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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Descoberta da Índia

Por Coelho Neto (1898)

Mas, com o correr dos dias abrazados, começou a bordo o soffrimento. Aos homens inchavam as gengivas e faziam-se roxas rompendo um sangue fetido d'entre os dentes abalados; iam-se-lhes as boccas inflammando e, queimados de febre, apodrecidos em vida, mal podiam gemer porque os mesmos gemidos lhes doiam e, se lhes passava alimento ou agua pela bocca torciam-se de dores repellindo-os; outros definhavam lividos, tiritando num grande frio mortal e acabavam, sem que os cirurgiões pudessem allivial-os, com os clerigos junto á maca fallando-lhes de misericordia, a cruz erguida mostrando o céu que se curvava, azul e calmo, sobre aquellas terras de peste. Quantos alli ficaram ! O mesmo Gama se ia perdendo n'um desastre n’agua e a nau de Paulo da Gama esteve a entregar-se na areia perfida d'um banco de onde foi arrastada, com o favor da maré, pondo-se a nado.

D'alli partiram : uns tristes por haver deixado companheiros, outros contentes porque se arredavam de tal sitio. Navegando passaram á vista de tres ilhotas ás quaes não quiz o navegador chegar adiante outras ilhas lhes surgiram mas como a noite caía tenebrosa, detiveram-se os navios até a manhã seguinte ordenando o Gama a Nicoláo Coelho que fosse na sua nau, a mais esguia, sondar aquellas aguas té que chegasse á terra.

Foi-se o valente mas não com tanta ventura que logo achasse caminho livre, antepoz-se-lhe á prôa um baixo extenso que o forçou a virar de bordo, tornando ao fundeadouro mas de terra largavam varios pangaios, com as suas velas de palma expostas a um vento galerno. Isso vendo exultou o Gama que, ao brado de Nicoláo Coelho : «Que vos parece, senhor? Já esta é outra gente.» Demonstrou alegria, ordenando que os navios buscassem fundo mais próximo daqueila ílha.

Os que vinham nos pangaios nao só faziam gestos de amizade como tangiam os seus instrumentos. Abaçanados de côr, fortes de corpo e graciosos trazem abas hombros e fotas nas cabeças, por armas usavam adágas e terçados e, nas beiras mostravam mais cultura do que seus irmãos do littoral.

Recebendo-os a bordo soube o Gama por elles que se achavam em Moçambique terras do dominio do rei de Quilôa governadas por um xeque, de nome Cacoeja. E mais disseram : que alli chegavam mercadores trazendo os preciosos productos da India e ouro de Sofala e levando o que dava a terra fertil. Tambem informaram sobre o reino do Preste João, dizendo que já não distava d'alli grandes jornadas e que, submettidas ao seu poder, muitas cidades mercadoras havia junto ao mar, elle, porém vivia concentrado no coração do reino sendo necessario, para lá chegarem, que montassem camellos pois só esses animaes de força e abstinentes venciam os alcantís e os andurriaes, ao sol vivissimo, sem refresco de sombras. Foi tamanha a alegria a bordo com essas novas que muitos choraram de prazer dando sentidas graças a Deus por os haver posto no caminho que buscavam. E o Gama, ouvindo taes informações, re- solveu levar as naus ao porto de Moçambique para ter confirmação de quanto ou- vira e buscar um piloto que os guiasse á India. E foi Nicoláo Coelho sondar o porto e posto que se lhe houvesse partido o leme achou fundeadouro. Quando as naus entraram viram sobre ancora quatro fustas de mouros que descarregavam e a gente que as guarnecia deteve-se no serviço, vendo chegar o bando navegante.

Iam e vinham pirogas remadas por homens de busto nú e nas praias, cobertas de immundicies, andavam bandos apressados em algazarra, mercando e frautas concertavam, soavam tambores roucos e, por vezes, no ar, azas fortes batiam e aves de grandeza e larga envergadura iam-se ao céu em vôos arrojados, sumindo-se para lá das arvores, nas montanhas versudas que fechavam a terra.

TRAIÇÕES

LXXXIV

Assi que d'este porto nos partimos

Com maior esperança e mór tristeza,

E pela costa abaixo o mar abrimos,

Buscando algum signal de mais firmeza;

Na dura Moçambique, em fim, surgimos,

De cuja falsidade e má vileza,

Já serás sabedor, e dos enganos

Dos povos de Mombaça pouco humanos.

(CAMÕES, OS Lusiadas; canto V.)

Tendo o mouro noticia do surgimento da frota despachou emissarios que foram de visita ao Gama levando-lhe presentes e expondo o desejo do xeque de ir pessoalmente levar-lhe as boas vindas. O Gama, que desejava a amizade do mouro, pretendendo aproveital-a em seu serviço, não só accedeu ao que pedia como fez um dom de uma marlota, coraes e outros vários engodos enviando-lh'o com expressões de paz e de amizade. O mouro, porém, desdenhando os donativos, pedio-lhe algumas Peças de escarlata e, não levando as naus essa fazenda, com tal desculpa verdadeira o Gama respondeu.

(continua...)

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