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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Você nega então que só a mim deve estar casado?

— Homem! não me amole, homem de Deus! Se, para — o ver pelas costas, tenho de dar duzentos mil réis — aqui estão! mas, por quem é, deixe-me em paz! — Ingrato!

Aí os tem, leve-os e não se incomode em voltar cá para restitui-los! Vá, vá — com Deus!

— Sim! disse o Guterres com ênfase, tomando o chapéu e a bengala — sim!

levo comigo o vil dinheiro, porque desgraçadamente não tenho outro remédio; mas também sabendo que, de sua parte, é uma covardia aproveitar o aperto em que me acho, para injuriar-me desse modo!

— Fomente-se! respondeu o Borges, dando-lhe as costas.

O outro, desde aí, não o poupou mais. Logo no dia seguinte, em uma roda onde se falava do mestre de obras, teve ocasião de lhe meter as botas. — Além de um grande pedaço d'asno, é um impostor! bradou e]e. Pensa, lá por ter os seus mil réis, que é superior a todo o mundo! Um tolo!

E apontou as toucas do Borges, as transformações que sofrera o basbaque depois do casamento. Mas quase todos lançaram esses comentários à conta da inveja, e o marido da encantadora Filomena ia, cada vez mais, ganhando a reputação de um homem completamente feliz.

Entretanto, as exigências daquela multiplicavam-se, e o Borges continuava a submeter-se, estribado sempre na grata esperança de possuí-la um dia.

Vieram as festas, os bailes; Filomena principiou a luzir nas salas, a ofuscar. Sua beleza, sua vivacidade espiritual e romanesca, postos agora em relevo pelos mil réis do marido, tomaram proporções dominadoras.

Era sempre a rainha dos lugares onde se achava; a mais querida, a mais falada, a mais desejada.

Todos viam no Borges um cúmulo de fortunas — os homens invejavam-no, mas nenhum deles se podia gabar de ir um ponto além de sua inveja. Filomena a todos prendia igualmente na mesma rede de atrações, sem dar a nenhum direito de avançar, nem ânimo de fugir. Se o sorriso prometia — o olhar negava; e se de seus olhos escapava porventura uma dessas faunas satânicas, que acendem no coração mil esperanças a um tempo — era uma frase, enérgica e pronta, que vinha destruir de chofre a indiscreta promessa dos olhos.

E o Borges, apesar de marido, não estava ileso dessas condições; feliz aos olhos de todos, ia arrastando ele o seu desgosto, sem poder confessar a pessoa alguma os tormentos que o devoravam. Esta circunstancia ainda o fazia sofrer mais.

— És um felizardo! Repetiram-lhe a todo o instante. E essa maldita frase produzia-lhe o efeito de um ferro em brasa. Evitava já ficar a sós, nas janelas ou nos cantos da sala, com os amigos mais chegados, para não ouvir a constante glorificação daquela felicidade, que só existe na imaginação deles.

— Para você é que é esta vida!... diziam-lhe. — Meu caro. quem nasce sob uma boa estréia, não tem que se apoquentar com a sorte!

E o Borges sacudia os ombros, sorrindo contrafeito. Mas a sua tristeza aumentava; o seu vigor descrecia, e todo ele ia parecendo vítima de uma grande enfermidade.

— Você precisa ter um pouco de cuidado, segredou-lhe uma vez o médico. — Olhe que o mundo não se acaba, meu amigo! Isso pode prejudicar mesmo a sua senhora, que, em todo o caso, é uma mulher e tem a constituição mais delicada! Não convém abusar! Não convém abusar!

— E isto é dito a mim! a mim! exclamava o Borges, a bater no peito, chorando, logo que se achava só. Mas não desanimava, certo de que os sacrifícios dedicados à cruel deusa de seus sonhos teriam, mais cedo ou mais tarde, uma recompensa. — Oh! só de pensar em tal, o coração saltava-lhe por dentro.

Não obstante, as exigências continuavam a surgir, e ele continuava a render-se, cada vez mais submisso e mais vencido.

Agora já lhe não custava suportar os bailes de cerimônia, e recebia duas vezes por mês. Aquele homem, que dantes, ao bater das onze, se recolhia invariavelmente aos seus travesseiros, passava agora todas as noites em uma roda

de etiquetas, a cortejar para a direita e para a esquerda, a rir, a lisonjear, a fazer-se fino. Suas reuniões tornavam-se famosas pela suntuosidade, profusão bem escolhida dos vinhos, excelência dos bufetes, boa música e esplêndida variedade de convivas de ambos os sexos.

— Não há dúvida! E um felizardo! insistiam os amigos.

— Que mulher possui o ladrão! — formosa, distinta, elegante, inteligente e, além de tudo, honesta! Parece que só vive para o marido! Definitivamente, não há outro mais feliz!...

Só o mísero esposo não pensava dessa forma. Agora os caprichos da mulher impunham-lhe uma provação terrível para ele, e a pior de todas que até aí cometera; Filomena exigiu que o desgraçado aprendesse a valsar.

Valsar o Borges! O Borges! o homem mais incompatível com a dança!

Foi preciso arranjar um professor discreto, que lhe desse as lições em casa, às ocultas, todos os dias, das três às cinco da tarde.

(continua...)

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