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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

AZEVEDO - Sim, a camélia é hoje, em Paris, mais do que uma simples flor; é uma condecoração que a moda, verdadeira soberana, dá à mulher elegante.

CARLOTINHA - Parece-me que uma senhora não precisa de outro distintivo além de suas maneiras e de sua graça natural. Que dizes, Henriqueta?

HENRIQUETA - Tens razão, Carlotinha; não é o enfeite que faz a mulher; é a mulher que faz o enfeite, que lhe dá a expressão e o reflexo de sua beleza.

AZEVEDO - Teorias!... Fumées d'esprit... (A CARLOTINHA) Mas, minha senhora, disse há pouco que se podia fazer deste jardim um paraíso!

CARLOTINHA - Como? Diga-me; quero executar perfeitamente o seu plano.

AZEVEDO - Com muito gosto. Vou traçar-lhe em miniatura o jardim de minha casa; de nossa casa, D. Henriqueta.

CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Deixo-te só! (Dá o braço a AZEVEDO.)

AZEVEDO - Aqui un jet d'eau. À noite é de um efeito maravilhoso! Além de que espalha uma frescura! (Afastam-se.)


CENA IX

Os mesmos, HENRIQUETA, EDUARDO, VASCONCELOS. D. MARIA EDUARDO - D. Henriqueta!


HENRIQUETA - Ah!... Sr. Eduardo!

VASCONCELOS - Como está? Eu não passo bem das minhas enxaquecas!

D. MARIA - É do tempo!

VASCONCELOS - Qual, D. Maria! Moléstia de velho! Onde está ele? (A EDUARDO) Quero apresentar-lhe meu futuro genro.

EDUARDO - Conheço-o; é um dos meus camaradas de colégio! 

VASCONCELOS - Ah! Estimo muito. (A D. MARIA) Eu cá não tenho camaradas de colégio; mas tenho os de fogo! Na guerra da Independência...

AZEVEDO (voltando) - Acabo de dar um passeio pelos Campos Elíseos!

CARLOTINHA - Na imaginação... É lisonjeiro para mim!

EDUARDO - Boa tarde, Azevedo!

HENRIQUETA (a CARLOTINHA) - Ah! Nunca esperei!

CARLOTINHA - O quê?

HENRIQUETA - Tu me iludiste!

AZEVEDO - Participo-te, meu caro, que tens uma irmã encantadora. Estou realmente fascinado. A sua conversa é uma gerbe de graça; uma fusée de ditos espirituosos!

EDUARDO - Admira! Pois nunca foi a Paris, nem está habituada a conversar com os moços elegantes!.

AZEVEDO - É realmente étonnant!

VASCONCELOS - Ora, meu genro, se o Sr. continua a falar desta maneira, obriga-me a trazer no bolso daqui em diante um dicionário de Fonseca.

AZEVEDO - Os estrangeiros têm razão! Estamos ainda muito atrasados no Brasil!

D. MARIA - Entremos, é quase noite!


ATO III

Em casa de EDUARDO. Sala interior.


CENA PRIMEIRA

EDUARDO, HENRIQUETA, CARLOTINHA, AZEVEDO, VASCONCELOS,

D. MARIA, PEDRO, JORGE

(Toma-se chá. Na mesa do centro, CARLOTINHA e AZEVEDO; à direita, VASCONCELOS e D. MARIA; à esquerda, HENRIQUETA; EDUARDO passeia, JORGE numa banquinha à esquerda. PEDRO serve.)

CARLOTINHA - Ora, Sr. Azevedo! Pois o senhor esteve em Paris e não aprendeu a fazer chá?...

AZEVEDO - Paris, minha senhora, não sabe tomar chá, é o privilégio de Londres.

D. MARIA (a PEDRO) - Serve ao Sr. Vasconcelos.

PEDRO (baixo, a JORGE) - Eh! Nhonhô! Hoje não fica pão no prato, velho jarreta limpa a bandeja.

VASCONCELOS - Excelentes fatias! É uma coisa que em sua casa sabem preparar!

CARLOTINHA - Mano Eduardo, venha tomar chá.

EDUARDO - Não; depois.

PEDRO (baixo, a CARLOTINHA) - Nhanhã está enfeitiçando o moço!

CARLOTINH& - Henriqueta, não dizes nada! Estás tão calada!

HENRIQUETA - Tu me deixaste sozinha.

CARLOTINHA - Tens razão!... Ora, mano, deixe-se de passear e venha conversar com a gente.

AZEVEDO - É verdade. Em que pensas, Eduardo? Na homeopatia ou nalguma beleza inconnue?

EDUARDO - Penso na teoria do casamento que me expuseste esta manhã; estou convertido às tuas idéias.

AZEVEDO - Ah!... D. Carlotinha, não quer que a sirva? 

CARLOTINHA (ergue-se; a EDUARDO) - Vai-te sentar junto de Henriqueta.

EDUARDO (baixo) - Não; se me sento junto dela esqueço tudo. Tu me lembraste há pouco que sou o chefe de uma família.

CARLOTINHA - Não lhe entendo.

EDUARDO - Daqui a pouco entenderás.

D. MARIA - Tens alguma coisa, meu filho?

EDUARDO - Não, minha mãe; espero alguém que tarda.

CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Não te zangues!... (Beija-a na face.)

HENRIQUETA - Não; já estou habituada.

PEDRO (servindo HENRIQUETA) - Sr. moço Eduardo gosta muito de sinhá Henriqueta.

HENRIQUETA - Agora é que me dizes isto!

PEDRO - Ele há de casar com sinhá!

AZEVEDO - D. Maria, sabe? Sua filha está zombando desapiedadamente de mim.

CARLOTINHA - Não creia, mamãe.

D. MARIA - Decerto; não é possível, Sr. Azevedo.

VASCONCELOS (a PEDRO) - Deixa ver isto!

PEDRO (baixo) - Sr. Vasconcelos come como impingem!

(continua...)

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