Por Aluísio Azevedo (1884)
“ - Lê isto! É bastante que leias; não procures compreender, procura decorar. A cabeça é como a terra, não tem necessidade de conhecer a semente que recebe no seio; a natureza se encarregará de cumprir com os seus deveres. A tua inteligência é a natureza e os livros que te dou são a semente. Decora-os e mais tarde a planta brotará, sem que tu próprio descubras a razão por quê.
“ Eu obedecia. Dos meus seis anos até aos vinte e um, li nada menos do que dez mil volumes de diversos assuntos.
“ Meu professor nada me ensinava a fundo, nem consentia que eu me inclinasse para nenhuma especialidade.
“ - Não - dizia-me ele —, um verdadeiro sábio não deve ter especialidade. Tu deves saber um pouco de tudo e quase nada de todas as cousas. É preciso que entendas tanto de Teologia como de Botânica, como de Arquitetura, como da Arte Culinária, como de Economia Política, como de Literatura e do resto. Quero que a tua inteligência se derrame em torno de ti, pelo universo e não que ela se encanalize pelo tubo de uma especialidade.
“ Prefiro a extensão à profundeza; prefiro o estudo da humanidade ao estudo do homem; prefiro o estudo do homem ao estudo de um órgão ou de um osso; prefiro o estudo de um osso ao estudo particular de uma molécula, e prefiro o estudo de uma molécula ao de um átomo ou à especialidade de não estudar cousa nenhuma.
“ - Vês? — prosseguiu ele — é a isto que nos conduz a especialidade — a zero. A especialidade é o meio de ir apertando as cousas até reduzi-las a nada. Ser especialista e não ser cousa alguma vem a dar na mesma, porque nada adianta conhecer um elo de uma cadeia, quando a gente não conhece a cadeia inteira. Nada adianta conhecer a folha de uma árvore, quando não se conhece a árvore. Depois que saibas tudo sinteticamente, dar-te-ei licença para os teus estudos concretos; antes não, não admito que te demores defronte de nenhuma ciência particular.
“ Este sistema educativo do meu singular protetor, que nesse tempo eu supunha um sábio e que depois verifiquei não passar de um louco, esse sistema fez com que eu aos vinte e dous anos, quando me achei de novo abandonado no mundo, não encontrasse meios de ganhar a vida.
“ Entendia de tudo e nada sabia ao certo. Tentei todas as profissões, experimentei-me em todas as carreiras - nada. Sabia Medicina e não podia curar; sabia Direito não podia advogar; Engenharia e não era engenheiro; Pintura e não era pintor; Arquitetura e não era construtor; enfim entendia de tudo e não era nada.
“ Então fiz-me boêmio e filósofo; principiei a aceitar a vida como esta se apresentasse, sem me preocupar com o dia seguinte.”
- Foi nessas condições - acrescentou ele — que conheci uma velhusca, viúva de um farmacêutico, chamada Leonarda.
- Aquela que estava presa? — perguntei.
- Justamente.
“Minha sogra” — disse eu comigo; e dispus-me a continuar a ouvir o ressuscitado, cujas revelações foram-se-me tornando cada vez mais interessantes, como verá V. Sª. pela outra carta que lhe hei de mandar para a futura Semana.
Sou de V.Sª. Atº. Crº. e ven.or
Novas Revelações
Oitava Carta
Sr. Redator:
Chegado que fui a casa, em companhia do ressuscitado, disse a este que entrasse, acendi duas velas, ofereci-lhe uma cadeira e dispunha-me a ouvir com toda a atenção o fio de sua narrativa, quando ele me observou que estava a cair de fome e precisava refazer as forças com duas ou três costeletas antes de principiar de novo o diálogo.
“ Isso agora é que é o diabo!” - disse eu comigo, lembrando-me de que, depois que minha mulher abandonara aquela casa, nunca mais se acendera o fogão.
O ressuscitado, como se adivinhasse o meu pensamento, lembrou que fôssemos cear a um restaurante.
- Não - respondi eu -, é melhor ficarmos aqui. Temos de conversar longamente e precisamos para isso de toda a liberdade. Eu me encarrego de arranjar o que comer, é um instante! Fique o amigo à minha espera; não me demorarei muito. E, antes que ele apresentasse alguma objeção, saí gritando-lhe:
- Até logo.
- Veja se não se demora, hein? Tenho o estômago a gemer.
Saí de casa, meti-me no carro que havíamos deixado à porta, e fui comprar, ao primeiro hotel que encontrei, o necessário para uma ceia.
- Trouxe vinho? - perguntou-me o hóspede, logo que me viu voltar.
- Trouxe.
- Quantas garrafas?
- Duas.
- É pouco.
- Pouco?
- Decerto. Uma garrafa de vinho não chega para nada!...
- Mas eu trouxe duas...
- Uma não se conta!
- Não compreendo!
- São teorias do meu educador. E desculpe não entrar por enquanto em maiores explicações, porque já não me posso ter de fraqueza.
Dizendo isto, o meu singular hóspede havia já desembrulhado a cesta dos comestíveis, e tirava de dentro o conteúdo, exclamando a cada peça:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Mattos, Malta ou Matta? Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1725 . Acesso em: 15 mar. 2026.