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#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

Isabel — Eu?... Oh! não o digas a ninguém! Senti os desenganos das minhas mais doces esperanças, senti morto o meu primeiro amor, e tive medo que uma afeição estranha se insinuasse em meu coração. Via fugir a pouco e pouco esse amor de que tinha vivido tanto tempo e ao qual dedicara toda a minha existência. Achava-me tão só no mundo, longe da família que eu tinha deixado, e mais longe da nova família que eu ainda não sabia compreender. Era um deserto, em que minha alma vagava sem abrigo. Oh! nunca sofras, tu, Clarinha, o que eu sofri!... Mas Deus salvou-me. Amei meu marido.

Clarinha — Como?

Isabel — Amando minha filha. Refugiei-me nessa afeição. Aí encontrei de novo o homem que eu tinha amado: associei-me a essa vida que outrora me parecia tão seca e tão egoísta: acompanhei-o de longe, e vi quanta generosidade e quanta delicadeza encobre a sua reserva. A minha solidão foi-se povoando: o governo da casa, os cuidados domésticos, o desejo de tornar doce e cômoda a existência daquele que se dedicava à felicidade da família, deram-me as emoções mais agradáveis e mais puras que tenho sentido. Queres que te confie uma cousa? O meu maior prazer é ler os discursos de Augusto. Não te rias!

Clarinha (rindo) — Hás de entendê-los perfeitamente!

Isabel — Não os entendo, não! Mas no modo de dizer, na maneira digna por que ele ataca um adversário, no generoso entusiasmo com que defende uma idéia, na firmeza e sinceridade de sua palavra, aprendo a conhecer a nobreza de seu caráter; e descubro muitas vezes uma qualidade que ainda não se me tinha revelado. Olha, Clarinha: é um erro nosso, muito comum. Admiramos os estranhos pela consideração de que eles gozam na sociedade; e entretanto uma mulher, em vez de acompanhar o marido em seus trabalhos, em suas empresas, em suas glórias, quer achá-lo tal qual ela o sonhou, na obscuridade e no repouso da vida doméstica!

Clarinha — Assim tu tens hoje por teu marido uma verdadeira paixão.

Isabel — Mais do que paixão; porque é também estima, respeito e admiração.

Clarinha — E teu marido te paga com o mesmo amor?

Isabel — Ele?... Não sei, Clarinha... Nunca lhe perguntei...

Clarinha — Ah! não sabes!... Sentes tudo isto, dizes que uma mulher bonita e inteligente basta querer para ser amada por seu marido, e não sabes se teu marido te ama?... Pois minha rica prima, a tua história é muito bonita, mas não me agrada!

Isabel — Asseguro-te que sou mais feliz do que mereço.

Clarinha — Ora, pois não está se vendo nos teus olhos! Se a felicidade doméstica — não e assim que se chama? — tem esse sorriso triste, e esse rosto pálido, podes ficar certa que não a deixo entrar na minha casa. Não! Prefiro mil vezes as espingardas, os cães de caça e os aborrecimentos de Henrique. Isabel — Escuta!

Clarinha — Vamos ver se Augusto já veio. (Pausa) Então não vens?

Isabel — Não!... Inda não chegou!

Clarinha — Não importa! Quero correr a casa! Há tanto tempo!... Eu também tenho aqui as minhas recordações! Vou te mostrar o lugar onde Henrique confessou a primeira vez que me amava... quando os médicos declararam que Augusto estava salvo! Vem!

Isabel — Não! Não posso agora... Não gosto de entrar lá.

Clarinha — Por que motivo?

Isabel — Ele pode suspeitar que desejo conhecer os seus segredos!...

Clarinha — Meu Deus! Quanto mistério para se amar seu marido. Deste modo Henrique pode ficar descansado.



CENA XI

As mesmas e Miranda

Miranda (entrando) — Adivinhei que já estava aqui.

Clarinha — Oh! Excelentíssimo!

Miranda — Sempre bonita e sempre alegre!

Clarinha — É o que me vale!... Se eu não trouxesse a alegria comigo, morria de tristeza naquele desterro de Petrópolis.

Miranda — Como está Henrique?

Clarinha — Bom; já anda passeando. Mas que é isto, meu tio? Cabelos brancos?...

Miranda — Estou velho, Clarinha.

Clarinha — Com trinta anos!... E de repente!... Quando aqui estava, não tinha nenhum!

Miranda — Tinha e muitos.

Clarinha — Não, Senhor. Nunca vi.

Miranda — Porque os pintava! Era uma fraqueza minha... Ainda fazia a corte a... Bel... a sua prima. Não queria parecer velho.

Clarinha — Mas, agora está homem sério: já não se ocupa com essas ninharias. Só trata de ser ministro!

Isabel (a meia voz a Clarinha) — E há de ser!

Miranda — Não tenho semelhantes aspirações! A política faz-me às vezes de um vício. Dá-me as emoções que os outros encontram no jogo, ou na embriaguez.

Atordoa-me: nada mais!...

Clarinha — Não lhe gabo o gosto.

Miranda — Este mundo, Clarinha, é um precipício que todos devemos atravessar pelo estreito passo da vida. O imprudente pára no meio e olha o fundo, vacila e cai.

É preciso fechar os olhos e correr, para não sentir a vertigem.

Clarinha — Mas essa teoria é só para os homens.

Miranda (sorrindo) — Não a aconselho a ninguém.

Clarinha — O que é verdade é que a política tem-no feito velho, magro, feio, e até distraído.

(continua...)

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