Por Aluísio Azevedo (1882)
— Não se trata agora disso! replicou Tubarão: não se trata de dar cabo de nenhum mau; trata-se é de entregar um valor que nos não pertence. Enquanto querias uma ajuda para despachar aquele maroto, pronto! e não me arrependo disso; mas lá para roubar é que não me presto! Ou tu me entregas o dinheiro, ou eu te denuncio à polícia. Escolhe!
— Ora, deixa-te disso, pediu ainda o outro, procurando torcer o caráter do marinheiro.
— Já te disse o que tinha a dizer! volveu este. Ou entregas o cobre, ou vai tudo ao ouvido do Dr. Ludgero. Eu cá não sirvo de capa a ladroeiras! Não sou santo, mas nunca estas mãos se sujaram com o alheio!
E Tubarão, com ar firme de homem resoluto, ia forçar o companheiro a que lhe entregasse o roubo, quando este, recuando na ação destra da capoeiragem, acometeu contra ele, procurando abrir-lhe o pescoço com a navalha.
Mas Tubarão desviou-se prontamente, e a lâmina, mudando de direção, entranhou-se-lhe pelo pequeno peitoral do lado direito.
Talha-certo recuou com um novo salto e de novo investiu contra o companheiro, ferindo-o então no braço, porque o rijo marujo, apesar do sangue que lhe saltava da ferida, ainda se agüentava bem nas pernas e ainda se defendia, tentando apoderar-se do facínora.
Este deitou a correr, Tubarão tentou persegui-lo, mas a vista principiou a escurecer-lhe, as pernas a lhe fraquejarem, e com muito custo conseguiu ele chegar onde morava pobremente com um seu velho companheiro do mar.
O companheiro não estava em casa. Tubarão recolheu-se à cama e perdeu de todo os sentidos. Só os recuperou muito depois, quando a febre principiou a ceder. O médico, que o companheiro de casa fora buscar, recomendara que o não obrigassem a falar e não lhe dessem a beber senão os medicamentos receitados.
Entretanto, sabe já o leitor o caminho que, durante esse tempo, tomaram as coisas concernentes ao assassínio do Pedro Ruivo e ao roubo perpetrado na casa Paulo Cordeiro. A policia continuava a trabalhar, mas trabalhava muito reservadamente e quase sem resultado algum.
De Gregório ninguém dava notícias.
Nestas circunstâncias, chegaram as coisas ao ponto em que as deixamos, quando a desventurosa Clorinda se recolheu à casa de Júlia Guterres, onde a pobre velha Januária conseguia escapar ao peso dos seus sofrimentos.
Como vimos, a penetrante viúva foi a única que suspeitou das intenções de João Rosa e principiou a estudar a atitude que o antipático rapaz tomava ao lado da sua hóspede.
Por então, um paquete europeu ancorava na Guanabara e uma família saltava no cais Pharoux.
Nada menos que o conde de S. Francisco, a esposa, a filha e um moço de uns vinte e cinco anos, no qual o leitor, se o visse, reconheceria logo o nosso Gregório.
Ao lado deste caminhava o Dr. Ludgero, com o ar satisfeito de quem alcança
vitória.
Seguiu-se então o mais estranho e enovelado processo de que se pode gabar a justiça brasileira. Nesse tempo não se falava noutra coisa: o escândalo agitou por muitos dias a curiosidade do público e fechou todos os personagens deste romance no mesmo círculo de interesse.
O conde de S. Francisco trazia consigo, felizmente, os documentos justificativos da herança que Gregório acabava de receber do Minho. Entretanto, era necessário descobrir os verdadeiros autores do roubo e do assassínio. O processo continuava.
Apresentaram a Gregório a fotografia de Pedro Ruivo. Gregório disse francamente o que sabia da vida daquele homem, contou as aventuras da Avenida Estrela; o delegado fez vir à sua presença o Papá Falconet, o padre Almeida, o Augusto e o Afonso, mas nenhum deles adiantou o menor esclarecimento.
Estava reservado a Tubarão destruir as trevas acumuladas em torno do crime. Foi ele quem chamou a atenção da justiça sobre o comendador Portela, quem falou nos documentos deste, quem contou a intervenção de João Rosa, o motivo do ataque que sofreu Pedro Ruivo e, finalmente, o roubo cometido pelo Talha-certo, que Tubarão afirmou se achar naquele momento escondido em casa do Portela.
Talha-certo, com efeito, foi encontrado ali e conduzido imediatamente para a casa de correção. O Gonçalves reembolsou parte do dinheiro roubado; o ladrão e assassino foi condenado a galés perpétuas, e o Portela gramou quatro meses de prisão e multa correspondente, além de perder de todo a esperança de casar com Matilde, a rica pupila do boticário Moreira, a qual havia coisa de um ano deixara a casa de D. Januária, para acompanhar uma família conhecida da sua, que seguia para S. Paulo.
Bem previa Portela que os tais documentos ainda lhe haviam de dar água pela barba!
O que causou grande impressão nos tribunais, foi a vida do marinheiro, contada por ele próprio, com toda a eloqüente singeleza da sua linguagem expressiva e grosseira.
Tubarão disse tudo o que sabia a respeito do seu saudoso comandante e falou em Clorinda, em Henriqueta e D. Januária. Esta circunstanciou o que havia a respeito de sua filha adotiva e relatou as particularidades da mesada, cuja suspensão coincidia com a morte de Leão Vermelho.
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.