Por Coelho Neto (1898)
Longe de retrahir-se com a resposta fez-se o xeque annunciar. Entrou a nau em aprestos de aformoseamento – poz-se a maruja em faina lavando o convez, brunindo os metaes, reparando avarias mais visiveis – escachoava a agua dos gamotes, cosiam-se rasgões das velas, calefatavam-se frinchas, breavam-se cabos, substituíam-se roldanas
Tapetes forraram as taboas salitradas toldos, de varios matizes, esticaram-se, bandeiras e galhardetes foram subindo ás driças e, para maior ostentação de garbo e força, fez o Gama mudar-se para os demais navios a gente fraca e doentia, escolhendo entre os homens os mais válidos aos quaes distribuio vistosas roupas.
Já rebrilhava a nau garrida quando estrondaram no mar as musicas dos negros. Estavam as aguas coalhadas de pirogas, porque todos queriam contemplar esse espectaculo, e uma frota de almadias vinha suavemente desusando em direcção á capitanea. O fausto com que vinham enriquecidas era proprio de um principe; a comitiva era grande e bem disposta e de pé, com os seus turbantes afogueados, trombeteiros sopravam clangorosamente. Desembarcando o xeque amparou-o o Gama fazendo-o passar por entre duas alas de homens cTarmas que formavam na tolda. Vestia o mouro soberbo uma cabaia de algodão finissimo e, sobre ella, outra de precioso velludo levantino, a fóta, entresachada de fios de ouro, fulgurava, um terçado á cinta cravejado de pedras e nos pés abarcas de velludo e ouro.
Sem dar mostras de espanto, como se tudo quanto visse já lhe fosse commum, seguio para a mesa na qual fôra servida uma collação profusa e, tanto se regalaram que o xerife d'ella saio cambaleando, com os olhos amortecidos, a baba em fio pela bocca d'onde escapavam grugrulhos desconnexos.
Alli se entretiveram o Gama e o xeque perguntando o mouro d'onde vinham e, respondendo-lhe o navegador com a verdade, ajuntou que iam de caminho á India. Para engrandecer seu Rei disse que aquellas naus eram parte mesquinha d'uma numerosa frota que largara de Lisboa perdendo-se a maior parte dos navios nas tormentas d'aquelles mares.
Fallaram de mercadorias, dizendo o Gama que o precioso que trazia era nas outras naus. Houve, então, o ensejo de chegarem aos pilotos e logo o xeque compremetteu-se a dal-os retirando-se, em seguida, com as mesmas mostras de amizade ao tempo em que soavam as trombetas e charamellas, e as frautas e as bozinas dos barbaros respondiam.
Vindo a bordo os dois pilotos logo o Gama lhes deu trinta miticaes e, a cada um a sua marlota, dispondo-se que, se um saisse á terra outro ficasse a bordo que era o meio de haverem sempre um de refem. Noite e dia rondavam as naus pirogas com indigenas que olhavam o movimento da maruja; em terra parecia haver absoluta calma, d'isso mesmo desconfiava o Gama e, para não se comprometter em lucta desigual, quiz logo fazer-se ao mar, ordenando, porém, antes de levarem, que saisse uma partida de homens em dois bateis armados para fazer provisão d'agua. Iam seguindo quando contra elles partiram muitos zambucos com mouros que bramavam despedindo flechas e brandindo irradiadas e azagaias. Responderam os dos bateis com as suas bombardas e os besteiros fizeram claros na horda dos bandidos. D'alli, tristonhos, se partiramindo fundear diante de uma ilha que ficou chamada de S. Jorge onde o Gama mandou erigir um altar celebrando um dos clerigos da frota — e muitos homens confessaram-se e commungaram voltando, com mais allivio, ás naus que logo desataram as velas, ia a bordo um dos pilotos mouros porque o outro ficara em terra homiziado e, com esse, navegando ou demorando em abafadas e mortas calmarias, depois de muito andarem, viram os nautas, com surpreza, que se achavam a quatro ou cinco leguas abaixo de Moçambique. Para esperar os ventos que ajudassem a vencer as rapidas correntes que tanto faziam desandar as naus resolveu o Gama surgir diante da mesma ilha de S. Jorge. Alli, firmados sobre as ancoras, receberam do xeque de Moçambique, como embaixador, um mouro branco que era xerife propondo a fazer a alliança e outro mouro, com um filho, guindo-se á nau pedindo que o levassem porque era dos arredores de Meca e chegára a Moçambique como piloto de uma fusta.
Com esses sucessos os dias se passaram resolvendo o Gama entrar em Moçambique para prover-se d'agua que ia escasseando. Feita a manobra, á meia-noite, estando em silencio e deserto o porto, arríararn-se bateis indo n’elles o Gama e Nicoláo Coelho e o piloto mouro, entre gente de guerra.
Em terra andaram perdidos, embrenhando-se nas mattas sem descobrir aguada e, como suspeitavam do piloto que era o mais atordoado posto que houvesse dito conhecer o sitio onde a encontrariam, apertavam a mais e mais a vigilancia.
Na tarde do dia seguinte foram de novo á terra achando o que buscavam sendo, porém, forçados a repellir o indigena que dava mostras de hostilidade como se os quizesse privar do que tanto careciam. Andavam elles n'esse empenho quando um grumete negro que levavam, vendo-se em terra mais sympathica ao seu genio, desviou-se escapando-se.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.