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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— E justamente por não saber mais nada, que lhe vou pedir o obséquio de dizer o que há. Constou-me agora à noite que ele fora preso, mas tudo isso é tão vago e tão incerto que...

— Conhece este anel?

E o chefe passou a Júlia um anel de homem com pedra de cornalina.

— Sim, disse ela a examiná-lo; parece-me que o reconheço. E o mesmo ou é muito parecido com um que dei a Gregório no dia de seus anos.

— Este anel foi encontrado no lugar do crime e corrobora as suspeitas sobre Gregório.

— Valha-me Deus! exclamou Júlia; mas pode não ser o mesmo!...

— Temos ainda um outro corpo de delito. Examine bem este farrapo de casimira e queira ver se lembra de ter visto algum dia Gregório vestido com um paletó da cor desta fazenda.

A viúva tornou nas mãos o farrapo que lhe passou o chefe, e ficou a examiná-lo atentamente.

— Então?... disse a autoridade, vendo que ela não respondia. Lembra-se?

— Não sei, Sr. doutor; é isto uma circunstância tão pequena, que foge inteiramente da memória...

— E destas pequeninas circunstâncias que se tiram as conclusões lúcidas sobre qualquer crime, minha senhora; não podemos desprezar nada. Tenha a bondade de declarar se se recorda de ter visto Gregório algum dia vestido desta fazenda.

— Ele usava freqüentemente roupas escuras, mas algumas vezes, muito poucas, a passeio no campo ou de volta de um jantar de amigos, creio que o vi vestido de cor alvadia...

— Mas desta cor, precisamente desta, não o viu nunca, minha senhora?

— Não me recordo absolutamente, Sr. chefe.

— Ele era pródigo, extravagante?

— Para ser pródigo é preciso ter fortuna, e Gregório vivia do que ganhava com o trabalho...

— Não sabe se ele gostava de prazeres ruidosos?...

— Não; ao que suponho, não.

— Nunca o viu ébrio?...

— Nunca!

— Recebeu dele muitos obséquios?

— De que espécie?...

— Obséquios de valor, em presentes, em dádivas de preço...

— Os objetos que conservo dele, só têm valor para mim, porque vieram de suas mãos...

— Ele então não despendia muito com a senhora?...

— Não havia necessidade disso...

— Em que qualidade freqüentava a sua casa?

— Na qualidade de meu amigo, a quem me aprouve franquear toda a minha existência e todo o meu coração.

— Desejava vê-lo ainda?...

— Com muito gosto!

— Sabe onde ele esta,?

— Disseram-me hoje que estava preso.

— Sabe que ele tinha um casamento marca do para hoje à tarde?

Sei, respondeu a viúva, deixando transparecer o desgosto que lhe causava tal pergunta.

— E sabe o resultado desse casamento?

— A noiva esperou inutilmente; Gregório não apareceu.

— E por que ele não apareceu?

— Naturalmente porque o haviam prendido...

— Entretanto, ele não foi preso. Escondeu-se ou fugiu, justamente pouco depois do crime.

— Não se sabe então onde ele está?!

— Não, minha senhora, respondeu friamente o Dr. Ludgero, levantando-se, e acrescentou: — Bem, por ora nada mais temos a perguntar. Pode retirar-se e esperar que a citem para um novo interrogatório.

Júlia saiu e a segunda testemunha foi introduzida no gabinete do chefe. Era o velho Jacó, criado de Gregório.

— Espere um instante, disse a autoridade, indo até à porta, por onde vira passar um polícia secreta.

— Então?... perguntou a este em voz baixa; descobriu alguém que possa esclarecer o negócio?...

— Sim, Sr. chefe.

— Quem é?

— A menina do Bandolim, uma mocinha italiana, que em companhia do irmão, toca bandolim no café de lava. — Ah! fez o Dr. Ludgero.

Antes de prosseguirmos, é necessário, porém, dar dois dedos de explicação a respeito do que há de comum entre a menina do Bandolim e o suspeito Gregório.

Uma noite, sete horas em ponto, o nosso herói, vestido com esmero e correção de quem deseja agradar a olhos exigentes, meteu-se no bonde em caminho da cidade, e só apeou para tomar o da Tijuca. Escusado dizer que não era o rico panorama do arrabalde o que atraía o moço àquelas horas E não menos escusado é declarar que espécie de imã o puxava para ali com tanta força.

Em certa altura Gregório saltou em terra defronte de um chalé, pintadinho de novo e meio apadrinhado do sol pela folhagem de algumas árvores; apadrinhado durante o dia, bem entendido, porque durante a noite o padrinho era um formidável cão negro, que bradava armas a todo o vulto, suspeito ou não, que passasse pela esquina.

E tanto assim. que, mal Gregório se aproximou do portão, já o tal padrinho ladrava a bom ladrar.

— Está quieto, Netuno! exclamou o moço, fazendo vibrar a campainha.

Veio logo a criada e Gregório perguntou:

— Ela está em casa?

(continua...)

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