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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Onde é o quarto do Amâncio? perguntou-lhe João Coqueiro.

— Amâncio?...repetiu aquele, emperrando no meio da sala para fitar o interlocutor com um olhar morto de sono! - Ah! bocejou. — O tal moço do pagode de ontem?...

Coqueiro sacudiu a cabeça perpendicularmente.

— É cá, no número dois, mas escusa bater, que ele aí não está. Ficou lá em cima, no onze, com a Janete.

E, voltando ao serviço: — Se não é coisa de pressa, o melhor seria procurá-lo mais logo...Deve de estar agora ferrado no sono, que levou na pândega até as quatro e meia!...

Coqueiro voltou-lhe as costas e dirigiu-se para o segundo andar. Bateu à porta no n.º 11.

Ninguém respondeu.

Tornou a bater.

Bateu de novo.

— Qui est là!...perguntou na rouquidão do estremunhamento uma voz de mulher.

— Preciso falar a esse rapaz que aí está, o Amâncio!

Ouviu-se um farfalhar de panos, chinelas arrastaram, e em seguida a porta abriu-se cautelosamente, mostrando pela fisga um rosto gordo, de olhos azuis.

— Qui est là...

Mas o Coqueiro, em vez de responder, afastou a porta com um murro e atirou-se para dentro do quarto; ao passo que a Jeanete, esfandogada de medo, desgalgava em fralda o escadarão que ia ter ao primeiro andar.

Amâncio, em uma cama muito cortinada e muito larga, dormia profundamente, de barriga para o ar, pernas abertas e braços atirados sobre a desordem das colchas e dos lençóis. No chão, ao lado do escarrador, um travesseiro caído, e em torno, por todo o desarranjo da alcova, roupas espalhadas.

O Coqueiro olhou um instante para ele, sem pestanejar; depois, sacou tranqüilamente o revólver da algibeira e deu-lhe um tiro à queima – roupa.

Amâncio soltou um ai.

A segunda bala já o não pilhou, mas o irmão de Amélia, abstrato, pateta, continuava a disparar os outros tiros até que a arma lhe caiu das mãos.

Nisto, como se acordasse de uma vertigem, saiu a correr tropeçando em tudo. No primeiro andara um polícia lançou-lhe as garras aos cós das calças e o foi conduzindo à sua frente, sem lhe dizer palavra.

Entretanto, Amâncio despertou com um novo gemido e levou ao peito as mãos que se ensoparam no sangue da ferida. Olhou em torno, à procura de alguém; mas o quarto estava abandonado.

Então, fechou novamente os olhos estremecendo, esticou o corpo — e uma palavra doce esvoaçou-lhe nos lábios entreabertos, coimo um fraco e lamentoso apelo de criança: – Mamãe!..

E morreu.

CAPÍTULO XXII

Começou logo a reunir povo na porta do hotel. Faziam-se grupos; os repórteres andavam num torniquete; via-se o Piloto por toda a parte, irrequieto, farisqueiro; e o fato ia ganhando circulação, com uma rapidez elétrica. Pânico sobressalto quebrava violentamente a plácida monotonia da Corte; mulheres de toda a espécie e de todas as idades empenhavam-se com a mesma febre na sorte dramática do infeliz estudante, e o Coqueiro, alado pela transcendência de seu crime, principiava a realçar no espírito público, sob a irradiação simpática e brilhante de sua corajosa desafronta.

Às dez horas da manhã já se não podia entra facilmente no necrotério, para onde fora, sem perda de tempo, conduzido o cadáver de Amâncio, entre um cortejo imenso de curiosos.

Choviam as interpretações, os comentários sobre o fato; todos queriam dar esclarecimentos, explicar os pontos mais obscuros do grande sucesso. “A bala atravessara-lhe as regiões torácicas e fora cravar-se num osso da espinha”, afirmava um homem alto, elegante, de cabelos brancos, cujo ar empantufado prendia a atenção dos mais.

Esse homem, que alguns tomavam por um médico, outros por qualquer autoridade policial; outros por um jornalista, outros por um dos professores da faculdade, onde estudava o defunto, não era senão o Lambertosa — o ilustre – gentleman da casa de pensão da Mme. Brizard.

E, sempre distinto, sempre viajado, pronto sempre a explicar as coisas cientificamente, agitava a bengala afagando a barriga bem abotoada, e de pernas abertas, pescoço duro, ia estadeando a sua “grande intimidade” com o célebre morto; citando fatos, contando magníficas anedotas que se deram entre os dois.

Ah! Era um moço de invejável talento! — Boa memória, compreensão fácil e gosto cultivado. Para a retórica ainda não vi outro...Não, minto — em Londres, em Londres, confesso que encontrei um outro nessas condições!...

E punha-se a falar de Londres, e passava depois à França, à Itália, à Europa inteira, e chegaria até aos pólos, se alguém quisesse acompanhá-lo na viagem.

Muitos outros dos antigos inquilinos de Mme. Brizard também apareceram no necrotério. Lá esteve a pálida

(continua...)

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