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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Lúcia, cheia de melancolia, a fitar o cadáver, em silêncio, com os seus belos olhos alterados pelo abuso das lunetas. Agora morava ela com o seu Pereira em Niterói, numa casa de pensão de um italiano, educador de cães e macacos. Era a terceira que percorria depois da Rua do Resende.

Lá esteve, de passagem, o Fontes, com as suas amostras de renda debaixo do braço; lá esteve o triste Paula Mendes, para fazer a vontade à mulher, que exigira ver a “vítima daquele grande cão!’; lá esteve o Dr. Tavares que parecia tomar cada vez mais interesse no “escandaloso assassínio”. E, quem diria? Até lá esteve o esquisitão do Campelo que muito dificilmente se abalava com as questões alheias.

Por toda a cidade só se pensava no “crime do Hotel Paris”; os jornais saíam carregados de notícias e artigos sobre ele, esgotavam-se as edições da defesa e da acusação de Amâncio; vendia-se na rua o retrato deste em todas as posições, feitios e tamanhos; moribundo, em vida, na escola, no passeio. E tudo ia direito para os álbuns, para as paredes e para as coleções de raridades.

Hortênsia, quando lhe constou o terrível desfecho daquele episódio que, na sua fantasia romântica, tomava as proporções de um poema, caiu sem sentidos e ficou prostrada na cama por uma febre violenta. Durante esse tempo, o marido procurava na prisão o assassino para lhe oferece os seus serviços e pôr à disposição dele o dinheiro de que precisasse. “Coqueiro podia ficar tranqüilo — nada lhe havia de faltar à família, nem mesmo a pensão de Nini.”

E foi em pessoa dar as providências para o enterro do outro.

* * *

O funeral atingiu dimensões gigantescas; parecia que se tratava das morte de um grande benemérito das Pátria.

Por influência do advogado de Amâncio, que era político e bem relacionado, compareceram muitos figurões e até alguns homens do poder. Houve senadores, ministros em vigor, titulares de vários matizes, altos funcionários públicos, artistas de nome, doutores de toda a espécie, clubes de todas as ordens, ordens de todas as devoções, jornalistas, negociantes, empresários, capitalistas e estudantes; estudantes que era uma coisa por demais.

A cidade inteira abalou-se, demoveu-se, para deixar passar aquela estranha procissão de um magro cadáver de vinte anos.

Veio muita gente dos arrabaldes. De todos os cantos do Rio de Janeiro acudia povo e mais povo a ver o enterro. As ruas, os largos, por onde ele ia, ficavam acogulados de gente; os garotos grimpavam-se aos muros, escalavam as árvores, subiam às grades das chácaras; as janelas regurgitavam, como num domingo de festa.

O caixão foi carregado a pulso , coberto de coroas; no cemitério ninguém se podia mexer com a multidão que afluía.

Um delírio!

E no dia seguinte, descrições e mais descrições jornalísticas; necrológios, artigos fúnebres, notícias biográficas e poesias dedicadas à “triste morte daquelas vinte primaveras”.

E, o que é mais raro, o fato não caiu logo no esquecimento , porque aí estava o novo processo do assassino para lhe entreter o calor, à feição de um banho-maria. Continuavam, pois, as notícias jurídicas; Coqueiro ia se popularizando, ia conquistando opiniões e simpatias; ia aos pouco se instalando no lugar vago pelo desaparecimento do outro. Mitos colegas se voltavam já a favor dele; até o Simões até o Paiva!

O Paiva, sim! que agora , completamente restaurado com as roupas herdadas de Amâncio , deixava-se ver a miúdo nos pontos mais concorridos da cidade e, entre as palestras dos amigos, mostrava-se todo propenso a justificar o ato do irmão de Amélia.

— Não!, dizia ele, quando lhe tocavam nesse ponto não! O Coqueiro andou bem!...Eu, se tivesse uma irmã, fosse ela quem fosse, faria o mesmo naturalmente!...

* * *

Entretanto, pouco depois do enterro, no meio do burburinho de passageiros chegando no vapor do Norte, uma senhora já idosa, coberta de luto, saltava no cais Pharoux.

Vinha acompanhada por uma mulata, que trazia constantemente os braços cruzados em sinal de respeito, e por um velho gordo e bem vestido, cujas maneiras faziam adivinhar que ele ali não passava de um simples companheiro de viagem.

Como se já tivessem resolvido no escaler o que deviam fazer logo que saltassem, o velho, mal se viu em terra, chamou por um carroceiro, deu a este a sua bagagem com o competente endereço, fez sinal à mulata que seguisse a carroça e, depois de ajudar a senhora a sair do bote, perguntou, solicitamente, se ela queria tomar um carro.

A senhora, muito inquieta, respondeu que preferia ir a pé, e os dois, de braço dado, puseram-se a andar na direção da Rua Direita.

Essa senhora era D. Ângela.

O Campos já lhe havia escrito, comunicando a prisão do filho. A princípio, não se achou com ânimo de falar nisso à pobre mãe; mas seus escrúpulos fugiram totalmente, desde que lhe chegou às mãos aquela terrível denúncia do Coqueiro.

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