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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Vestido com um chambre de fustão que briga com as mimosas chinelas de chamalote bordadas a matiz, vê-se que ele está ainda no desalinho matutino de quem acaba de erguerse da cama. Ainda o pente não alisou os cabelos, que deixados a si tomam entretanto sua elegante ondulação. 

Depois de lavar o rosto e enfiar o chambre viera à sala, buscar na porta que dava para a escada, os jornais do dia; pois era ele dos que se consideram em jejum e ficam de cabeça oca, se ao acordarem não espreguiçam o espírito por essas toalhas de papel com que a civilização enxuga a cara ao público todas as manhãs. 

Deitara-se então de bruços no sofá, para ler mais a cômodo, e maquinalmente corria os olhos pelas rubricas dos artigos à cata de algum escândalo que lhe aguçasse a curiosidade embotada pela fadiga de uma prolongada vigília. 

Apareceu à porta da escada uma pessoa, que deitou a cabeça a espiar, dizendo: 

- Mano, já acordou? 

- Entra, Mariquinhas, respondeu o moço, do sofá. 

A moça aproximou-se do sofá, reclinou-se para o irmão, que sem mudar de posição cingiu-lhe o colo com o braço esquerdo atraindo-a a jeito de pousar-lhe um beijo na face.

- Quer o seu café? Perguntou Mariquinhas. 

- Traze, menina. 

Momentos depois voltou a moça com a xícara de café. Enquanto o irmão, soerguendo o busto, sorvia aos goles a aromática bebida dos poetas sibaritas, ela ia à alcova buscar um charuto de marca pérola, e acendia um fósforo. 

Todos estes pormenores praticava-os como quem tinha perfeito conhecimento dos hábitos do irmão, e sabia por experiência que regalia não era o charuto para fumar-se logo pela manhã, e depois do café. 

Aceitava indolente todos estes serviços como um sultão os receberia de sua alméia favorita; de tão acostumado que estava, já não os agradecia, convencido que lhos prestasse. 

Depois que o irmão acendeu o charuto, Mariquinhas sentou-se perto dele à beira do sofá. 

- Divertiu-se muito, mano? 

- Nem por isso. 

- Acabou bastante tarde. Quando você entrou deveriam ser três horas. 

- E não valeu a pena; perdi a noite quando podia recobrar-me das péssimas que passei a bordo. 

- É verdade; fez mal em ir a um baile no mesmo dia da chegada. 

O moço acompanhou com os olhos a espiral de um alvo froco da fumaça do seu havana até que de todo se desfez nos ares. 

- Sabes quem lá estava? E era a rainha do baile?... A Aurélia! 

- Aurélia... repetiu a moça buscando na memória recordação desse nome. 

Não te lembras?... Olha! 

E o irmão cruzando o pé esquerdo sobre o joelho direito, mostrou, com um aceno da mão alva e delicada, a chinela de chamalote. 

- Ah! Já sei, exclamou a moça vivamente. Aquela que morava na Lapa? 

- Justamente. 

- Você gostava bem dela, mano. 

- Foi a maior paixão da minha vida, Mariquinhas! 

- Mas você esqueceu-a pela Amaralzinha, observou a irmã com um sorriso. 

Seixas moveu a cabeça com um meneio lento e melancólico; depois de uma pausa, em que a irmã contemplou, compassiva e arrependida de ter evocado aquela saudade, ele continuou em tom vivo e animado: 

- Ontem no cassino, estava deslumbrante Mariquinhas! Nem tu podes imaginar!... Vocês mulheres tem isso de comum com as flores, que umas são filhas da sombra e abrem com a noite, e outras são filhas da luz e carecem do sol. Aurélia é como estas, nasceu para a riqueza. Eu bem o pressenti! Quando admirava sua formosura naquela salinha térrea da Lapa, parecia-me que ela vivia ali exilada. Faltava o diadema, o trono, as galas, a multidão submissa; mas a rainha ali estava em todo o seu esplendor. Deus a destinara à opulência. 

- Está rica então? 

- Apareceu-lhe de repente uma herança... Creio que dum avô. Não me souberam bem explicar; o certo é que possui hoje, segundo me disseram, cerca de um milhão de cruzeiros. 

- Ela também tinha muita paixão por você, mano! Observou a moça com uma intenção que não escapou a Seixas. 

Tomou ele a mão da irmã: 

(continua...)

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