Por José de Alencar (1857)
Júlia — Não são moças. São umas bonecas de papelão, uma armação de arames.
Ernesto — Mas é a moda, Júlia. Que remédio têm elas senão usar? Hão de fazer-se esquisitas? Demais, prima, quer que lhe diga uma coisa? Essas saias balões, cheias de vento, têm uma grande virtude.
Júlia — Qual é?
Ernesto — Fazer com que um homem acredite mais na realidade e não se deixe levar tanto pelas aparências.
Júlia — Não o entendo; é charada.
Ernesto — Ora! Está tão claro! Quando se dá a um pobre um vintém de esmola, ele recebe e agradece; mas, se lhe derem uma moeda que pareça ouro, desconfiará. Pois o mesmo me sucede com a moda. Quando vejo uma crinolina, digo com os meus botões — "é mulher ou pode ser". Quando vejo um balão, não tem dúvida. —
"é saia, e saia unicamente!"
Júlia (rindo) — Pelo que vejo, não há nada no Rio de Janeiro, ainda mesmo o que é ruim, que não tenha um encanto, uma utilidade para o senhor, meu primo? Na sua opinião é uma terra excelente.
Ernesto — Diga um paraíso, um céu na terra! (Júlia dá uma gargalhada) De que rise, Júlia?
Júlia (rindo-se) — Muito bem! Eis onde eu queria chegar. Há três meses, no primeiro dia em que veio morar conosco, tivemos uma conversa perfeitamente igual a esta; com a diferença que então os papéis estavam trocados; o senhor achava que o Rio de Janeiro era um inferno.
Ernesto — Não me fale desse tempo! Não me lembro dele! Estava cego!
Júlia — Bem; o que eu desejava era vingar a minha terra. Estou satisfeita: esqueço tudo o que houve entre nós.
Ernesto — Como! Que diz, Júlia? Não, é impossível! Esses três meses que se passaram, esses três meses de felicidade, foi apenas uma vingança de sua parte?
Júlia — Apenas.
Ernesto (despeitado) — Oh! Obrigado, prima.
Júlia — Não tem de que, meu primo; jogamos as mesmas armas; o senhor ganhou a primeira partida, eu tomei a minha desforra.
Ernesto — Eu ganhei a primeira partida! De que maneira? Acreditando na senhora.
Júlia — Fazendo que eu chegasse a aborrecer o meu belo Rio de Janeiro, tão cheio de encantos; que achasse feio tudo quanto me agradava; que desprezasse os meus teatros, as minhas modas, os meus enfeites, tudo para.
Ernesto — Para... Diga, diga, Júlia!
Júlia — Tudo para satisfazer um capricho do senhor; tudo por sua causa! (Foge)
Ernesto — Ah! perdão... A vingança foi doce ainda; mas agora vou sofrer uma mais cruel. Oito meses de saudade e ausência!
Júlia — Para quem tem uma memória tão fraca. .. Adeus! (Vai sair) Adeus!
Ernesto — Ainda uma acusação.
Júlia — E se fosse um receio! (Sai de repente)
Ernesto (seguindo-a) — Júlia! Escute, prima! (Sai).
CENA X
Augusto, D. Luísa
Augusto (na porta, a Teixeira) — Sim, senhor; pode contar que hoje mesmo fica o negócio concluído! Vou hoje à praça. Quinze e quinhentos, o último. (Dirige-se à porta e encontra-se com D. Luísa que entra).
D. Luísa — O senhor faz obséquio de ver este papel?
Augusto — Ações?... De que companhia? Estrada de ferro? Quantas? A como?
Hoje baixaram. (Abre o papel).
D. Luísa — Qualquer coisa me serve! Pouco mesmo! Oito filhinhos...
Augusto — Uma subscrição!... (Entregando) Não tem cotação na praça.
D. Luísa — Uma pobre viúva...
Augusto — É firma que não se desconta. Com licença!
D. Luísa — Para fazer o enterro de meu marido! A empresa funerária...
Augusto — Não tenho ações desta empresa; creio mesmo que ainda não foi aprovada. Naturalmente alguma especulação... Passe bem! (Sai).
CENA XI
D. Luísa, Teixeira
Teixeira (atravessando a sala) — Hoje não nos querem dar almoço.
D. Luísa — Sr. Teixeira!
Teixeira (voltando-se) — Viva, senhora.
D. Luísa – Vinha ver se me podia dar alguma coisa!
Teixeira — Já? Pois acabou-se o dinheiro que lhe dei?
D. Luísa — O pecurrucho faz muita despesa! É verdade que o Sr. não tem obrigação de carregar com elas! Mas seu amigo, o pai da criança não se importa.
Teixeira — Quem lhe diz que não se importa? Tem família, deve respeitar as leis da sociedade; demais, sabe que eu tomei isto a mim.
D. Luísa — Sim, Senhor.
Teixeira — Espere; vou dar-lhe dinheiro.
CENA XII
Ernesto, D. Luísa
Ernesto (entra sem ver D. Luísa) — Oito meses sem vê-la!
D. Luísa (adianta-se) — V.Sa. ainda não leu este papel.
(continua...)
ALENCAR, José de. Verso e Reverso. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16680 . Acesso em: 28 jan. 2026.