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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

E quanto ao gosto, que prazer, não sentiria nisso a querida velha!...Oh! ele agora pensava em Ângela com muito mais ternura; nela resumia toda a família e tudo que houvesse de bom no seu passado. Só com a ausência pôde avaliar o muito que a respeitava e o muito que a estremecia. Ele, que não chorara ao despedir-se da mãe; ele, que, algumas vezes chegou até a se aborrecer de seus desvelos e da insistência de seus carinhos — agora não a podia ter na memória, sem ficar com coração opresso e os olhos relentados de pranto. Pungia-lhe a consciência uma espécie de remorso por não se ter mostrado mais afetuoso e mais amigo, enquanto a possuiu perto de si, por não ter melhor aproveitado essa ocasião para deixar bem patente que sabia ser “bom filho”.

E punha-se então a mentalizar planos de melhor conduta para quando voltasse ao lado de Ângela; considerava os mimos que teria com ela, os afagos que lhe havia de dispensar, os beijos que lhe havia de pedir.

— Ah! Se naquele momento ele a tivesse ali , o que não lhe diria!

E, por uma necessidade urgente de expansão, levantou-se da cadeira em que estava e correu à secretária, disposto a escrever uma carta, longa, a sua mãe. Precisava queixar-se do isolamento em que vivia, contar-lhe as suas tristezas; as suas contrariedades, justamente com o fazia dantes, em pequeno, ao voltar da aula do Pires. Sua alma tornava atrás , fazia-se infantil, muito criança, muito ingênua e carecida de amparo.

A mãe, enquanto esteve ao lado dele, foi sempre um coração aberto para lhe receber as lágrimas e os queixumes.

Também, só elas, só as mães, podem servir a tão delicado mister. O que se lança ao peito da amante desde logo arde e se evapora, porque aí o fogo é por demais intenso; o que se atira ao de um estranho gela-se de pronto na indiferença e na aridez; mas, tudo aquilo que um filho semeia no coração materno — brota, floreja e produz consolações. Neste não há chama que devore, nem, frio que enregele, mas um doce amornecer, suave e fecundo, como a trepidez de um seio intumescido e ressumbrante de leite.

E escreveu : “Mamãe ”

Hesitou logo. Aquele modo de tratar não lhe pareceu conveniente; queria uma carta de efeito, com estilo, uma carta a primor, que desse idéia de seu talento e ao mesmo tempo de sua afeição :

“Minha querida mãe.

Eis-me na grande Corte, que aliás me parece estúpida e acanhada por acharme longe de vossemecê...”

Vinham, em seguida, muitos protestos de amor filial e depois uma extensa descrição da cidade, a qual ocupava duas laudas da carta. Na terceira escreveu o seguinte:

“ Desde que vim daí, o Sabino só me tem dado maçadas; a bordo vivia a brigar com os outros criados; aqui nunca me aparece; sai pela manhã e já faz muito quando volta à noite. Pilhou-se sem castigo e abusa desse modo. Ainda não lhe consegui arranjar a matrícula no Tesouro e nem sei como isso se obtém; o Campos é que há de ver.

“ Como sabe, há mês e meio que me acho hospedado em cada deste. Aqui nada me falta, é certo, mas igualmente nada me satisfaz, porque estou muito isolado e aborrecido. A família é atenciosa o quanto pode ser comigo; eu, porém , apesar disso , não deixo de ser para eles um estranho e , como tal, apenas recebo cortesias e hospitalidade. D. Maria Hortênsia é amável, mas por uma simples questão de delicadeza; da irmã, D. Carlotinha, nem é bom falar!Esta, se já me dispensou duas palavras, foi o máximo, parece até que tem medo de olhar para mim; talvez com receio de desagradar ao guarda-livros, que, pelos modos, é lá o seu namorado. Do que não resta dúvida é que o tal guarda-livros é de todos o mais antipático e difícil de suportar. Um hipócrita! Está sempre com a carinha n’ água e já, por várias vezes, se tem querido meter a espirituoso cá para o meu lado. — São ditinhos, indiretas de instante a instante. Eu, qualquer dia destes, o chamo à ordem! Ainda não há uma semana, veja isto! fui a um espetáculo dramático no São Pedro de Alcântara e à volta, quando cheguei à casa, quis acender a vela para estudar. Quem disse?...o fogo não se comunicava ao pavio. Verifico : — no lugar da torcida haviam posto um prego; fiquei com os dedos queimados. E esta graça não foi de outro senão o tal cara de mono!

“Já me lembrou mudar-me; o Campos, porém, acha que o não devo fazer enquanto não descobrir por aí um bom cômodo, em alguma casa de pensão.”

E no mesmo teor ia por diante, até encher duas folhas de papel marca pequena. Amâncio narrava à mãe todos os seus passos e todos os seus desgostos, sem lhe confessar, todavia, que o principal motivo daquele descontentamento estavas em não poder recolher de noite às horas que entendesse; em ter por único companheiro de passeios o Luís Campos, cuja sobriedade nos gestos e costumes, discrição nos termos, cujo aspecto repreensivo e pedagógico, de mentor, faziam-no já perfeitamente insuportável aos olhos do estudante.

— Ora adeus! considerava este, deveras enfiado. — Não foi para a me fazer santo, que vim ao Rio de Janeiro!

(continua...)

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