Por José de Alencar (1870)
Com os irmãos e amigos vivia em perfeita intimidade; consentia que lhe roçassem a cabeça pelo ombro, ou lambessem-lhe a face. Muitas vezes comiam em sua mão; andavam constantemente soltos; não havia cabresto nem soga para eles; era corcéis livres.
Tinham esses membros da família suas vontades, que o chefe respeitava por uma justa reciprocidade. Se acontecia agastar-se algum, e a consciência de Manuel o acusava, era ele quem primeiro cedia; e assim faziam-se as pazes.
Aos camaradas não consentia o gaúcho aquelas familiaridades; ao contrário, os tratava com certa reserva. Saudavam-se pela manhã ao despontar do dia; e à noite, na ocasião de recolher. Comumente se encontravam na hora da ração: comiam juntos, os brutos no embornal, o homem na palangana.
Na opinião de Manuel o cavalo e o homem contraíam obrigação recíproca; o cavalo de servir e transportar o homem; o homem de nutrir e defender o cavalo. Se um dos dois faltasse ao compromisso, o outro tinha o direito de romper o vínculo. O homem devia expulsar o cavalo, o cavalo devia deixar o homem.
Só em um caso o Canho castigava o ginete brioso: era quando o bruto se revoltava. Então havia luta franca e nobre; os dois contendores mediam as forças, e o mais hábil ou o mais vigoroso vencia o outro. Na sua adolescência, até aos quinze anos, fora o gaúcho batido muitas vezes; mas já ia para sete anos que tal coisa não lhe sucedia.
Fora desse caso do desafio, o rebenque e as chilenas eram trastes de luxo e galanteria. Somente usava deles em circunstâncias extraordinárias, quando era obrigado a montar em algum cavalo reiúno e podão, desses que só trabalham como o escravo embrutecido à força de castigo.
Tinha o gaúcho inventado uma linguagem de monossílabos e gestos, por meio da qual se fazia entender perfeitamente dos animais. Um hup gutural pungia mais seu cavalo do que a roseta das chilenas; não carecia das rédeas para estacar o ginete à disparada: bastava-lhe um psiu.
Enfim o cavalo era para o gaúcho um próximo, não pela forma, mas pela magnanimidade e nobreza das paixões. Entendia ele que Deus havia feito os outros animais para vários fins recônditos em sua alta sabedoria; mas o cavalo, esse Deus o criara exclusivamente para companheiro e amigo do homem. Tinha razão.
Se o homem é o rei da criação, o cavalo serve-lhe de trono. Veículo e arma ao mesmo tempo, ele nos suprime as distâncias pela rapidez, e centuplica nossas forças. Para o gaúcho, especialmente para o filho errante da campanha, esse vínculo se estreita.
O peixe careca d’água, o pássaro do ambiente, para que se movam e existam. Como eles, o gaúcho tem um elemento, que é o cavalo. A pé está em seco, faltam-lhe as asas. Nele se realiza o mito da antigüidade: o homem não passa de um busto apenas; seu corpo consiste no bruto. Uni as duas naturezas incompletas: este ser híbrido é o gaúcho, o centauro da América.
Contavam muitas coisas a respeito de Manuel Canho.
Não passava ele por lugar onde visse um cavalo enfermo ou estropiado que se não apeasse, fosse embora com pressa, para o socorrer. Sangrava-o, se era preciso; cauterizava-lhe as feridas; e até quando já o animal se não podia erguer, ele o arrastava para a sombra e ia buscar-lhe água no chapéu em falta de outra vasilha.
Tinha comprado alguns cavalos que os donos arrebentavam de mau trato, unicamente para lhes dar repouso e assegurar-lhes velhice sossegada. Por causa de um destes protegidos seus, que um vizinho derreou, teve ele uma briga feia que felizmente acabou sem desgraça. O vizinho de uma satisfação completa, alforriando, a pedido do gaúcho, um reiúno que tinha feito a campanha de 1812.
Não via o Canho castigarem barbaramente um animal, sem tomar o partido deste. Por isso afirmavam que era ele o gaúcho mais popular entre os quadrúpedes habitantes das verdes coxilhas banhadas pelo Uruguai e seus afluentes, o Ibicuí e o Quaraim.
Em qualquer ponto onde estivesse, precisando de um cavalo, não carecia de o apanhar a laço: bastava-lhe um sinal e logo aparecia o magote alegre a festejá-lo, oferecendo-se para seu serviço. O trabalho era escolher e arredar os outros, pois todos queriam prestar-se, como seus amigos que eram, uns por gratidão, outros por simpatia.
Quando partia, o acompanhavam algumas quadras, curveteando a seu lado, como demonstração de amizade. Afinal paravam para segui-lo com a vista, até que sumia-se por detrás das coxilhas.
Estâncias havia em que anunciava-se a chegada de Manuel pelo relincho estridente, que é o riso viril e sonoro do cavalo. Era o gaúcho recebido e afagado na tronqueira pelos camaradas saudosos, que vinham apresentar-lhe o focinho, rifando com ciúmes uns dos outros.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.