Por Aluísio Azevedo (1882)
— Eu vinha dar um recado de certo moço que foi preso agora à noite...
— Gregório?! exclamou a viúva, perturbando-se toda. Oh! fale! fale! Diga o que é!
— Mas ele me recomendou que só desse o recado a certa moça, com quem tem relações há coisa de dois anos...
— Sou eu mesma! Fale!
— A senhora então é a viúva Júlia Guterres, a mesma que esteve na secretaria de polícia hoje à tarde?...
— Sou. Pode dar o seu recado!
Mas o velho, em vez de obedecer, endireitou o corpo, avançou dois passos, e soprou em um apito que trazia consigo.
— Que é isto?! perguntou Júlia, de novo aflita.
— A senhora está citada para depor hoje mesmo na polícia o que sabe a respeito de certa pessoa!
E o falso velho dirigiu-se a um soldado, de quatro que acudiram ao seu apito, e ordenou-lhe que acompanhasse aquela senhora à presença do chefe na secretaria de polícia.
— Sim, Sr. delegado! respondeu a praça.
— Bom! agora vamos nós à casa da noiva! acrescentou o disfarçado às praças que restavam, tirando as barbas e a cabeleira.
E seguiram para a casa de Clorinda.
Júlia entretanto, caminhava resiguadamente para a polícia. Não proferiu durante o caminho uma única palavra. Aquela situação, se por um lado a constrangia, por outro lhe alegrava o espírito, prometendo pôr a limpo tudo o que havia a respeito de Gregório.
O chefe recebeu-a em um gabinete onde já esperava por ela; fê-la assentarse, disse-lhe que podia descansar, e, depois de chamar o escrivão e ordenar que se preparasse, principiou o seguinte interrogatório:
CAPÍTULO V
DEPOIMENTOS
— Seu nome, minha senhora? perguntou o chefe de polícia à viúva.
— Júlia Guterres, respondeu esta, sem titubear.
— Seu estado?
— Viúva.
— Profissão?
— Vivo dos meus rendimentos.
— Quais são eles?
— Tenho ações, prédios e escravos.
— Conhece Gregório de Souto Maior?
— Muito.
— Desde quando?
— Há dois anos.
— E essa pessoa em que lhe diz respeito?
— Em tudo.
— Como assim? Tenha a bondade de explicar-se.
— Eu o amo!
— Perdão, observou o Dr. Ludgero, limpando no lenço as lunetas, que acabava de desarmar do nariz; pergunto se essa pessoa se acha porventura implicada de qualquer forma em seus interesses...
— De que espécie de interesses fala o senhor?
— Dos interesses pecuniários.
— Absolutamente, respondeu Júlia com um gesto de impaciência.
— E quais são os seus interesses em que ela se acha implicada? Sim! Visto ter a senhora, quando lhe falei dos interesses pecuniários, lembrando outros, é porque...
Referia-me aos interesses de meu coração, de minha felicidade!
— Ah!
— Posso dizê-lo abertamente, porque sou livre e senhora de minhas ações; peço-lhe todavia que não insista nesse terreno... Há certas coisas na existência de uma mulher, que lhe não poderiam ser arrancadas do coração sem um grande abalo do pudor, ou talvez de dignidade!...
— Compreendo perfeitamente, respondeu o chefe de polícia, colocando de novo as lunetas; mas a senhora deve saber que eu, no lugar em que estou, cumpro um dever sagrado! A justiça, minha senhora, tem por obrigação do cargo violar friamente todos os recintos e todos os segredos. Quanto não me custa ouvir às vezes os pormenores de uma desgraça vergonhosa ou de alguma negra miséria de família? Mas assim é preciso; eu aqui não sou um homem, sou simplesmente um instrumento da Lei. Tenha pois a bondade de abrir o coração e dizer-me tudo o que sabe a respeito de Gregório, que me poupará dessa forma o sacrifício de torturá-la com o meu interrogatório.
— Mas o que quer o Sr. que lhe diga?... Do que serve a minha pobre opinião a respeito de uma pessoa, a quem acabo de confessar que adoro?... Gregório, por pior que fosse para os outros, seria sempre para mim o ideal dos homens! O senhor, que naturalmente conhece o coração da mulher, deve compreender o que há de sincero e verdadeiro nas minhas palavras. Nós quando amamos, desejamos por tal modo descobrir boas qualidades e brilhantes dotes no objeto do nosso amor, que, seja ele a mais ruim das criaturas, nos aparece, à luz maravilhosa de nossa dedicação, radiante e belo como o sol!
— Conclui-se do que a senhora acaba de dizer, que, apesar de supor Gregório o melhor dos homens, não sustentará que ele seja incapaz de cometer um crime...
— Não tive semelhante idéia! Considero Gregório com os defeitos da sua idade e do seu temperamento. Ele seria capaz de cometer qualquer leviandade, qualquer tolice, mas nunca uma infâmia!...
— Sabe do que o suspeitam?
— Ouvi vagamente dizer, aqui mesmo, que se trata de um roubo e de um assassínio.
— E o que mais sabe a esse respeito?
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.