Por Camilo Castelo Branco (1882)
Como estava conversando com o filho de tamanho realista, fez-lhe confidências: – que D. Miguel estava perto dali; mas não recebia ninguém porque os malhados já o espreitavam em Portugal. Que a aclamação havia de começar em terras de Bouro, e estender-se até Lisboa; e que estivesse certo que el-rei nosso senhor lhe daria a patente do pai ou talvez mais. O pedreiro esfregava os joelhos com as mãos e bamboava-se hilariante na cadeira como um idiota. Tirou da algibeira da véstia uma saquita de missanga, onde tinha três peças e sete pintos. Pôs o dinheiro com estrondo diante do Bezerra – que o mandasse a el-rei para as suas despesas; que eu, acrescentou, há quatro anos que lhe dou uma moeda de ouro por ano; ele há-de saber pelo rol quem é o Zeferino das Lamelas, porque o padre Luís de Sousa Couto, do Porto, disse-me que el-rei conhece de nome todos os que lhe mandam dinheiro. O fidalgo recusou: – que não estava autorizado a receber donativos, nem os julgava por enquanto necessários, porque em poder do Dr. Cândido, de Anelhe, estavam cinquenta contos, dados pela Senhora Infanta D. Isabel Maria, para pôr a procissão na rua.
A carta de que Zeferino foi o ditoso portador era mais explícita. Contava que D. Miguel estava escondido na residência do abade de São Gens de Calvos, no concelho da Póvoa de Lanhoso, o reverendo Marcos António de Faria Rebelo . Que pouquíssimas pessoas o tinham visto, porque Sua Majestade só se mostraria aos seus amigos fiéis quando entrassem pela Galiza os generais estrangeiros que se esperavam, uns do antigo exército carlista, outros de Inglaterra.
Esta notícia dos generais estranhos beliscou a vaidade nacional do major Zeferino Bezerra. Parecia-lhe impossível que o príncipe proscrito não confiasse na perícia e lealdade do Santa Marta, do Vitorino, do Póvoas e Bernardino. Era uma ingratidão, dizia ele ao mano frade, que acrescentou: – e uma bestialidade. El-rei deve saber o que lhe valeram o Bourmont e o Pussieux e o MacDonnell, no fim da campanha. Sabes tu? – rematou o morgado – aqui anda marosca. O que tratam é de se abotoarem com os cinquenta contos da Infanta D. Isabel Maria, e o primo Cristóvão é um asno chapado.
– Escreve-se ao Póvoas e ao Bernardino – aconselhou o egresso – que digam alguma coisa.
Os militares realistas responderam que sem dúvida estava a levedar alguma tentativa de restauração; que o Ribeiro Saraiva trabalhava deveras; que o Sr. D. Miguel era esperado em Londres; mas que não estava no reino, nem cá viria senão para se sentar de vez no seu trono usurpado.
– Deixa-te de asneiras, Zeferino – dizia o fidalgo ao afilhado com as cartas na mão –, el-rei há-de vir; mas não veio. Meu primo foi codilhado pelo abade de Calvos, e eu vou-lhe escrever que não seja palerma, nem caia com uma de X para o levantamento que é uma comedela.
O pedreiro, não obstante, apostava dobrado contra singelo que D. Miguel estava em Calvos, e puxava pela saquita de missanga com gestos de troquilha de burros em feira:
– Aposto! Aqui está dinheiro! O fidalgo de Quadros, o Sr. Tenente-Coronel Cerveira Lobo também diz que el-rei já por cá anda.
– O Cerveira Lobo! olha que borrachão! – disse o frade.
– Quem cá está é o rei dos bêbedos no corpo dele – acrescentou o morgado.
– Mas diz que o Sr. D. Miguel I gostava muito dele – objectou o pedreiro. – Ouvilho eu.
– Não duvido... – explicou o frade – que o Sr. D. Miguel gostava de grandes patifes...
O primo Cristóvão redarguiu, magoado na sua esperteza, que era tão certo estar elrei em Calvos como era certo ter-me beijado a régia mão em casa do abade, na noite sempre memorável de 16 de Abril de 1845. Que só o tinha visto de relance em Braga em 32, mas que o conhecera pelo retrato; que até manquejava um pouco, tal e qual, como se sabe, depois que Sua Majestade quebrou a perna em 28. Que el-rei nomeara o abade de Calvos seu capelãomor, que dera a mitra de Coimbra ao abade de Priscos, e fizera chantre o padre Manuel das Agras, e a ele lhe fizera a mercê de duas comendas e o título de barão de Bouro, afora outras graças a diversos clérigos e leigos.
– Que te parece isto? – perguntou o morgado ao frade.
– Parece-me a notória estupidez do primo Bezerra e mais dos padres; mas, se o homem que lá está é o D. Miguel, então o estúpido é ele, e que me perdoe Sua Majestade fidelíssima...
Escreveu-se novamente ao Póvoas, ao Tavares de Fagilde e ao Pontes, um colaborador da Nação. Responderam -lhe que não havia tal D. Miguel em Calvos; mas que deixasse correr o marfim, porque era necessário uma agitação preparatória, um simulacro, uma apalpadela...
– Quer dizer – reflexionou o frade – que o tal impostor é um Baptista, o precursor do verdadeiro Messias. Pois deixemos correr o marfim, e mais o simulacro... que palpem – e, pondo as duas mãos engalfinhadas sobre o umbigo proeminente, fazia girar um dedo polegar à volta do outro. Que o que fosse soaria, e não caísse o mano Zeferino na estultícia de se comprometer sem que os generais portugueses saíssem à rua.
Na correnteza destas coisas, o Zeferino das Lamelas não trabalhava de pedreiro; abandonou as obras de alvenaria aos oficiais, e andava numa dobadoira de casa do padrinho para casa do tenente-coronel realista, o Vasco Cerveira Leite, morgado de Quadros, um homem nascido ilustremente, que, desde Évora Monte, não cortara as barbas nem saíra das ruínas da casa-solar em Vermoim.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.