Por Aluísio Azevedo (1884)
Que luta, santo Deus! Que longas horas de tormento! Que heroísmo para não desanimar no meio da empresa!
Foi uma campanha formidável! Seus vastos e pesados pés não se queriam sujeitar àquela violência implacável dos passos e dos saltinhos; seus nodosos tornozelos, grossos como troncos de árvore, protestavam energicamente contra os inquisitoriais ritornelos das valsas puladas. Recalcitravam-se os joanetes, revoltavam-se os calos; tremia o soalho; vinham abaixo as bugigangas que estavam sobre os consolos da sala; o Borges suava, afogueava-se e não conseguia passar das primeiras figuras.
Mas Filomena estava ali para lhe dar coragem, como nos cavalheirescos torneios da idade média. A imagem dela animava-o, como a presença de um grande prêmio ambicionado. Só valsando conseguiria transpor o limiar daquele paraíso. Pois bem! Valsaria, custasse o que custasse!
— Oh! ela adorava a dança! Não podia sofrer um homem que não soubesse valsar. A dança foi sempre uma de suas paixões mais fortes; em pequena chegou a imitar vários passos difíceis que vira no teatro. Sabia o solo inglês, a gavota1 o minuete, a cachucha e muitos outros.
O Borges, no fim de cinco meses de estudo acérrimo, conseguia dançar, não só a valsa, como a polca, a mazurca, o schottisch, os lanceiros e as quadrilhas francesas. Filomena então exigiu que ele, enquanto descansava da última campanha, se entregasse à leitura escolhida de certos poetas e romancistas. Apresentou-lhes os livros e marcou as lições que o marido havia de decorar.
— Quero que tenhas de memória um bom repertório de versos, para m'os recitares nas ocasiões de aborrecimento. A prosa todos os dias fatiga muito!
O Borges obedeceu, como de costume, e daí a pouco tempo atroava nas salas a sua voz de baixo profundo, recitando os trechos mais declamatórios de Manha, de Gonzaga.
Um amigo, que ia visitá-lo, não se animou a tocar a campainha, intimidado por aquela gritaria, e desgalgou a escada, benzendo-se. A criada bispou-o e foi logo contar o fato à senhora.
— Pois de hoje em diante quero a porta da rua fechada, enquanto durar a declamação, ordenou Filomena; e, a partir desse momento, fechavam-se sempre ao meio-dia e caíam no recitativo.
Filomena, que tinha muitos versos de memória, lembrou-se de dialogar com o marido as poesias mais próprias para isso. Depois veio-lhe a idéia de recorrer às tragédias de Gonçalves Dias e fazer a coisa mais ao vivo; tomando cada um o traje e o característico que exigia o papel.
— Queres saber de uma coisa?!... disse ela afinal. O verdadeiro é arranjarmos um teatro.
O Borges levou as mãos à cabeça.
— Um teatro! Pois eu tenho de representar?!...
— E que há nisso de extraordinário?... Na Europa o teatro em família é um divertimento da melhor sociedade. Convidam-se algumas pessoas para nos ajudar — o Barradinhas, por exemplo, serve, que tem muito jeito. Vê-se também o Chico Serra, Gonçalves, o Morais, chama-se a viúva Perdigão...
— A viúva Perdigão?!... perguntou o marido, sentindo um arrepio.
— Sim! há de dar uma excelente dama central. E muito desembaraçada e tem graça. Enfim, não faltará quem nos ajude. O teatro pode ser na chácara; estende-se mais aquele pavilhão que lá está e rouba-se um pouco do jardim para a platéia.
O Borges ainda tentou algumas objeções; mas no dia seguinte vieram os trabalhadores, e as obras principiaram.
CAPÍTULO IV
VEREMOS QUEM VENCE
Foi esse um tempo magnífico para Filomena; vivia muito entretida com a construção de seu teatrinho. Era ela própria quem dirigia as obras; quem arranjava os desenhos decorativos da sala e do frontispício; quem administrava e conduzia os trabalhos do cenógrafo.
Quinze dias depois, estava em ensaios a primeira peça. A casa tomou um caráter boêmio de atelier; encheu-se de amadores dramáticos, de músicos. Havia certo movimento, certa agitação alegre, feita de conversas em voz alta, de risadas, de afinações de instrumentos. Viam-se carpinteiros, de cachimbo ao canto da boca, trabalhando e cantarolando em mangas de camisa; panos enormes, estendidos no chão, cobertos de tinta; costureiras, aderecistas, operários de todos os gêneros, a entrar e a sair, numa atividade ruidosa.
O Borges andava muito atrapalhado com tudo aquilo, e principalmente com o seu papel.
— Ora que diabo me havia agora de cair na cabeça!... dizia ele consigo. Eu nunca tive queda para ator. Esta só a mim sucede!
Mas a peça ficou ensaiada; expediram-se os convites, e no dia do espetáculo o teatrinho de Filomena encheu-se de amigos.
O Barradinhas era o melhor dos curiosos, e fazia de galã. Devia ir muito bem; tinha enorme talento para a cena; "uma figura de arrebatar"! Bonito, cabelos crespos e uma voz "que nem um tenor italiano"! Filomena representava a sua amante; ele caía-lhe aos pés, várias vezes, e dizia-lhe longas frases retoricamente apaixonadas.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.