Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

- Bravo! Um frango assado! - Um pedaço de roast-beef, esplêndido! - Ostras de forno, magnífico!

- Queijo de Minas, soberbo! - Pastéis de camarão, divino! - Uma lingüiça, ótimo!

- Creio que chega - disse eu.

- Pelo menos remedeia - afiançou o ressuscitado, atirando para longe o chapéu e cravando os dentes no frango. - O amigo algum dia já passou meia semana sem comer? — perguntou-me ele.

- Não me lembro.

- Pois aqui está quem já atravessou uma semana inteira, sem meter para a boca um grão de arroz. Tenho curtido muito boa fome nesta heróica Cidade de São Sebastião. Aqui onde me vê, conheço todas ai delícias da miséria!

- Ninguém o diria, atendendo para esse bom humor de que dispõe o amigo.

- Ah! Mas é que eu encaro o mundo de um ponto de vista muito filosófico. Não me preocupo absolutamente com a vida, nem com a morte. Que m‘importa a mim que as cousas corram deste ou daquele modo? Que m‘importa que chova ou que faça frio? Acaso desejo conservar a existência?

- O senhor é um homem singular!...

- Não, sou apenas um indiferente, sou uma sombra! Sei que nada valemos, sei que tudo isto que nos cerca desaparecerá dentro de certo tempo, sei que nós todos vivemos para cumprir uma lei indefectível da natureza, e deixo-me por conseguinte governar como um verdadeiro instrumento. Não tenho vontades, não tenho querer. Aceito a vida, aceito os fatos, sejam eles quais forem, sem lhes perguntar donde vieram, que significam ou qual o fim a que se destinam. Que diabo me pode suceder com este sistema? - A morte? – Puff! estou me ninando para ela! — O descrédito? Mas que diabo vem a ser isso? Não aspiro posição alguma na sociedade, não pretendo nada de meus semelhantes; vivo, porque assim o determinaram os mistérios da criação; não me mato, porque seria uma maçada, e deixo correrem as cousas como elas bem entendam!

- Mas a sua filosofia não o impedirá de sofrer física e moralmente, quando for acometido por alguma dor...

- Dor?

- Então, também nega a dor?

- Decerto. Sofrem apenas os que desejam sofrer.

Ora essa! Então se eu lhe pisar o melhor calo, o senhor não dá por isso?

- Pode ser que sinta a pressão do seu pé sobre o dedo em que se acha o calo, mas jurolhe que não experimentarei com isso impressão mais agradável ou desagradável do que se me dessem um beijo.

- Então por que exigiu o senhor que eu fosse buscar isso com que está se regalando? Se a fome não o incomodava, para que satisfazê-la?

- Porque ela assim o quer; isso não é comigo, é com o meu estomago, que funciona por conta própria, sem me consultar absolutamente. Apenas o que eu faço é auxiliá-lo, emprestando-lhe outros membros e outros órgão. Por exemplo.

E tomou um pastel de sobre a mesa:

- O estomago deseja este pastel, para quê - não sei, nem quero saber, mas precisa dele e reclama-o. Eu, que faço? Agarro no pastel. levo-o à boca...

E, mastigando:

- Mastigo-o... Engulo-o e agora cada um que se arranje!

- E se o senhor não tivesse o pastel à mão?

- Teria outra coisa. Se não fosse hoje, amanhã ou depois ou daqui a oito dias. Com a diferença, porém, que daqui a oito dias, se não me aparecesse um pastel, ou cousa semelhante, lançar-me-ia às orelhas do primeiro cidadão que me passasse ao alcance dos dentes.

- Bem - observei, já farto de ouvir as extravagantes teorias do meu ressuscitado. - Deixemos por ora a sua filosofia e vamos tratar do que nos interessa.

- A mim nada interessa - atalhou ele.

- Perdão, mas não se trata só do senhor.

- Sim, mas eu só trato de mim...

- Pois faça o favor de abrir uma exceção nos seus costumes e responda às perguntas que lhe vou fazer.

- Ah! Isso não me incomoda e até me diverte. Quer conversar, não é verdade? Pois converse pr’aí, gosto muito de falar, porque falar é uma coisa excelente, não demanda nenhum esforço, não demanda dinheiro, nem paciência, nem energia, nem instrução. A gente abre a boca e deixa que a palavra saia, assim como agora. Vê? Eu não faço o menor esforço para dizer tudo isto... Tenho o estômago cheio, a cabeça um pouco atordoada pelo que já falta de vinho nessas garrafas; ninguém conta com a minha vida ou com a minha morte; posso, por conseguinte, levar aqui a falar deste modo, enquanto houver o que arder nos castiçais e enquanto o sono usar dos seus direitos de não* fazerme adormecer.

* No original, e,

- Bem - disse eu -, mas o que eu desejo não é ouvi-lo falar e sim ouvir certos esclarecimentos que me são necessários. Diga-me, por exemplo, como chegou o senhor a travar as suas relações com a viúva do farmacêutico.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1112131415...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →