)

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